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Domingo

Todo domingo pela manhã esta seção aqui no Blog vai apresentar uma poesia, um trecho de livro, uma canção ou pensata.

João Villaverde

25 de janeiro de 2015 | 08h25

Canção da Infância.
De Peter Handke.
.

Quando a criança era criança
Andava com os braços soltos balançando,
Queria que o riacho fosse um rio,
Que o rio fosse uma correnteza,
E essa poça, o mar.
.
Quando a criança era criança,
ela não sabia que era criança,
Tudo, para ela, tinha alma
E todas as almas eram uma.
Quando a criança era criança,
Não tinha opinião sobre nada,
Não tinha hábito nenhum,
sentava muito de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia cara alguma quando fotografada.
Quando a criança era criança,
Era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que eu estou aqui e não lá?
Quando começa o tempo e onde termina o espaço?
Não é a vida debaixo do sol um mero sonho?
Não é o que eu vejo, escuto e cheiro,
apenas o brilho de um mundo antes do mundo?
Existe realmente o Mal e pessoas
que realmente são as pessoas más?
Como pode ser que eu, que eu sou,
antes de ser, não era,
e que uma hora eu, que eu sou,
não mais serei o que eu sou?
.
Quando a criança era criança,
Engasgava com espinafre, ervilhas e arroz-doce
e com couve-flor no vapor
e come agora isso tudo e não só porque precisa.
Quando a criança era criança,
acordou uma vez em uma cama estranha
e agora isso acontece sempre,
muitas pessoas se mostravam belas para ela,
e agora só num acaso feliz,
ela tinha uma imagem clara do paraíso
e pode agora, no máximo, ter um pressentimento,
podia não pensar para si o nada
e hoje se arrepia ante isso.
.
Quando a criança era criança,
brincava com entusiasmo
e agora, tem tanto gosto pelo que faz, como antes, mas só
quando se trata de trabalho.
Quando a criança era criança,
pão, maçã, eram alimento suficiente,
e ainda é assim.
.
Quando a criança era criança,
caíam-lhe as frutinhas na mão como apenas frutinhas
e agora ainda caem,
nozes frescas faziam sua língua ficar áspera
e ainda fazem,
teve em cima de cada montanha,
a ansiedade pela montanha sempre mais alta,
e em cada cidade,
a ansiedade pela cidade ainda maior,
e ainda é assim sempre,
agarrava a árvore no topo atrás da cereja  em euforia
como ainda hoje também,
uma vergonha na frente de cada estranho
e ela, toda vez,
esperou pela primeira neve,
e ainda sempre espera.
.
Quando a criança era criança,
jogou um pedaço de pau como uma lança contra a árvore,
e ela ainda hoje trepida lá.

****

A poesia de hoje foi toda obra da amiga Júlia Frate Bolliger, que sugeriu e, mais que isso, traduziu direto do alemão. Para o leitor ver o tamanho do trabalho de Júlia, abaixo vai a versão original (e não, ela não usou o Google Translate – ela está estudando a língua de Angela Merkel e aproveitou a tradução como desafio de aprendizado).

Obrigado, Júlia!

****

Lied von Kindsein

Als das Kind Kind war,
ging es mit hängenden Armen,
wollte der Bach sei ein Fluß,
der Fluß sei ein Strom,
und diese Pfütze das Meer.
.
Als das Kind Kind war,

wußte es nicht, daß es Kind war,
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.

Als das Kind Kind war,

hatte es von nichts eine Meinung,
hatte keine Gewohnheit,
saß oft im Schneidersitz,
lief aus dem Stand,
hatte einen Wirbel im Haar
und machte kein Gesicht beim fotografieren.

Als das Kind Kind war,

war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?
Als das Kind Kind war,
würgte es am Spinat, an den Erbsen, am Milchreis,
und am gedünsteten Blumenkohl.
und ißt jetzt das alles und nicht nur zur Not.
Als das Kind Kind war,
erwachte es einmal in einem fremden Bett
und jetzt immer wieder,
erschienen ihm viele Menschen schön
und jetzt nur noch im Glücksfall,
stellte es sich klar ein Paradies vor
und kann es jetzt höchstens ahnen,
konnte es sich Nichts nicht denken
und schaudert heute davor.
Als das Kind Kind war,
spielte es mit Begeisterung
und jetzt, so ganz bei der Sache wie damals, nur noch,
wenn diese Sache seine Arbeit ist.
Als das Kind Kind war,
genügten ihm als Nahrung Apfel, Brot,
und so ist es immer noch.
Als das Kind Kind war,
fielen ihm die Beeren wie nur Beeren in die Hand
und jetzt immer noch,
machten ihm die frischen Walnüsse eine rauhe Zunge
und jetzt immer noch,
hatte es auf jedem Berg
die Sehnsucht nach dem immer höheren Berg,
und in jeden Stadt
die Sehnsucht nach der noch größeren Stadt,
und das ist immer noch so,
griff im Wipfel eines Baums nach dem Kirschen in einem Hochgefühl
wie auch heute noch,
eine Scheu vor jedem Fremden
und hat sie immer noch,
wartete es auf den ersten Schnee,
und wartet so immer noch.
Als das Kind Kind war,
warf es einen Stock als Lanze gegen den Baum,
und sie zittert da heute noch.


****

Reforço aos leitores que este espaço está aberto a sugestões de poesias, trechos de livros, canções, pensatas ou vídeos.

Bom domingo!

 

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