Dilma precisa dar à sociedade alguma perspectiva, diz Delfim
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Dilma precisa dar à sociedade alguma perspectiva, diz Delfim

Economista que é ouvido pelos presidentes da República, em maior ou menor grau, desde 1966, fala sobre o cenário colocado diante do governo Dilma Rousseff:

João Villaverde

05 de agosto de 2015 | 08h15

Caso o ajuste fiscal termine exatamente como deseja o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o que acontecerá depois?

Ninguém sabe ao certo.

A ânsia do governo Dilma Rousseff com o ajuste é tamanha que, hoje, nenhum outro assunto de governo tem espaço. Alguns ensaios, como o programa de concessões de obras (aeroportos, portos, rodovias e ferrovias) ao setor privado, não engatam porque há um clima péssimo no empresariado e no mercado de crédito, diante da crise econômica e da enorme turbulência política, mas também por conta do ajuste fiscal, que fechou canais como o BNDES.

Mas, a rigor, o que pensa o governo para o período pós-ajuste, qualquer que seja ele?

Segundo o economista Antônio Delfim Netto, o governo precisa, urgentemente, “dar à sociedade alguma perspectiva de crescimento“. Sua lógica é crua e direta: se o governo conseguir indicar que há um caminho – qualquer caminho – para a retomada do crescimento, um mínimo de confiança será recuperada e, a partir daí, alguma mola de investimento e aumento de produção poderá começar a funcionar.

Delfim Netto em entrevista ao Estadão. (Crédito: Werther Santana)

Delfim Netto em entrevista ao Estadão. (Crédito da foto: Werther Santana)

Claro que o próprio Delfim reconhece que a situação é complexa. Para conseguir dar uma perspectiva de crescimento, o governo precisa ter credibilidade. Hoje, a presidente Dilma Rousseff não tem mais credibilidade junto ao setor privado, diz o economista, de 87 anos. Mas a falta de confiança no governo se amplifica com um fato cruel verificado pelo blog nos últimos sete meses no dia a dia de Brasília neste segundo mandato: o próprio governo dá claro sinais de que não sabe exatamente o que quer para o futuro, para o Brasil do pós-ajuste.

Delfim é uma voz que faz barulho e é sempre ouvida. Ele foi ministro da Fazenda entre 1966 e 1974 e, depois, do Planejamento, entre 1979 e 1985. Superada a ditadura militar, Delfim foi eleito deputado federal já na democracia, nas eleições de 1986, e ficou no Congresso Nacional por 20 anos, até o fim de 2006.

Sua experiência e sagacidade para ler o movimento político fizeram de Delfim um histórico consultor ou conselheiro de diversas equipes econômicas. Foi ouvido, em maior ou menor medida, por todos os presidentes da República desde 1966, passando da fase terrível da ditadura, sob Médici (1969-74), ao governo liderado pela esquerda, com o Partido dos Trabalhadores (PT) de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Delfim é um homem de direita e nunca escondeu isso. Quando Lula, já na Presidência da República, buscou o ex-ministro da Fazenda para ser um de seus conselheiros econômicos particulares – ao lado do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, este sim próximo ideologicamente do PT -, recebeu uma série de ataques da esquerda, do PT inclusive, por colocar dentro do Planalto uma figura que assinou o Ato Institucional número 5, o AI-5, de dezembro de 1968.

A relação de Lula com Delfim ficou forte durante, principalmente, o segundo mandato, de 2007 a 2010, e continua muito forte até hoje. O ex-ministro continua fazendo visitas ao ex-presidente na sede do Instituto Lula, em São Paulo, onde falam de política econômica e conjuntura política.

Quando Dilma assumiu a Presidência, no início de 2011, as reuniões com Delfim e Belluzzo no Palácio do Planalto continuaram. Economista de formação, Dilma poderia, em tese, aproveitar ainda mais os conselhos dos dois de forma a moldar sua opinião.

Os encontros entre Dilma e os conselheiros econômicos herdados de Lula cessou no início de 2013. Desde então, Delfim passou a entrar na agenda de Dilma somente por meio de seus artigos semanais para os jornais e nas entrevistas pontuais que ele concede.

A mais recente foi concedida ao Estadão, no último domingo (02/08), e a visão crítica do ex-ministro de 87 anos ficou escancarada: “A Dilma tem de enfrentar o panelaço que lhe cabe

O Ministério da Fazenda foi para a fogueira para garantir a eleição de 2014. Existem documentos da Secretaria de Política Econômica (SPE) mostrando para onde estava indo a economia. Guido (Mantega) e (Márcio) Holland (ex-SPE) sabiam disso. Mas isso foi apenas o final do processo. No fundo, as coisas estão se desarrumando há muito tempo. Agora chegamos na situação de hoje porque, além de tudo isso, 2014 foi uma política deliberada para se reeleger. O equívoco é que ela pensou que se reelegeria e haveria tempo de arrumar tudo para voltar a vencer eleições em 2018. A estratégia falhou“.

E por que falhou?

Dilma, quando tomou posse para o segundo mandato, precisou fazer uma correção de rota. Mas ela foi incapaz de reconhecer sua herança. Assim, perdeu completamente sua credibilidade. Isso coincidiu com um ganho de protagonismo do Legislativo. O Legislativo ‘predou’ o Executivo e continuará fazendo isso. Além disso, parece que todo mundo hoje esqueceu o que as pessoas fazem na hora da crise. Uma empresa em dificuldade não paga imposto porque sabe que em algum momento virá um novo Refis. Depois, ela demite o trabalhador. Era natural que a receita cairia mais depressa que o PIB“.

Delfim Netto concede entrevista ao autor, em seu escritório em SP. (Werther Santana, Estadão, 29/07/2015)

Delfim Netto concede entrevista ao autor, em seu escritório em SP. (Werther Santana, Estadão, 29/07/2015)

Questionado sobre o ajuste fiscal, Delfim foi ainda mais taxativo: “A tragédia é ter transformado o ajuste fiscal em uma obsessão. O ajuste fiscal é uma miragem. Sempre que está chegando perto dele, ele escapa e fica distante. É preciso devolve à sociedade a perspectiva de crescimento“.

Como fazer isso?

Responde Delfim:”No câmbio ocorre o movimento correto (a desvalorização). O programa de concessões é ótimo, muito bem feito, assim como o Plano Safra e o programa de exportações. Mas nada disso teve a menor repercussão. Como o governo perdeu a credibilidade, esses três programas, que são bons mesmo, não tiveram repercussão. Ninguém leva a sério nada que o governo fala e ele está cometendo um erro: não vai recuperar sua credibilidade com marketing. Precisa dar demonstração clara que tem maioria, que com ela vai produzir coisas importantes, como a reforma do ICMS, a simplificação do PIS/Cofins e também propostas da velha CUT, que é dar liberdade de negociação entre um sindicato e a empresa“.

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Qual será a agenda do governo para o pós-ajuste fiscal?

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