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Universidades e empresas

Fabio Farias

31 de agosto de 2012 | 18h00

Parcerias abrem caminho para transferência de tecnologia entre universidades e empresas

Fábio Farias e Rayani Mariano dos Santos

São Paulo, 31/08/2012 – Um reator capaz de produzir energia por meio das ondas do mar. Um negócio com potencial elétrico equivalente a uma Itaipu, a maior usina da América Latina. Investimento: R$ 15 milhões. Em fase final de testes, a tecnologia foi produzida por engenheiros da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a empresa Tractebel Energia. Mais do que uma forma de gerar energia renovável, o reator é um exemplo de algo que vem mudando no Brasil: a transferência de tecnologia entre universidades e empresas.

Parcerias pontuais deste tipo ocorrem desde a década de 70 no Brasil, mas foi só a partir de 2004, quando a Lei da Inovação regulamentou a transferência de tecnologia, que isso se tornou mais frequente e se transformou num caminho para gerar inovação na indústria brasileira.


No Brasil, ao contrário de outros países, a iniciativa privada ainda investe pouco em pesquisa e desenvolvimento – menos de 50% do total, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia. Nos Estados Unidos, os investimentos privados chegam a 70%. Para Ricardo Pereira, coordenador da Agência UFRJ de Inovação, os altos custos do Brasil e a aversão ao risco por parte do empresariado dificultam a inovação no setor. “É uma tradição histórica, o empresário prefere pegar tecnologia que já está pronta a pesquisar novas tecnologias”, afirma.

O diretor da coordenadoria de transferência e inovação tecnológica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Abo Jório, aponta ainda que a importância das parcerias entre empresas e universidades vai além da vantagem financeira que isso possa trazer. “Uma das formas nobres da academia é transferir tecnologia para a sociedade”, disse. Em Minas Gerais, o montante gerado pelos royalties é reaplicado em atividades pró-inovação.


Energia, cosmésticos e lixo

O acordo entre a Tractebell e a UFRJ foi feito depois que a empresa procurou a universidade em busca de uma nova forma de produzir energia. “Já pesquisávamos essa possibilidade de produzir energia por ondas do mar desde 2001. Quando a empresa nos procurou, voltamos a tocar o projeto”, conta Segen Estefen, diretor de Tecnologia e Inovação do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ.

O passo seguinte foi firmar um contrato com os detalhes financeiros para depois iniciar os testes. O protótipo atualmente está no Ceará, e a ideia é que até 2020 o reator esteja no mercado. “Essa é uma tecnologia que tem potencial para substituir a matriz energética do País em 2050”, afirma o professor.

Outro caso de parceria que resultou numa inovação tecnológica é o da fabricante de cosméticos Natura e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Empresa e universidade se uniram para descobrir um príncipio químico com potencial de se tornar um produto cosmético e lançá-lo no mercado. O resultado é o Projeto Passiflora, usado em toda a linha Chronos da Natura e desenvolvido com base em propriedades cosméticas do maracujá doce. Segundo a gerente da Natura Universidades, Luciana Hashiba, a empresa e a UFSC trabalharam juntas na pesquisa do ativo, nos testes de segurança e na elaboração final do produto.

Os convênios entre a Natura e as universidades se intensificaram desde 2006, quando a empresa lançou um programa específico de acordos com as instituições. “Nem todas as parcerias desembocam em produtos, mas em tecnologias de sustentabilidade. Além do retorno financeiro, essas parcerias têm um valor intangível para a empresa”, explica a gerente da Natura.

Uma parceria entre a UFMG e a empresa ambiental Engenho 9 é outro caso de sucesso. Com um investimento de R$ 3,9 milhões, os pesquisadores desenvolveram uma nova forma de incinerar lixo e reaproveitar a fumaça e os detritos gerados para criar carvão.

Batizado de Pyrolix, o reator de pirólise de biomassa e resíduos sólidos teve seu pedido de patente registrado em 2009 e deve começar a operar comercialmente em dezembro deste ano. “A primeira planta em escala real operou experimentalmente na Prefeitura de Belo Horizonte para tratamento de resíduos de serviços de saúde entre janeiro e junho deste ano”, explica o engenheiro Artur Torres Filho, um dos responsáveis pelo projeto.

Segundo Torres Filho, o Pyrolix amplia em 137,8% o potencial de geração de energia elétrica no tratamento do lixo, em comparação com as tecnologias de aterramento. Outro benefício é que essa tecnologia pode ser usada em cidades pequenas. “Ele possibilita o tratamento térmico de resíduos em pequena escala com armazenamento do produto carbonizado e aproveitamento energético em outro local, como centrais termoelétricas”, explica o engenheiro.

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