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Tecnologia mal distribuída propaga diferenças no campo

Daym Sousa

31 de agosto de 2012 | 18h00

Tecnologia mal distribuída propaga diferenças no campo

Kellen Moraes e Roberto Dumke

A desigualdade no acesso a tecnologias na agropecuária impede que o Brasil consolide a posição de potência na produção de alimentos. Mesmo com resultados significantes em algumas culturas, o País está longe de alcançar o seu potencial de produção, na avaliação de especialistas. Enquanto, a produtividade brasileira atinge recordes históricos no milho safrinha, por exemplo, na pecuária de gado de corte a eficiência deixa a desejar.

Neste ano, a produção do safrinha – como é conhecida a safra de milho cultivada no inverno – ultrapassou pela primeira vez a do ciclo tradicional, plantado no verão. Foram 38,5 milhões de toneladas em 2011/2012 contra 16,1 milhões de toneladas em 2010/2011, um crescimento de 140% de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Até então considerado periférico na produção de grãos do Brasil, o safrinha passou a incorporar sementes transgênicas nos últimos cinco anos, o que contribuiu para a ascensão do cultivo nas últimas safras, segundo com o presidente da Abramilho, Allyson Paolinelli.

“Nos últimos anos, a pesquisa ajudou a diminuir perdas com pragas”, explica Paolinelli. O milho de segunda safra apareceu como alternativa de rotação com a soja. O produto se torna mais barato porque aproveita a fertilização do solo que resulta da cultura anterior, além de usar a mesma área.

No caso da pecuária de gado de corte, contudo, o desenvolvimento tecnológico não resultou em aumento de produção, como aconteceu com o milho. Mesmo com o dobro do rebanho, o Brasil produz menos carne que o líder mundial, os Estados Unidos. Foram 9 milhões de toneladas contra 12 milhões, em 2010, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

O professor Paulo Rossi, que coordena o laboratório de pesquisas de bovinocultura da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que a diferença deve-se ao fato de o animal brasileiro levar mais tempo para chegar ao peso ideal. “Houve época em que o gado nacional levava 50 meses para chegar ao peso. Hoje a média está próxima dos 40 meses, mas longe da meta de 30.”

Rossi afirma que muitas técnicas não são aproveitadas ou são utilizadas de maneira incorreta, o que compromete a produtividade. A adubagem do pasto e conservação dos solos, afirma, são exemplos de recursos básicos ainda rejeitados por muitos produtores rurais. “Não falta tecnologia para a pecuária brasileira, apenas manejo correto. Nem é preciso reinventar a roda, apenas aplicar o que já existe”, explica.

Segundo o pesquisador José Vieira Filho, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, a má difusão da tecnologia entre os produtores é o que explica a desigualdade na agropecuária brasileira. Com base em dados do Censo Agropecuário de 2006 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o pesquisador destaca que naquele ano 90% dos proprietários não chegaram ao ensino médio e que 22% não sabiam ler nem escrever. Além disso, 78% dos produtores não receberam quaisquer orientações técnicas. “A tecnologia é incorporada apenas pela nata dos produtores e há heterogeneidade. O desafio deve ser vencido com educação e extensão rural.”

Essas diferenças de conhecimento se refletem no valor da produção. Segundo o pesquisador, dentre os produtores brasileiros, os 90% mais pobres são responsáveis por 15% do valor bruto de produção, enquanto os 10% mais ricos acumulam 85%. “Os ganhos de eficiência tecnológica não são apropriados por grande parte dos produtores por causa do baixo aprendizado e baixa difusão da informação.”

Tecnologias compartilhadas

As culturas de cana-de-açúcar e citrus são exemplos de financiamento próprio para pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Ambos os segmentos fomentaram a criação de dois centros autônomos de estudos voltados ao aumento da produtividade: o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).

Com orçamento para 2012 de R$ 22 milhões, o Fundecitrus mantém-se com o repasse de 50% do valor de cada caixa de laranja destinada à indústria de suco. O montante é aplicado em estudos e assistência técnica para 8 mil propriedades brasileiras. A iniciativa já resultou na implementação da técnica de irrigação por gotejamento, que reduz a quantidade de água usada. Há 15 anos, 99% dos pomares brasileiros não eram irrigados. Hoje, 20% da área de cultivo já dispõem desse sistema.

No CTC, a política é semelhante. Segundo a organização, já foram investidos R$ 4 bilhões no desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar desde a sua criação, em 1969. Nesse intervalo, a produtividade do segmento aumentou em cerca de 40%, saltando de 2,6 mil para 7 mil litros de etanol por hectare. O custo caiu de R$ 3,00 para menos de R$ 1,00 por litro.

Na avicultura, sistema integrado permite aproveitamento de tecnologia por produtores.

Na pecuária, os exemplos eficientes de transferência de tecnologia e o manejo adequado podem ser observados no sistema de produção integrada que caracteriza a avicultura e a suinocultura brasileiras. Nesse modelo, os criadores entram com o espaço e a mão de obra. Em contrapartida, recebem ração, remédios, orientações e suporte logístico das companhias que compram os animais.

O presidente da União Brasileira de Avicultura (Ubabef) e ex-ministro da Agricultura de 1998 a 2000, Francisco Turra, cita a parceria no segmento de frangos como um sucesso. “São 156 mil famílias no sistema integrado, que foi o grande segredo do sucesso da avicultura”, avalia. Segundo ele, o sistema permitiu que a avicultura crescesse, e com a tecnologia desenvolvida pela Embrapa, o frango brasileiro se tornou competitivo. “Chegamos ao terceiro lugar no mundo em produção, levemente atrás da China. Desde 2005, somos o maior exportador: 41% do frango consumido no mundo é produzido no Brasil.”

Na suinocultura, a integração de produtores com frigoríficos chega a 70%, estima Marcelo Dias Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS). “Principalmente nos Estados do sul há produtores ligados à agroindústria. Eles têm contratos com os frigoríficos que fazem o financiamento e concedem tecnologia e ração.”

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