Henrique Meirelles, o cotado sucessor de Levy

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Henrique Meirelles, o cotado sucessor de Levy

Ex-presidente do Banco Central vem sendo cotado, desde 2009, a assumir todo tipo de cargo. Ele já foi cotado a ser vice presidente da República, governador de Goiás, prefeito de São Paulo e, agora, ministro da Fazenda. Por que?

João Villaverde

11 de novembro de 2015 | 15h05

Henrique Meirelles, ex-presidente do BC, na posse de Levy em janeiro.

Henrique Meirelles, ex-presidente do BC, na posse de Joaquim Levy como ministro da Fazenda, em janeiro, 2015.

Na posse de Joaquim Levy como ministro da Fazenda, em 5 de janeiro, o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi um dos que engrossou a longa fila de cumprimentos. Se abraçaram, falaram amenidades por alguns segundos e depois Meirelles embarcou de volta a São Paulo; Levy concedeu a primeira entrevista coletiva a jornalistas e, em seguida, foi para a Fazenda iniciar seus trabalhos.

Enquanto a fila de abraços a Levy caminhava, um ministro petista, influente no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff e que ganharia ainda mais força neste segundo mandato, comentou com o autor deste blog que, dentro de alguns meses, Meirelles – que estava há alguns metros de distância, na fila – seria cotado para assumir o posto de Levy.

O ministro petista não poderia estar mais certo.

Meirelles é, hoje, muito cotado a substituir Levy no comando da Fazenda. Ele é o nome preferido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, por consequência, de praticamente todo o PT. Meirelles tem todas as prerrogativas para o cargo: é de linhagem ortodoxa, tal qual Levy; tem trânsito no mercado financeiro, tal qual Levy; tem caminhos em Washington, tal qual Levy; e já trabalhou no governo Lula, tal qual Levy. Meirelles na Fazenda, se isso vier mesmo a acontecer, terminará sendo um ministro… muito parecido com Levy. Resultado claro disso é que os mercados estão animados desde segunda-feira, quando a nova rodada de notícias dando conta da troca de Levy por Meirelles começou.

Isso não quer dizer que essa troca ocorrerá, apenas que este é o desejo de Lula, que vê em Meirelles um ortodoxo com mais bagagem que Levy e que, portanto, poderá comandar, ao mesmo tempo, a Fazenda e o Banco Central. Um ajuste fiscal, sob Meirelles, poderia ser mais rápido do que parece ser sob Levy. Este é o pensamento de Lula e dos petistas, neste momento.

Seja como for, a análise do ministro petista, no início deste ano, estava correta. Meirelles é cotado, mais uma vez, e parte disso se dá por um fato prosaico: Meirelles é sempre cotado para alguma coisa.

Desde que ele viveu seu período mais dramático como presidente do Banco Central, no fim de 2008, Meirelles entrou numa ciranda de “cotação” incrível. No fim de 2008, auge da crise econômica mundial, o pensamento keynesiano tomou conta. Naquele momento de grave crise, uma saída heterodoxa foi crucial para que os países não sofressem tanto. Ganhou muita força, naquele momento, a corrente de pensamento que unia o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o secretário de Política Econômica (SPE), Nelson Barbosa, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

O ponto que destoava era justamente Meirelles. Com a disseminação rápida dos efeitos da crise, os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro foram negros para a economia, com empresas retendo investimentos da noite para o dia, os bancos suprimindo crédito e um rápido (ainda que pequeno) repique no desemprego. O quadro de forte crescimento econômico verificado em 2007 e 2008 até agosto foi rapidamente transformado. O governo entrou em pânico e uma série de soluções foram criadas para reagir aquele quadro. Foi naquele momento que o grupo citado acima (Mantega, Barbosa, Coutinho, Augustin e Dilma) ganhou peso e a política econômica definitivamente mudou. O modelo que vigorou até o fim de 2014 e que começou a mudar com Levy em 2015 foi inaugurado, de fato, no fim de 2008.

Mas quem não concordava era Meirelles, que demorou a reagir. As críticas dentro do próprio governo à suposta “indecisão” ou “lentidão” do BC ficaram fortes e ganharam o público. O BC manteve as taxas de juros elevadas no auge da crise e até o maior nome da oposição, José Serra (PSDB), que era o governador de São Paulo, chegou a dar declarações públicas de que a resposta do governo Lula à crise estava razoavelmente correta, à exceção da política do BC. O economista heterodoxo Luiz Gonzaga Belluzzo chegou a ser sondado para substituir Meirelles, o que acabou não acontecendo.

Quando o BC passou a fazer política anticíclica, em janeiro de 2009, o quadro começou a mudar nas engrenagens de Brasília. Com tudo inclinado e Fazenda e BC unidos, a economia começou a reagir e, a partir de meados de 2009, o crescimento já tinha engatado, com a recuperação dos investimentos e do crédito. A economia reagiu fortemente, auxiliada pelo empurrão dado pela China, que aplicou um pacote de estímulo à sua economia e manteve aceso o apetite pelas commodities brasileiras.

A partir daquele momento, Meirelles passou a ser cotado a tudo.

1) Ele foi cotado para ser o vice na chapa de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais do ano seguinte e, por isso, chegou até a se filiar ao PMDB. Meirelles perdeu a vaga para Michel Temer e a chapa Dilma-Temer foi formada.

2) Com essa porta fechada, Meirelles passou a ser cotado a governador, nas eleições de 2010. Uma grande ansiedade se formou em março de 2010, prazo limite para a descompatibilização de autoridades públicas que buscariam cargos eletivos. No limite, Meirelles permaneceu no BC, concluindo mandato em 31 de dezembro de 2010.

3) Fora do governo federal, Meirelles foi cotado, em 2012, a ser candidato a prefeito de São Paulo, desta vez pelo PSD, partido recém-criado pelo então prefeito paulista, Gilberto Kassab. Meirelles não saiu candidato.

4) Depois, Meirelles foi cotado a assumir o Ministério da Fazenda no fim de 2014, para suceder Guido Mantega, logo após a reeleição de Dilma.

5) Agora, Meirelles é cotado a substituir Levy, na passagem de 2015 para 2016.

Cotado a tudo há mais de 6 anos, Meirelles é, para o PT, uma espécie de estranho no ninho que deu certo. Mas continua sem ter assumido nenhuma das funções para o qual foi cotado desde então.

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Atualização de 27/04/2016

Quase seis meses depois da publicação deste texto, o assunto continua, é claro, em voga. Levy, de fato, deixou o governo Dilma Rousseff. Foi substituído por Nelson Barbosa pouco antes do Natal de 2015. Barbosa completou agora, portanto, 4 meses como ministro da Fazenda.

Só que de lá para cá um processo de impeachment da presidente foi aberto na Câmara dos Deputados (em dezembro de 2015) e aprovado pela maior parte dos deputados (em votação realizada em 17/04, dez dias atrás). Dilma continua presidente porque aguarda, agora, o posicionamento do Senado Federal, o que ocorrerá em maio, dentro de duas semanas provavelmente.

Diante da grande possibilidade do vice-presidente Michel Temer (PMDB) assumir a Presidência da República, ainda que interinamente (com o afastamento de Dilma, caso essa seja a decisão do Senado), quem foi o primeiro nome a surgir como cotado a ocupar o Ministério da Fazenda sob Temer?

Sim, ele. Henrique Meirelles.

Agora, fim de abril de 2016, seu nome inclusive já é dado como certo.

Será que desta vez ele de fato vai assumir uma posição para qual é cotado?

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