Mudanças
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Mudanças

O que está colocado para 2016?

João Villaverde

05 de janeiro de 2016 | 09h55

Caro leitor, o blog vai entrar a partir de agora em um período de postagens menos frequentes. Estarei fora de Brasília pelos próximos sete meses, mas por bom motivo: serei pesquisador (precisamente, no termo em inglês: visiting scholar) na Universidade de Columbia, em Nova York (EUA), a partir deste mês de janeiro.

O ano de 2015, daqui de Brasília, daria por si só uma pós-graduação em Brasil: a sucessão de crises políticas – no Palácio do Planalto, na Câmara, no Senado – e da grave crise na economia foi sem igual. A Operação Lava Jato atingiu um nível altíssimo, enquanto que a presidente, que foi reeleita com 54,5 milhões de votos em outubro de 2014 chegou a bater 7% de aprovação popular apenas um ano depois. O PIB registrou a maior queda desde 1990, ano do Plano Collor. Todos os setores recuaram e as pessoas foram às ruas: à direita, para atacar Dilma e apoiar o impeachment, e à esquerda para defender a presidente. Brasília viu seus principais atores políticos serem colocados contra a parede: da presidente da República aos presidentes da Câmara e do Senado, além dos líderes partidários, do líder do governo no Senado e também o vice-presidente.

Definitivamente, o período de normalidade que existiu no País até junho de 2013 foi rompido. Se entre junho de 2013 e dezembro de 2014, bem ou mal, os governantes – em todas as esferas -, as grandes empresas (de todos setores, inclusive o financeiro) e os sindicatos conseguiram atravessar sem grandes alterações, o ano de 2015 deixou claro que o País mudou.

O que virá dessa mudança? Ninguém hoje pode saber com certeza.

Mas a ruptura total marcada por 2015 pode ter paralelo somente com anos de grandes e graves mudanças, como foram 1930, 1968 e 1982, que marcaram o fim de uma era de certa “normalidade” institucional, dando início para uma nova fase. Digo isso sem qualquer juízo de valor – sem apontar que o período anterior ou posterior a esses anos tenha sido bom ou ruim. O ponto de análise aqui é puramente pragmático: parece ser indiscutível que o País, como um todo, mudou após 1930, depois a partir de 1968 e finalmente em seguida a 1982. Uma análise rápida sobre esses três anos, sem tocar todos os temas (o que seria impossível para um texto curto), deixa claro a comparação com 2015.

Em 1930, o presidente Washington Luís tinha sido eleito ainda sob a égide da política do café com leite e o Brasil, apesar dos avanços inevitáveis, vivia a mesma lógica institucional inaugurada pela República, a partir de 1889. Naquele ano, no entanto, a economia sofreu com toda a força as consequências do crash da Bolsa de Nova York, de outubro de 1929, e a crise social chegou ao ápice. A nova classe cultural brasileira não tinha mais eco no País da República Velha e também os novos movimentos sociais e políticos, com os ventos da União Soviética, tinham ganhado muita força ao longo da década de 1920. A eleição de Júlio Prestes, oficializada em maio daquele ano, fez explodir o modelo institucional, ao mesmo tempo em que a crise econômica aumentava. Ao final de 1930 ascendeu ao poder federal o então presidente (ou governador) do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, e o Brasil que chegou a 1931 era, em praticamente todos os níveis, diferente daquele que terminou 1929 e começou 1930.

Também 1968 foi assim. O golpe militar de 31 de março de 1964 já tinha representado um grave rompimento institucional, mas foi somente em 1968 que, decididamente, o quadro geral do País mudou totalmente. Em 1965 ainda foram realizadas eleições democráticas para governadores e até o fim de 1967 ainda havia certa liberdade artística (filmes políticos, como “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, puderam ser filmados e comercializados, ainda que a duras penas). A censura, as prisões, os expurgos e o aperto da ditadura, no entanto, já ocorriam e estavam em um crescendo dramático, forçando cada vez mais manifestações populares. O auge, no entanto, ocorreu em 1968, com protestos populares em diversos centros urbanos, seguidos por uma resposta dura da ditadura, que terminou o ano baixando o Ato Institucional número 5 (AI-5). A partir dali, a fase do terror, como chamam os historiadores, realmente começou. Foi também a partir do fim de 1968 que o exílio em massa de artistas começou, com Glauber Rocha, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros, deixando o Brasil.

