Tecnologia para gerar turismo

Daym Sousa

31 de agosto de 2012 | 18h00

Cadu Caldas e Tiago Cisneiros

Somadas, as populações de Campo Verde e Dom Aquino não lotariam o estádio do Pacaembu, em São Paulo, que tem capacidade para 40 mil pessoas. Ainda assim, os dois municípios do interior de Mato Grosso atraem até 200 visitantes por mês que movimentam mais de R$ 2,5 milhões por ano. Em 2005, as duas cidades inauguraram no Brasil o chamado turismo tecnológico, segmento que tem como base excursões a empresas e fazendas inovadoras. Sete anos depois, o sucesso dessa atividade já inspira outras localidades com poucas atrações tradicionais.

Incipiente, o turismo tecnológico ainda não tem números oficiais no País. O Ministério do Turismo, que admite não dispor de dados, destaca na internet as experiências bem-sucedidas das cidades de Campo Verde e Dom Aquino. “Em um estudo da área, identificamos a possibilidade de apostar na força da tecnologia. Já havia um fluxo de pessoas interessadas em conhecer as fazendas, mas era preciso organizá-lo”, diz a coordenadora de projetos da consultoria Secullos Tour, Tatiana Fernandez, que montou o circuito nos dois municípios.

Segundo ela, o roteiro foi inspirado no modelo americano conhecido como farm show, que apresenta propriedades rurais com tecnologia e sustentabilidade. Hoje, 70% dos visitantes são empresários estrangeiros, que gastam de R$ 500 a R$ 700 por dia nas cidades, com permanência média de três dias.

A consultoria aproveitou a experiência nos dois municípios do Mato Grosso para investir em outras cidades da região. Ainda neste ano, devem ser inaugurados os circuitos tecnológicos de Nova Mutum, em Mato Grosso, e do Tecnocampo, que engloba 12 empreendimentos dos municípios goianos de Chapadão do Céu, Jataí e Rio Verde. Outro roteiro em desenvolvimento é o de Grande Dourados, idealizado pela Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul e parceiros, com operações previstas para começar em outubro.

No norte do Paraná, o agronegócio divide as atenções dos turistas com outros setores, como tecnologia da informação (TI) e construção civil. Em Londrina, do total de 1,2 milhão de visitantes anuais, cerca de 15 mil são atraídos pela possibilidade de conhecer as empresas locais. “Existem vários roteiros, conforme os interesses e os perfis dos grupos. Temos cinco agências de viagens trabalhando com esse público”, afirma o gestor executivo do Londrina Convention & Visitors Bureau, Diego Menão.

Frequentemente, as visitas abrem portas para negócios entre os empresários paranaenses e os de outros estados e do exterior. A ligação passa, em geral, pela agência de desenvolvimento Terra Roxa. “Antes das visitas, fazemos uma pesquisa para montar uma pauta produtiva, de onde surgem parcerias”, explica o diretor-executivo da organização, Alexandre Farina. Em sete anos de atuação, a Terra Roxa já organizou a vinda para Londrina de 40 delegações de mais de 20 países.

Para a fabricante de softwares Oniria, com sede em Londrina, a nova rede de contatos criou a possibilidade de exportar jogos eletrônicos e programas corporativos no primeiro trimestre do próximo ano. De olho nos mercados dos EUA e Alemanha, o diretor Jorge Anelli prevê que a internacionalização responda por 15% da receita da empresa em 2013 e por 40% em 2016. A ponte com o exterior também vem sendo importante para a Modular, empresa de Maringá, especializada em venda, locação e instalação de equipamentos para elevação de cargas. “Estamos investindo na prestação de serviços, como a montagem do maquinário exportado pelos sete ou oito fabricantes da Espanha com os quais trabalhamos”, conta o sócio-gerente Pep Capdevilla, um espanhol que se mudou para o Brasil há quatro anos, após conhecer o norte do Paraná numa viagem. Com esse foco, ele acredita que o faturamento pode triplicar em 2013 na comparação com 2012.

Mesmo sem roteiros específicos, São Carlos, no interior paulista, também se destaca por despertar a atenção de gente interessada em inovações e negócios. Na cidade, que abriga dois parques tecnológicos, esse público é tão forte que o departamento de turismo da prefeitura está subordinado à Secretaria de Ciências e Tecnologia. Para o chefe da pasta, Tobias Junior, o mapeamento e o suporte às empresas são essenciais para a atração de turistas e investimentos. Já o Instituto Inova São Carlos faz a ponte entre as universidades e o mercado, promovendo apresentações e visitas a laboratórios. A entidade tem 64 empresas associadas e 25 parceiras.

Caminho inverso

O surgimento do turismo tecnológico no País coincide com a criação de roteiros internacionais. A agência de viagens Adventure Weekend, de Brasília, por exemplo, está prestes a realizar a primeira excursão ao Vale do Silício, nos Estados Unidos, destino conhecido por sediar gigantes como Google, Facebook, IBM, Apple e Intel. O pacote foi elaborado a partir do pedido de uma faculdade, mas deverá ser mantido no calendário fixo da agência a um custo aproximado de R$ 4,9 mil por pessoa.

Já a companhia curitibana de TI Dharmatech se prepara para encabeçar uma missão empresarial para as cidades indianas de Déhli, Hyderabad, Puna e Bangalore – chamada de Vale do Silício do Oriente. O projeto deve se concretizar até o próximo ano. Segundo o diretor da empresa, Jorge Edison Ribeiro, o pacote terá duração de 15 dias e custará em torno de US$ 5 mil por pessoa.

Em 2009, uma missão semelhante, organizada por empresários gaúchos, resultou na vinda da empresa de TI indiana HCL para o parque tecnológico Tecnosinos, localizado em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. “O Brasil oferece a perfeita relação entre economia e oferta de talentos, que nos permite servir aos clientes da região, mas também dos Estados Unidos e Europa”, diz o vice-presidente para Economias Emergentes da HCL, Sandeep Kalra. Hoje, a multinacional emprega 400 pessoas no País.

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