O casamento desinteressado de Dilma com o Mercosul
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O casamento desinteressado de Dilma com o Mercosul

O bloco econômico poderia ser abandonado ou poderia ser aprofundado. Mas nenhuma das duas opções é seguida. A união entre Dilma e o Mercosul é como um casamento desinteressado: a relação continua por inércia.

João Villaverde

17 Dezembro 2014 | 09h40

Monumento histórico argentino desde 2009, a Escuela Normal Superior, em Paraná (Argentina), recebeu os chanceleres do Mercosul que prepararam o caminho para a reunião dos presidentes

Monumento histórico argentino desde 2009, a Escuela Normal Superior, em Paraná (Argentina), recebeu os chanceleres do Mercosul que prepararam o caminho para a reunião dos presidentes

Veja, caro leitor, o que está na mesa da presidente Dilma Rousseff neste exato momento:

1-  grave crise na Petrobras, que coloca em xeque a posição da presidente Graça Foster;
2- desvalorização descontrolada do rublo, a moeda da Rússia, respingou na economia brasileira, que viu ontem o real perder ainda mais força perante o dólar.
3-  faltam 15 dias para começar o segundo mandato e ainda faltam ministérios e secretarias importantes para serem preenchidos – isto é, conversas e negociações políticas precisam ocorrer o mais rapidamente possível.
4-  a economia brasileira: com um PIB em zero, investimentos em queda e desconfiança do mercado financeiro e das agências internacionais de rating, um pacote fiscal precisa mesmo ser anunciado logo em janeiro, como antecipou o Estadão. Mas ele ainda precisa ser todo discutido com Dilma e a nova equipe econômica.
Todos são temas urgentes e, na economia, as decisões são ainda mais complexas.
Mas onde estará Dilma hoje? Na cidade de Paraná, capital da província de Entre Ríos, na Argentina. Dilma vai participar da reunião de cúpula do Mercosul e, de quebra, vai receber de Cristina Kirchner, presidente da Argentina e anfitriã do encontro, a simbólica presidência temporária do bloco econômico.
O leitor pode imaginar que a cabeça de Dilma está longe, muito longe do Mercosul. Realmente, está. A informação junto ao governo brasileiro é que a missão dos técnicos do Ministério de Relações Exteriores é complexa: eles precisam fazer o Mercosul voltar a ganhar alguma importância na agenda presidencial em 2015.
Hoje, o Mercosul – que é um bloco econômico, mas que basicamente funciona como arena política para seus sócios – tem uma importância relativamente pequena no Palácio do Planalto. Sim, Dilma vai até a Argentina para se reunir com os demais integrantes do bloco: Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela (além da Bolívia, que deseja fortemente entrar no Mercosul). Mas há mais de um ano que a cabeça da presidente para assuntos internacionais se concentra em outro bloco, o BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Com o BRICS que Dilma fez seu movimento de política externa mais incisivo até aqui, desde que assumiu a Presidência, em janeiro de 2011. Foi a criação do banco dos BRICS, ratificado pelos sócios na histórica reunião de Fortaleza (CE), em julho deste ano. O banco, que efetivamente será criado no ano que vem, é o início efetivo da tentativa brasileira de se colocar como potência hegemônica. Se vai dar certo ou não, o blogueiro não tem como saber.
Neste sentido, o Mercosul foi ficando cada vez menos relevante para os dois maiores sócios, Brasil e Argentina. Não foi apenas Dilma que se distanciou do bloco, mas também Cristina Kirchner, que passou todo o ano de 2014 lidando com os “fundos abutres” e a Justiça americana.
Até então, entre 2012 e 2013, o Mercosul teve ao menos importância política para Dilma, que participou ativamente de duas decisões cruciais: a inclusão da Venezuela como país membro pleno do bloco e a suspensão temporária do Paraguai após o golpe que tirou Fernando Lugo do poder. O Paraguai voltou ao bloco depois de 12 meses excluído, também por uma decisão liderada por Dilma e Cristina na reunião do Mercosul em Montevidéu (Uruguai) em julho do ano passado. A partir dali, no entanto, o BRICS cresceu e o Mercosul diminuiu.
Os investimentos brasileiros na Argentina estão caindo fortemente, como demonstrou ontem Ariel Palacios. Em parte por conta das políticas protecionistas de Cristina, mas também porque as perspectivas de crescimento e, portanto, de rentabilidade das aplicações, não são boas. O apetite geral na região diminuiu frente ao momento de boom entre 2004 e 2011.
Como fazer o Mercosul voltar a ter alguma importância em 2015…?
Essa é a pergunta feita tanto em português quanto em espanhol em todos os corredores do Centro de Convenções “La Vieja Usina” onde ocorre a reunião do bloco aqui em Paraná, Entre Ríos, na Argentina. Desde ontem, quando aqui cheguei para cobrir a reunião, não obtive uma resposta clara. A sensação de muitos no governo brasileiro é que todo o ano de 2015 passe sem que uma resposta apareça.

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Atualização de 21/12/2014:

A reunião de cúpula do Mercosul foi, mais uma vez, absolutamente desnecessária. Ainda que Dilma, publicamente, tenha defendido mais uma vez o bloco, os acordos efetivamente fechados foram… bem, nenhum acordo foi efetivamente fechado. O que se decidiu foi por três “acordos quadro” – nome técnico dado ao início de uma discussão comercial, entre o Mercosul e o Líbano, o Mercosul e a Tunísia e o Mercosul e a União Econômica Euro Asiática, que será criada ainda pela Rússia.
Além disso, criaram a integração do sistema produtivo da cadeia de brinquedos. O que isso vai representar? O leitor já tem a resposta.
Mas o que realmente rendeu dessa reunião do Mercosul não foi o bloco, mas sim a emoção de todos os chefes de Estado com o histórico acordo fechado por Barack Obama e Raúl Castro, que estava sendo anunciado no mesmo instante em que os presidentes do Mercosul falavam na cerimônia de encerramento.
Este sim foi um momento histórico e que o blogueiro não esquecerá.
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Houve também o vazamento do áudio de uma conversa reservada entre Dilma e sua colega argentina Cristina Kirchner.