Brasil perde R$ 2,5 bi

Fabio Farias

31 de agosto de 2012 | 18h00

Sem reciclagem de lixo eletrônico, Brasil perde ao menos R$ 2,5 bi ao ano

Proporção de metais nobres em equipamentos eletrônicos é maior que na natureza, mas falta de incentivo e tecnologia impede o País de faturar com um negócio de alta rentabilidade

Bernardo Caram e Vanessa Beltrão

A Cimelia Brasil separa os materiais que serão reciclados no exterior (FOTO: GUSTAVO MAGNUSSON/AE)

 

O Brasil produz anualmente quase 100 mil toneladas de lixo eletrônico – material rico em metais nobres e com potencial de ganho econômico e ambiental através da reciclagem. Apenas o ouro presente nessa quantidade de resíduos poderia render R$ 2,5 bilhões ao ano. Mas o caminho desses metais no País é diferente: quase a totalidade dos produtos obsoletos é descartada incorretamente ou exportada para países que dispõem de tecnologia avançada para reciclagem.

A chamada “mineração urbana”, que envolve a recuperação de elementos minerais de resíduos, inclusive os eletroeletrônicos, ainda não ganhou força no Brasil. A proporção de metais valiosos no lixo eletrônico chega a ser dezenas de vezes maior do que na natureza. As minas da AngloGold Ashanti, que estão entre as principais do mundo, por exemplo, rendem 8 gramas de ouro em média para cada tonelada de material escavado. Enquanto isso, a mesma quantidade de resíduos eletrônicos fornece entre 200g e 300g de ouro.

“Em uma mina, você faz a sondagem do terreno antes de escavar, mas nunca vai saber ao certo quanto de cada metal tem ali”, explica Ana Cláudia Drugovich, diretora executiva de Marketing da Cimelia, empresa de Cingapura especializada em extrair metais provenientes de equipamentos eletrônicos. “Na sucata, você já sabe exatamente quanto tem. O custo é muito mais baixo.”

Criada há mais de duas décadas, a Cimelia retira 22 tipos de metais desses equipamentos. A empresa trabalha em parceria com companhias multinacionais, a maioria de informática e telecomunicações, que encaminham o lixo eletrônico para pontos de coleta espalhados por países da Ásia, Oceania, Europa e América, incluindo Brasil. A Cimelia recolhe até 400 toneladas de lixo eletrônico ao mês no País.

As instalações da empresa no Brasil, porém, apenas coletam, quebram e moem o material, que posteriormente é enviado a Cingapura, onde é feito todo o processo de extração dos metais. “Já temos o projeto para trazer maquinário e instalar aqui, é um projeto válido que está em pleno estudo. Daria para montar isso e criar de 200 a 300 empregos diretos, mas tem as questões governamentais e políticas. Na reciclagem, não temos incentivo”, afirma Ana Cláudia.

O diretor de competitividade industrial do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Alexandre Comin, reconhece o problema e afirma que essa questão está sendo discutida pelos grupos de trabalho do órgão. “A missão é elaborar novas propostas e quais incentivos podem ser dados”, completa. No entanto, os projetos ainda não saíram do papel.

Um dos poucos estímulos ao setor, o decreto 7619 do Governo Federal, foi publicado há 11 anos. Por meio desse incentivo fiscal, as empresas que adquirirem resíduos que serão usados como matéria-prima na fabricação de seus produtos terão um crédito presumido de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), permitindo o ressarcimento das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins.

O Mdic é constantemente procurado por investidores nacionais e estrangeiros interessados em criar indústrias de reciclagem no Brasil. De acordo com Comin, para atender a essa demanda, há mais de um ano o órgão contratou um estudo inédito sobre a política de logística reversa para eletrônicos. O objetivo é obter dados sobre a situação do lixo eletrônico no Brasil. “Estudamos onde entregar [o equipamento obsoleto], como seria a triagem e como será encaminhado para as fábricas que o produziram”, detalha Comin.

Metais


Além do ouro, é possível extrair cobre, bronze, alumínio, aço e ferro de aparelhos eletrônicos. A maior relevância, entretanto, está nos metais raros, que têm valor de mercado muito mais alto do que o próprio ouro. O processo, porém, envolve alta tecnologia e muitas empresas brasileiras esbarram nessa falta de técnica. Como resultado, fazem apenas o processo inicial de separação dos materiais no País e exportam as placas de circuito impresso, que concentram a maior parte dos metais de valor, para indústrias em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha e China.

É o caso da empresa e-mile, de reciclagem de eletroeletrônicos de Minas Gerais. Há um ano no mercado, a empresa vende em média 1 tonelada de placas de circuito impresso – incluindo placa mãe, placa de rede, placa de vídeo e memórias – para empresas em São Paulo que exportam o material. De acordo com um dos sócios da e-mile, Ricardo Newton, cada envio mensal rende entre R$ 5 mil e R$ 15 mil. Ele reclama das barreiras para montar um sistema de extração desse material no Brasil. “A maior dificuldade é encontrar investidores para projetos da ordem de bilhões. Para uma fábrica pequena para trabalhar com uma média de 300 toneladas por dia calcula-se um investimento da ordem de R$ 600 milhões, fora a estrutura logística”, estima o empresário.

Para o sociólogo e especialista em lixo, Márcio Magera, a falta de interesse das indústrias neste setor também segue uma lógica mercadológica. “É mais fácil e barato comprar a matéria virgem do que criar uma indústria que exige equipamentos. Uma indústria média gira em torno de R$ 20 milhões a R$ 30 milhões, mas se considerarmos que o material é nobre, o retorno é grande.”

Um dos exemplos de rentabilidade deste negócio está na Umicore, com sede na Bélgica. A empresa, que recebe mais de 200 tipos de material e processa 350 mil toneladas/ano, recicla metais preciosos e não ferrosos de lixo eletrônico. “O valor dos metais recuperados é maior do que o custo da reciclagem, incluindo o transporte”, diz o gerente de relações com a mídia da Umicore, Elcke Vercruysse.

Potencial


Uma chance para as empresas brasileiras pode vir de uma pesquisa que está em andamento na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Alunos de doutorado, iniciação científica e mestrado da instituição estão coletando aparelhos celulares, monitores de tubo, LCD e computadores para a extração de metais, dentre eles, os preciosos. A ideia é tornar o processo mais limpo e barato.

“Traz grande vantagem econômica, pois são metais com alto valor de mercado”, explica Hugo Veit, professor da UFRGS e um dos coordenadores da pesquisa. Segundo ele, além de diminuir a extração desses minerais da natureza, a reciclagem é importante para que metais tóxicos, como chumbo, mercúrio e cádmio, não sejam descartados incorretamente e contaminem o meio ambiente.

O projeto é financiado por empresas em São Paulo e Brasília e por agências governamentais, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Para transformar o processo em escala industrial, são necessárias grandes quantidades de sucata, diz o pesquisador.

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