Finalmente, em 1982 a última grande transição. A institucionalidade da ditadura, instalada em 1964, mas claramente apertada a partir de 1968, seguiu quase sem rupturas até o início da década de 1980. Foi então que diversas mudanças de ventos começaram a dar sinais da mudança que estava por vir: as greves mobilizadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo entre 1978 e 1981, marcadas pelo clássico filme “Eles não usam black tie”, de Leon Hirzman, de 1981; a Lei da Anistia, de 1979; entre outros.

Foi então que, em 1982, tudo ocorreu. O governo militar tinha conseguido atravessar um longo período de crescimento econômico. Entre 1968 e o começo de 1981, o PIB cresceu fortemente. O segundo choque do petróleo, em 1979, e a mudança da política de juros nos Estados Unidos, a partir do ano seguinte, forçaram um ajuste inevitável no Brasil. O petróleo ficou mais caro, fazendo explodir a conta de importações, e com os juros mais altos nos EUA, também a dívida externa dava saltos imensos a cada mês. Para fechar, em 1982, o México quebrou (pelos motivos elencados acima). A moratória mexicana precipitou crises em todos os países latino-americanos, especialmente o Brasil e a Argentina. Em 1982, pela primeira vez em 20 anos, o País sentiu, em todos os setores, os efeitos de uma grave crise na economia.

Ao mesmo tempo, o Brasil voltava a ter eleições para governadores e a oposição de esquerda ressurgiu com força, em especial no Rio de Janeiro, que elegeu Leonel Brizola (PDT) governador. Para completar, na cultura, o País vivia o ocaso da geração dos anos 1960 – com as mortes de Cartola, Vinícius de Moraes, Hélio Oiticica e Nelson Rodrigues (em 1980), Glauber Rocha (1981) e Elis Regina (1982). A nova geração cultural começava a surgir naquele ano, com os primeiros lançamentos de Barão Vermelho (Rio) e Ultraje a Rigor (São Paulo). Na capital paulista, o time de futebol de massas, o Corinthians, começava a famosa “Democracia Corinthiana”. O País passava a falar abertamente sobre a superação da ditadura militar.

Ao final de 1982, a sucessão de crises econômicas e políticas, além das mudanças sociais e artísticas, deixava claro que o País que abria 1983 era muito diferente daquele que terminara 1981 e começara 1982. A agenda dos anos 1980: a hiperinflação, a redemocratização, a crise da dívida externa (com o bordão “Fora, FMI”), o rock nacional e o Rock in Rio, etc., toda a agenda da década começou, mesmo, em 1982. De certa forma, foi o que ocorrera em 1930 e 1968 também.

O período que começou a partir desses anos não foi necessariamente bom. Apenas de forma superficial, a “primavera” de 1930 gerou, em última instância, a ditadura do Estado Novo (1937). A ruptura de 1968 gerou o período terrível do terror no País, de torturas ainda mais disseminadas, perseguições, censura e de um debate público muito mais pobre. Como depois diria Darcy Ribeiro, o “Brasil emburreceu durante a ditadura militar”. Também a “primavera” que se seguiu a 1982 não foi 100% boa. Se por um lado trouxe a redemocratização (que efetivamente ocorreu em 1985), houve também o descontrole total do Estado, a hiperinflação que somente seria domada pelo Plano Real de 1994 etc.

Mudanças também não representam troca de governo. Em 1930, de fato, o governo mudou. Mas em 1968 e em 1982 não, ainda que o quadro do País a partir dali (1969 e 1983, respectivamente) tenha sido completamente distinto.

Essas são possíveis chaves para entender o que virá a partir deste ano de 2016, após um ano de grave transição como foi 2015. Somente o futuro, é claro, poderá dizer.

O ano que começa agora, portanto, já tem como responsabilidade essa bagagem de mudanças.

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NYC

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O período em que ficarei como pesquisador em Columbia será de licença do Estadão. O blog não ficará inativo, apenas com atualizações mais lentas. Voltarei 100% ao jornal e ao blog no início de agosto deste ano.

Aproveito para agradecer aos leitores por toda a força ao longo de todo o tempo até aqui. Já já estarei de volta!

Obrigado e um ótimo 2016 a todos.

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