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Esperando Levy…

Em Brasília e no mercado financeiro, todos aguardam a chegada de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. O atual ministro, Guido Mantega, relembra seus dias felizes no passado.

João Villaverde

09 Dezembro 2014 | 09h45

Se a vida imitasse o teatro, certamente Brasília, hoje, seria uma peça de Samuel Beckett. Uma não, mas duas peças de Beckett em uma só. Este ocaso do primeiro governo Dilma Rousseff está um misto de “Esperando Godot” com “Dias Felizes”.

 

Na primeira, dois amigos passam a primeira parte do texto dialogando sobre seus usos e costumes, enquanto aguardam a chegada de Godot. Outras duas personagens chegam na segunda e derradeira parte e os quatro falam, esperando Godot, que nunca chega. A segunda peça é mais simples e seca: há basicamente uma personagem, Winnie, que estabelece um monólogo da felicidade em tempos sombrios. No início de “Dias Felizes”, Winnie está imobilizada até a cintura por um monte de areia, no meio do deserto. No final da peça, Winnie está tomada até a cabeça. Ao longo do texto, ela fala dos dias de seu passado e ela parece não se importar com sua condição presente.

 

 

Por um lado, toda a enorme estrutura do mais importante ministério do governo federal, o Ministério da Fazenda, está em suspense. O atual ministro Guido Mantega está no cargo há 8 anos, 8 meses e 12 dias. Esta é a segunda maior permanência na Pasta desde que a Fazenda foi criada, em julho de 1808, por Dom João VI. Não é trivial a saída de Mantega. Então há uma expectativa muito grande nos corredores do ministério, como constatou o blog, quanto a chegada de Joaquim Levy, o economista que substituirá Mantega.

 

Desde que o nome de Levy foi confirmado por fontes oficiais do Palácio do Planalto, há 20 dias, a expectativa se criou. Levy já foi até anunciado pela presidente Dilma Rousseff, em cerimônia no Planalto, na semana passada. Ele está despachando do terceiro andar da sede da Presidência, em uma sala próxima a da presidente. A espera por Levy é grande principalmente no mercado financeiro. Todos aguardam, mas ele parece nunca chegar.

 

Também é grande a expectativa pela chegada de Nelson Barbosa no Ministério do Planejamento. Depois de passar 10 anos no governo do PT, entre 2003 e 2013, onde cresceu – chegou como secretário de Mantega quando este assumiu o Planejamento e saiu como secretário-executivo do Ministério da Fazenda -, Barbosa saiu um tanto chamuscado da gestão Dilma. Em 2012, em diversas ocasiões, Barbosa batera de frente com o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, seu desafeto declarado. Barbosa e Augustin discordavam de tudo. No fim daquele ano, Barbosa perdeu uma disputa interna, como já contamos aqui. Seu projeto de redução da conta de luz foi deixado de lado, e a visão de Augustin saiu predominante. Após sua saída do governo, em maio de 2013, Barbosa foi para a FGV e, para muitos, estava acabado.

 

Visto como o “desenvolvimentista menos ruim” pelo mercado e como “o mais brilhante da nova geração” pelos economistas de escolas conceituadas como UFRJ, Unicamp, USP, PUC-SP e FGV-SP, Barbosa acabou ganhando força para voltar por cima depois que Dilma definiu que, na Fazenda, colocaria um economista de corte mais liberal. Definido Levy, cuja corrente de pensamento é diametralmente oposta àquela de Mantega, Mercadante, Augustin e Luciano Coutinho (os nomes fortes atuais), restou dar a Barbosa o Planejamento para equilibrar o jogo interno da máquina. Em seu discurso na semana passada, Barbosa demonstrou ambição: disse que cuidará não apenas do Orçamento e do PAC, mas também da coordenação do programa Minha Casa, Minha Vida (por ele criado, aliás, em 2009), e das concessões ao setor privado.

 

Todos em Brasília estão esperando Levy, esperando Barbosa… para matar a ansiedade e descobrir se, afinal, o quadro atual vai mesmo mudar.

 

De seu gabinete no quinto andar do Ministério da Fazenda, o ainda ministro Guido Mantega tem aguardado também. Seu desejo declarado era o de encerrar sua passagem pela Fazenda após a viagem para a reunião do G-20, no início de novembro, antes da definição dos nomes de Levy e Barbosa. A pedido da presidente Dilma, ele permaneceu. Depois, quando o nome de Levy foi confirmado, mas não anunciado, Mantega preparou tudo para sair no mesmo dia. Novamente, um pedido da presidente fez com que ele aguardasse mais um pouco. Foi homenageado na cerimônia de anúncio oficial dos novos ministros, mas continua na Pasta.

 

Como Mantega vai ficando, a chance de bater um recorde que perdura por 198 anos vai ficando real. Sabe o leitor aqui que para isso, basta a ele permanecer na Fazenda até o dia 16 de janeiro de 2015.

 

Com isso, o ministro que assumiu a pasta mais importante do governo ainda no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esteve à frente da política econômica durante o combate à explosão da crise mundial (entre o fim de 2008 e o início de 2009), que entregou o crescimento recorde do PIB (de 7,5% em 2010), e que foi o mais importante ministro durante todo o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff tem passado os dias assim: preparando sua saída e relembrando os diversos momentos vividos na Fazenda.

 

Mantega sai em um momento ruim, muito distinto daquele que ele liderou nos dias felizes entre 2006 e 2011. O PIB passou por uma recessão técnica no primeiro semestre deste ano e caminha para registrar um crescimento medíocre em 2014, algo entre zero e 0,3%. Além disso, a inflação está acima do teto de 6,5% estabelecido pelo Banco Central. Para finalizar, os investimentos estão em queda e o saldo comercial é deficitário pela primeira vez em 15 anos. Os 35 pacotes com medidas anunciados pelo governo Dilma não surtiram o efeito desejado. Além disso, as contas públicas passam por seu momento de maior descrédito, além de estarem sob investigação do Ministério Público Federal (MPF) e do Tribunal de Contas da União (TCU).

 

A missão da nova equipe econômica é complexa e os ensaios dados durante as eleições precisam ser colocados na prática. Há pelo menos 12 problemas urgentes que precisam ser resolvidos desde já. A expectativa é que a peça que veremos ser encenada em Brasília a partir de 2015 não seja nem uma comédia ou uma tragédia, mas sim um drama de final feliz.

 

A conferir.

 

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Em tempo: uma das mais marcantes interpretações que assisti foi de Norma Bengell vivendo Winnie, em “Dias Felizes”, no Sesc Ipiranga, em São Paulo. Foi no início de 2010, se não me falha a memória. Norma faleceu em outubro do ano passado e teve uma vida absolutamente conturbada, tendo sua melhor fase – seus dias felizes – justamente na saída da adolescência, quando protagonizou o clássico “Os Cafajestes”, filmado por Ruy Guerra em 1962. A peça de Beckett, em 2010, era quase um renascimento artístico para ela. Para este blog, certamente foi.