‘A tecnologia existe para servir a humanidade’, diz chefe global de design do Google

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‘A tecnologia existe para servir a humanidade’, diz chefe global de design do Google

Fernando Scheller

24 de junho de 2019 | 06h21

Desde 2016 à frente da equipe de design de equipamentos do Google, a executiva Ivy Ross tem uma formação bem diferente do perfil que se vê tradicionalmente em empresas de tecnologia. Formada em arte, psicologia e com experiência como designer para empresas como Swatch, Calvin Klein Mattel, ela busca garantir que a linha de produção do Google entregue produtos mais “humanos”.

Ivy Ross, vice-presidente de design de hardware do Google: trabalhos para Calvin Klein e Mattel (Foto: Soraya Ursine/Estadão)

“A tecnologia existe para servir a humanidade”, diz a executiva, que buscou inspiração em novos materiais, como tecidos, e em  formas ligadas à natureza para os hardwares da companhia. E tudo com a missão de entregar produtos a um preço competitivo. “O objetivo (do Google) é fazer tecnologia acessível a todos.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Com a emergência dos equipamentos ativados por voz, a tecnologia ficará mais ‘humana’?

Sim. É por isso que nós buscamos um toque e uma aparência mais humanos aos aparelhos. A interação com voz é mais natural e humana do que a feita por meio de digitação. Por isso, para o Google Mini, buscamos uma forma mais arredonda, inspirada por pedras marítimas. Usamos também mais cores e materiais, como tecido. Alguns engenheiros defendiam que era mais fácil fazer uma caixa, mas tive de dizer não. O produto deve ser funcional, mas também deve se misturar à casa das pessoas e ser uma adição bonita ao ambiente.

Como foi montado o time de design do Google?

Temos 60% de engenheiros e 40% de designers que vieram das mais variadas indústrias, como móveis, roupas e produtos para casa. Esse time busca tanto a funcionalidade do aparelho quanto a aparência – e as coisas sempre têm de andar juntas. Nossa visão é que não dá para abrir mão nem de uma coisa nem de outra. O design visa a solução de problemas humanos, dentro de certas barreiras, como tamanho físico do aparelho e preço.

Há muita concorrência no setor de hardware. Como o Google vai se diferenciar?

O Google entrou tarde no segmento de hardware. Então precisávamos ser diferentes de outras marcas, que usam metais brilhantes (no design). Para decidir o caminho que seguiríamos, buscamos inspiração no DNA do Google e achamos três palavras-chave: humano, otimista e ousado. É isso que queremos em nossos produtos. O Google Mini talvez seja hoje o aparelho que resuma melhor essas qualidades.

Esse salto do Google para o hardware está ligado às casas conectadas?

Com a casa conectada, a relação com a tecnologia será muito fluida. Quando as pessoas saírem, a informação necessária terá de ser carregada para a rua, pelo telefone ou por dispositivos vestíveis. Então, resolvemos criar nosso próprio hardware para atingir um nível superior, dar o exemplo mais claro de como os aparelhos devem ser daqui em diante.

Com o uso tantos aparelhos ao mesmo tempo, como evitar que a tecnologia se torne uma fonte de estresse?

Acho que todos os tipos de tecnologia fazem essa reflexão no momento, pois é necessário encontrar o equilíbrio de como as pessoas querem ser notificadas. Então, você tem razão: buscamos descobrir qual informação é necessária e em qual momento. Além disso, é preciso garantir que tudo possa ser personalizado. O mesmo vale para a interação por voz: é preciso entender qual informação que cada pessoa vai querer compartilhar com uma máquina.

A Apple hoje é reconhecida pelo design, mas pratica altos preços. O Google vai conseguir entregar bom design a preços acessíveis?

Outras marcas entregam belo design, mas de forma extremamente refinada. O Google lançou nos EUA um smartphone a US$ 399 – um preço muito mais barato do que o de outras marcas. Então, a ideia é garantir que a tecnologia seja acessível para todos. É um trabalho bem mais difícil do que servir a um grupo específico.

Sua formação é bem diferente daquela que se espera de um chefe de design de empresa de tecnologia. Como você chegou ao Google? 

Meu pai era um designer de carros e produtos. Até projetou a nossa casa, que estava tão à frente do tempo que foi usada em um filme de Andy Warhol. Quando fui para a escola de arte, as pessoas desvalorizavam o design. Eu vejo assim: o designer resolve problemas, enquanto o artista se expressa. Comecei em moda e bens de consumo. Trabalhei em empresas como Swatch, Calvin Klein, Coach e Mattel. Esse é meu primeiro cargo em uma empresa de tecnologia.

E a sua experiência influencia na forma em que você treina sua equipe?

Sim. Se você fica sempre dentro de uma mesma caixa, aquele ambiente te absorve. Então, levei todo o meu time para uma fazenda. Eles disseram que, durante essa experiência, o tempo passou mais devagar porque eles viram coisas diferentes, colheram flores e analisaram suas cores. E isso é apreciar o mundo, porque eu acredito que a tecnologia existe para servir a humanidade, para amplificar nossa humanidade e não para tirá-la de nós.

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