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TI cresce na saúde pública

Daym Sousa

31 de agosto de 2012 | 18h00

Mercado de TI investe em saúde de olho no potencial do setor público

Sistema de saúde se beneficia de softwares que registram informações de pacientes, geram economia e reduzem erros

Dayanne Sousa e Luís Lima

Com um tablet, médicos acessam informações dos pacientes no prontuário eletrônico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (FOTO: JOSE PATRICIO/AE)

As empresas de tecnologia acordaram para um mercado que promete girar US$ 5,6 bilhões na América Latina até 2013, segundo o Gartner Group. É o eSaúde, um universo de possibilidades no uso de tecnologias da informação e da comunicação na medicina, que começa a crescer com expectativas sobre o investimento de hospitais públicos. O Ministério da Saúde e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciaram diferentes programas de repasses para a ampliação de modelos informatizados de gestão hospitalar.

A principal ferramenta é o prontuário eletrônico. Com um software específico, profissionais da saúde e pacientes têm acesso a informações médicas registradas em um sistema de dados comum, que dispensa papel. Cada medicamento utilizado ou exame feito vira uma anotação nesse prontuário, que pode ser acionada sempre que for necessário.

A maior vantagem é econômica, o que justifica os investimentos. O maior controle evita o desperdício de remédios e a repetição desnecessária de exames. A uso de tecnologia da informação (TI) está hoje entre as estratégias mais defendidas pela Organização Mundial da Saúde, que criou um observatório global de eSaúde e vem monitorando a situação em diferentes países.

No Canadá, onde todos os hospitais estão na era digital, a economia chega a R$ 10 bilhões por ano. Segundo a agência de fomento Canada Health Infoway, esse montante representa cerca de 2,5% de todo o orçamento de saúde canadense.

 

 

No Brasil, empresas de tecnologia passam a investir no segmento de e-Saúde de olho no sistema público de saúde. Enquanto os governos apenas começam a planejar programas, as principais apostas partem de hospitais de referência. Em junho, o Ministério da Saúde anunciou a liberação de R$ 30 milhões para Estados e municípios desenvolverem sistemas de informatização. Já o BNDES repassou R$ 5 milhões no último ano – de um total de R$ 63,5 milhões previstos até 2013- para os 46 hospitais universitários se informatizarem. “Investir no modelo eletrônico de prontuário contribui para a melhoria da gestão, redução de custos e otimização de processos”, defende Sandro Ambrósio, gerente responsável pelo setor de serviços de saúde do BNDES.

Impacto na saúde pública

O Hospital das Clínicas de Porto Alegre (HCPA) é um dos pioneiros em adoção de tecnologia: o departamento de TI foi criado há 20 anos. Segundo a coordenadora, Maria Luiza Malvezzi, o setor investe cerca de R$ 2 milhões por ano, o equivalente a 1,6% do orçamento do hospital. O prontuário eletrônico, desenvolvido há 12 anos, permite que os médicos acompanhem todas as informações de seus pacientes em um computador de mão.

Outro hospital de referência, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo completou sua informatização em dezembro de 2011. O prontuário eletrônico faz parte de um sistema que integra o hospital: tudo o que um paciente faz, da primeira consulta à cirurgia, fica registrado. O custo desse sistema foi de R$ 1,7 milhão, ao longo de quatro anos. “Perto do nosso gasto com medicamento, esse investimento não é nada”, destaca o médico e diretor de TI do hospital de oncologia, Kaio Jia Bin. O orçamento anual do Instituto do Câncer gira em torno de R$ 300 milhões.

“Hoje não precisamos mais sair com uma pilha de exames na mão, é tudo digital”, diz a costureira Elitene Gomes Reis, paciente do ICESP há três meses.

Segundo o Datasus, o Brasil tem hoje 68 mil hospitais e postos de saúde públicos. Perto desse universo, os exemplos de informatização são pequenos, alega o consultor e autor de livros sobre eSaúde, Guilherme Hummel. “A massa ainda não despertou”, critica.

Alguns projetos em secretarias estaduais e municipais de saúde, porém, começam a ampliar aportes para pequenas clínicas e postos. Um programa na região de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, conta com investimentos de R$ 20 milhões desde dezembro de 2011. Em Minas Gerais, o plano é colocar R$ 50 milhões na área nos próximos quatro anos. No Distrito Federal, cinco dos doze hospitais estaduais já foram informatizados. No maior deles, o Hospital de Base, foram gastos R$ 5 milhões.

 

De olho no mercado

No mundo, o eSaúde deve movimentar 96 bilhões em 2012 e cerca de 100 bilhões em 2013, segundo dados do Gartner Group. As pesquisas sobre o mercado nacional ainda são raras, mas as apostas são altas. No último ano, empresas de grande porte no exterior incrementaram seus serviços no Brasil.

É o caso da Agfa Healthcare. A multinacional oferece uma série de serviços a seguradoras e laboratórios e há menos de um ano comprou uma pequena companhia nacional de softwares para gestão de hospitais, a WPD. Neste curto período de tempo, o negócio já responde por 50% da receita da área de TI da companhia no Brasil. A expectativa é de um crescimento de 25% no próximo ano.

A holandesa Philips também adquiriu em 2010 uma nacional de menor porte, a Wheb. No mundo, a filial brasileira da Philips é a que mais investe em sistemas clínicos informatizados, segundo Solange Plebani, diretora da área. Atualmente, o setor conta com 500 hospitais como clientes do software de prontuário eletrônico.

Na norte-americana Intersystems, os softwares clínicos representam 50% do faturamento da empresa no Brasil, diz o diretor para América Latina da companhia, Carlos Eduardo Nogueira. “Projetamos um crescimento de 30% para essa área no país em 2012 e mais 30% em 2013.”

Uma das explicações para a euforia é justamente a demanda da maior e mais importante fatia dos hospitais brasileiros: os públicos. “Num primeiro momento só existia procura por parte de grandes hospitais privados”, afirma o gerente de vendas da Agfa Robson Miguel. “Estamos nos preparando para uma nova e maior onda.”

A diretora da Philips concorda: “A demanda do setor público vem aumentando muito nos últimos cinco anos, mas o potencial ainda é enorme.”

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