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Crescimento e inovação

Daym Sousa

31 de agosto de 2012 | 18h00

Entrevista: Não existe crescimento sustentável sem inovação, diz pesquisador francês

Stefânia Akel

Bruno Lanvin: " A ligação entre crescimento e inovação não é óbvia. É possível crescer em períodos de pouca inovação, assim como é possível inovar em períodos de baixo crescimento" (FOTO DIVULGAÇÃO)

O Brasil ocupa a 58ª posição no Índice de Inovação Global (GII, na sigla em inglês) de 2012, ranking que mede a inovação dos países e é liderado pela Suíça. Realizada pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês) e a Insead, escola francesa de negócios, a pesquisa avaliou 141 países, que correspondem juntos a 99,4% do PIB mundial. De zero a 100, a nota brasileira foi 36,6. Para o francês Bruno Lanvin, diretor executivo do setor de competitividade e inovação da INSEAD e um dos responsáveis pela pesquisa, o problema do Brasil está mais concentrado nas instituições e no capital humano para pesquisa do que nos investimentos. Nesta entrevista, ele compara o Brasil com os outros BRICs, discute as condições do País para inovar e alerta: “O crescimento sustentável não ocorre sem inovação”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual foi a conclusão da pesquisa sobre a situação do Brasil no mercado de inovação?
Bruno Lanvin: Como membro dos BRICs, o Brasil está em destaque no mundo. A ligação entre crescimento e inovação, no entanto, não é óbvia. É possível crescer em períodos de pouca inovação, assim como é possível inovar em períodos de baixo crescimento. O mais importante é que o crescimento econômico sustentável, aquele que se mantém estável ao longo dos anos, não ocorre sem inovação. A situação do Brasil nesse contexto é comparável à da Rússia e à da Índia, mas em termos de inovação não é tão boa quanto a da China.

Um estudo recente da Grant Thornton UK mostrou que o Brasil é o sétimo país mais atrativo do mundo para investimentos em tecnologia…
Lanvin: Esse ponto é muito importante, porque é dessa forma que a China vem crescendo como país inovador, se tornando atrativa para investimentos de indústrias e empresas. O que se vê no Brasil é um cenário semelhante. Imagino que dentro de cinco anos, ou até menos, veremos o ranking do Brasil melhorar significativamente no GII.

É possível afirmar, então, que as condições no Brasil são semelhantes às da China, apesar de os chineses estarem mais avançados?
Lanvin: Não diria que as condições são semelhantes, mas a comparação existe por serem dois membros dos BRICs. O Brasil se desenvolveu mais que a China em aspectos como a renda per capita, que é maior do que a dos chineses. A semelhança entre os dois países é que nenhum dos dois se beneficia de cooperação regional. Uma vantagem que o Brasil tem sobre a China é em educação. No GII, o ranking de ambos em capital humano e pesquisa é semelhante, mas o Brasil sai na frente em ensino superior.

A GII enfatiza a difusão de conhecimento como fator de inovação. Qual é o papel da educação nesse contexto?
Lanvin: O pensamento comum é que, se você quer pessoas inovadoras, deve ter pesquisadores, e para isso é preciso alto nível de educação superior. Isso não é verdade. Para inovar, é preciso uma combinação de três fatores: ideias, mercado local e global que queira sua inovação e, por fim, financiamento. Educação é sim importante para destacar pessoas inovadoras e, principalmente, mantê-las no Brasil, evitando perdê-las para o Vale do Silício, por exemplo. Inovadores não necessariamente têm os maiores níveis de educação, mas conseguem pensar fora da caixa, sair do óbvio.

Quais são outros aspectos?
Lanvin: As universidades norte-americanas promovem a interação de pessoas de diferentes origens e áreas acadêmicas, e isso pode ser feito na Europa também. Há alguns anos, o governo da Finlândia convocou três instituições de ensino de áreas diferentes – negócios, engenharia e design – para trabalharem juntas. Se elas não aceitassem, o governo cortaria financiamentos. Os alunos dessas escolas ganham hoje os maiores salários da Europa.

E o Brasil, pode fazer o mesmo? Ou estamos longe dessa realidade?
Lanvin: O Brasil tem ótimas instituições de ensino, como a PUC-Rio e a Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Se essas escolas se juntassem, com certeza criariam algo inovador. O problema é que, neste momento, elas competem.

O que o senhor considera como as principais fraquezas estruturais brasileiras que atrasam a inovação? E como trabalhá-las no curto e longo prazos?
Lanvin: As fraquezas do Brasil estão concentradas em dois aspectos: instituições e capital humano para pesquisa.

E quanto aos investimentos em tecnologia?
Lanvin: Não vejo muitas fraquezas nessa área. Não é uma área espetacular, mas está na média e é alavancada pelas exportações do setor de comunicações. O problema das instituições e do capital humano deve ser resolvido com políticas fiscais que facilitem a criação de empresas. O Brasil está mal no ranking que analisa ambientes propícios para fazer negócios – é o 126° [Relatório Doing Business 2012, do Banco Mundial]. É uma posição surpreendente, e acredito que não ela reflete o dinamismo da economia brasileira. Isso significa que, para um cidadão brasileiro ou investidor externo, é extremamente difícil começar um negócio, principalmente devido ao alto grau de burocracia e excessivos impostos.

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