Gravação de comercial vira ‘odisseia’ e fica até 15% mais cara na pandemia

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Gravação de comercial vira ‘odisseia’ e fica até 15% mais cara na pandemia

Fernando Scheller

27 de julho de 2020 | 06h00

A pessoa que entra em um local de filmagem de um comercial em maio à pandemia de coronavírus pode se ver, de repente, transportado para um cenário de filme catástrofe. Ao longo do mês de julho, várias marcas, agências de publicidade e produtoras voltaram à ativa para a gravação de comerciais depois da definição de um protocolo de segurança sanitária. É uma boa notícia para o setor, que ficou praticamente parado por mais de três meses.

Para gravar um comercial para a varejista Casas Bahia, a agência Young & Rubicam e a produtora Mixer montaram na semana passada uma operação de guerra no Parque da Juventude, na zona norte de São Paulo. Prevenir o coronavírus é difícil e sai caro. Segundo fontes do setor, o chamado “custo covid” amplia os custos de produção de filmes publicitários entre 10% e 15%.

Sinalização e cuidados em set de filmagem de comercial da Casas Bahia (Foto: Taba Benedicto/Estadão)

Nesses tempos de pandemia, o clima de camaradagem e de caos nos sets foi substituído por uma aura de cuidado e distanciamento. “Há um limite do total de pessoas por filmagem – recomenda-se um time de até 25 pessoas. Além disso, são feitos testes – para revelar se a pessoa tem ou não anticorpos para o vírus – com três dias de antecedência. E a distância mínima entre as pessoas é de 2 metros”, conta Ingrid Raszl, diretora executiva da Stink, que gravou comerciais para WhatsApp e Nike nos últimos meses.

Apesar de a equipe previamente contratada fazer os testes com antecedência, os sets mantêm uma estrutura para garantir que visitantes ao set não acabem contaminando a equipe. O fotógrafo do Estadão fez um teste rápido de covid-19 ao chegar para registrar a gravação do comercial da Casas Bahia. Além disso, recebeu um kit com máscara, luvas, avental e protetor facial. Antes de registrar as filmagens, passou por um túnel de desinfecção – só por garantia.

Mesmo depois de toda a equipe estar protegida, testada e higienizada, o trabalho de vigilância não acaba. O protocolo definido pela Associação Brasileira de Produção de Audiovisual (Apro) exige um bombeiro presente em cada produção. Esse profissional atua como uma espécie de “vigia” do distanciamento social – se a equipe começar a se descuidar, recebe uma advertência. Na hora do almoço ou do café, nada mais de serviço de buffet liberada: agora, a comida é servida em embalagens individuais – e cada um come no seu canto.

Luz, câmera, distanciamento social: trabalho feito de longe (Foto: Taba Benedicto/Estadão)

Todas essas mudanças deixam o trabalho mais caro e lento. Era comum que gravações de comerciais e filmes se estendessem por 12 horas, como uma forma de reduzir o número de diárias. A prática agora não é mais permitida. “Limitamos o dia do trabalho a dez horas”, diz Marianna Souza, presidente da Apro. “Está comprovado que, se as pessoas ficam cansadas, elas esquecem das medidas de proteção.”

Volta do entretenimento vai demorar mais

Enquanto o mercado de publicidade já começou a retomar produções mais simples, filmes e séries ainda vivem um limbo. A TV Globo planeja a retomada das gravações de uma de suas novelas – Amor de Mãe, exibida às 21h – para agosto. Mas, ao contrário da principal emissora do País, que tem estúdios e times próprios, o trabalho independente tem um modelo mais pulverizado, com equipes contratadas por obra.

Além de empresas como Netflix, Amazon e HBO não ainda estarem dispostas a correr o risco de saúde para retomar produções que estão paralisadas desde março, fontes de mercado afirmam que filmar uma série com o atual protocolo sanitário seria economicamente inviável. A produtora Paranoid fez recentemente a série Todxs Nós para a HBO. Apesar de a produção ter um número limitado do cenários, as exigências atuais poderiam elevar o custo de uma eventual segunda temporada em até 50%, de acordo com Egisto Betti, sócio e diretor executivo da Paranoid.

Bombeiro no set: de olho na distância mínima de segurança (Foto: Taba Benedicto/Estadão)

Por isso, tanto a Apro quanto as produtoras não têm muita esperança de que as séries brasileiras retomem as filmagens antes de 2021. “Geralmente, a filmagem de uma série leva de 12 a 15 semanas. A lentidão do processo atual adicionaria muitas diárias ao orçamento – e, mesmo assim, o risco de saúde não seria eliminado”, diz Betti. O consenso é que produções mais complexas dependem de dois fatores: o efetivo controle da epidemia ou a esperada chegada da vacina.

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