O Brasil dependente dos capitais especulativos
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O Brasil dependente dos capitais especulativos

Com um rombo na conta de corrente de 90 bilhões de dólares, mas com apenas 60 bilhões de dólares entrando como investimento estrangeiro, a economia brasileira tem um buraco de 30 bilhões de dólares para fechar em 2015. Quem vai cobrir essa diferença...?

João Villaverde

10 de março de 2015 | 09h25

Eternamente combatidas pelo PT e pela própria presidente Dilma Rousseff desde quando ocupava a chefia da Casa Civil, no governo Luiz Inácio Lula da Silva, as entradas de capitais estrangeiros de curto prazo, que chegam no Brasil para aproveitar as elevadas taxas de juros, agora são necessárias.

A economia brasileira está mais dependente dos capitais estrangeiros especulativos.

Dólares em turbilhão

Dólares em turbilhão

Com um déficit em transações correntes na faixa de US$ 90 bilhões, mas com uma entrada de investimento estrangeiro direto que deve ser muito inferior, da ordem de US$ 60 bilhões, segundo estimativas do Banco Central, a diferença precisa ser fechada pela entrada dos capitais estrangeiros especulativos.

A situação é delicada e o patamar do déficit é extremamente desconfortável. Mas o buraco de quase US$ 30 bilhões deve mesmo ser fechado com o ingresso de capital para a renda fixa, para aproveitar as nossas taxas de juros”, disse ao blog o economista Rafael Bistafa, da Rosenberg Associados.

As transações correntes apresentam o saldo entre todo o dinheiro que entra em um País e todo o dinheiro que sai. Entre 2004 e 2007, o Brasil registrou superávits na conta corrente. A partir de 2008, com a crise internacional e a perda de dinamismo da balança comercial – onde os maiores fluxos de dólares estão concentrados -, a situação mudou. Até 2012, o déficit nas transações correntes do País era totalmente financiado pela entrada de investimento estrangeiro direto. Desde então, o rombo foi aumentando e a dependência dos capitais especulativos, que aproveitam as taxas de juros, também.

Na semana passada, o Banco Central voltou a elevar a taxa básica de juros, a Selic. Agora, a Selic está em 12,75% ao ano, uma das mais altas taxas de juros do mundo. Nesta semana, o BC vai divulgar a ata da reunião de seu comitê de política monetária (Copom), que decidiu pela elevação na Selic. Espera-se, no mercado brasileiro e internacional, um sinal mais claro sobre os próximos passos do BC. Mas todos, hoje, consideram indiscutível que a Selic chegará “pelo menos” a 13% ao ano.

Sim, caro leitor, treze porcento ao ano.

Neste mês de março, com a entrada em vigor do programa de expansão monetária da União Europeia, aumentará muito a liquidez no mundo. Isto é, com a maior impressão de euros, na Europa, como forma de estimular o crescimento na região, a quantidade de dinheiro aumentará.

Neste cenário, atrativos como a taxa básica de juros brasileira, a Selic, hoje em 12,75% ao ano, reluzem ainda mais. O mundo ainda convive com juros reais negativos nos países desenvolvidos e a China, o maior entre os emergentes, tem cortado juros.

Esses juros mais altos no Brasil aumentam a rentabilidade das aplicações em títulos públicos. Temos um patamar de juros mais alto que nos países avançados, então operações de ‘carry trade’ que ajudam a financiar o déficit em transações correntes”, afirmou ao blog a economista Julia Gottlieb, do Itaú Unibanco. Ela fez referência à operação de “carry trade”, quando os investidores tomam empréstimos em países de juros baixos, como o Japão, onde a taxa real é negativa, e aplicam em títulos emitidos por países com juros mais elevados, como é o caso do Brasil.

A especialista do Itaú Unibanco, no entanto, aponta para um fato que pode ser um complicador nesta engenharia: a taxa de câmbio. Nas últimas semanas, o dólar aumentou de preço no Brasil, ultrapassando a cotação de R$ 3,00 pela primeira vez em quase 11 anos. “A rentabilidade dessas operações de ‘carry trade’ dependem do câmbio. Se o investidor achar que o câmbio vai se depreciar mais, isso diminuiu um pouco o apetite. Esses fluxos de capitais estrangeiros para títulos públicos são mais voláteis do que o investimento estrangeiro direto”, afirmou Julia.

Para fechar o rombo da conta corrente, de 30 bilhões de dólares, a economia brasileira precisa dos capitais especulativos. O governo, por seu lado, oferece uma das mais altas taxas de juros do mundo e isso, evidentemente, atrai os investidores estrangeiros.

Mas todo analista competente de mercado sabe que esse jogo não costuma terminar muito bem.

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Dilma x capital estrangeiro especulativo

Em 2014, há menos de um ano, o então ministro da Fazenda dizia que a decisão de zerar o IOF que incidia sobre a entrada de capital estrangeiro que aplica em títulos públicos “não era para atrair capital especulativo“.

Antes, no fim de 2012, Mantega ameaçava entrar com tudo para “evitar a entrada de capital estrangeiro no Brasil“. Poucos meses antes, em março daquele ano, Dilma fez uma crítica contundente às políticas dos países desenvolvidos, que enchiam o mercado internacional de dinheiro, que chegava aos emergentes para especular. Dilma chamou de “inconsequentes” as políticas dos países ricos.

Durante a campanha presidencial do ano passado, a percepção de que Dilma era uma “‘não amiga’ do capital especulativo” era criticada pelo mercado e elogiada pelos segmentos de esquerda da sociedade brasileira.

Agora, março de 2015, o governo Dilma Rousseff precisa mais do que nunca desse mesmo capital especulativo que vem do exterior.

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Atualização de 13/03/2015:

Os juros elevados, tão atraentes hoje no Brasil para os investidores internacionais, causam um estrago nas contas públicas. Veja, caro leitor, este texto do economista Mansueto Almeida, publicado hoje:

A conta de juros do setor público

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As manifestações de rua no Brasil e a economia

No conturbado cenário nacional, com a economia capturada totalmente pela política, os dias que virão serão quentes.

Hoje, sexta-feira, 13 de março, as centrais sindicais (CUT, CTB e CSB) e os movimentos sociais (MST, UNE e outros) vão realizar manifestações de rua, nas 27 capitais, para defender o governo Dilma Rousseff, entre outras bandeiras. A manifestação dos sindicalistas e dos movimentos sociais de esquerda vai antecipar os protestos de rua previstos para o domingo, dia 15. Neste dia será a vez de movimentos difusos, mas de direita, que vão demandar o impeachment de Dilma, entre outras bandeiras.

Em meio a tudo isso, a economia tenta se segurar.

Uma curiosidade: foi também em uma sexta-feira, 13 de março, que um dos eventos mais marcantes da história política e sindical brasileira ocorreu. Em 13 de março de 1964, o então presidente da República, João Goulart, promoveu o comício na central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, ao lado do ex-governador Leonel Brizola, do chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, e de lideranças sindicais favoráveis ao governo. Jango anunciou as reformas de base diante de 150 mil pessoas.

O comício, de esquerda, teve uma resposta da direita – que ocorreu dias depois, em 19 de março. Foi a famigerada Marcha da Família com Deus, em São Paulo.

Espera-se que, agora, que as manifestações de esquerda e direita neste março de 2015 não terminem como lamentavelmente acabaram as manifestações de março de 1964.

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Atualização de 18/03/2015:

O editorial econômico do Estadão de hoje trata dessa crescente dependência ao capital especulativo estrangeiro:

A dependência ao capital especulativo

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