O lado bom do dólar caro
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O lado bom do dólar caro

Com o dólar próximo a R$ 2,80, as viagens ao exterior ficam mais caras, os preços dos produtos importados aumentam e as dívidas feitas em dólares ficam mais elevadas. Mas há um lado bom para essa desvalorização do real. Veja qual:

João Villaverde

09 Fevereiro 2015 | 13h52

Precisamos de mais reais para conseguir dólares.

Precisamos de mais reais para conseguir dólares

A cotação do dólar está se aproximando de R$ 2,80. Essa é a maior cotação em 12 anos – sim, doze anos atrás, para se comprar um dólar era preciso juntar quase três reais. Desde então, essa relação entre as moedas foi sempre favorável ao turista brasileiro: a menor cotação do dólar chegou a ser R$ 1,54, no início de 2011.

Parte do mercado financeiro começa a apostar que o dólar vai chegar a R$ 3,00 até o final do ano. A notícia mais imediata é: as viagens ao exterior ficam mais caras e os produtos e serviços importados aumentam de preço. Mas há um lado bom para tudo isso.

“Hoje, o real desvalorizado virou a tábua de salvação da indústria de transformação”, afirmou o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, que foi secretário de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda entre 2006 e 2007 e hoje é professor da Unicamp. Em entrevista a este blog, Almeida destacou que essa espécie de “banda informal” da taxa de câmbio, cuja previsão vai do atual patamar de R$ 2,75 até R$ 3,00, é boa para a indústria brasileira. Com o real mais desvalorizado, o produtor nacional começa a substituir os bens importados que tem usado como insumo em sua cadeia produtiva por bens nacionais. Ao mesmo tempo, o consumidor brasileiro pode começar a substituir o bem importado por um nacional e isso estimula investimentos.

Um câmbio mais desvalorizado também estimula as exportações. Isso porque o empresário que vender seu produto ou serviço para o exterior terá mais reais quando trocar os dólares obtidos com a exportação. Sua remuneração aumenta.

Mas, neste caso, Almeida avalia que estamos vivendo um período novo na análise econômica brasileira. “Embora a desvalorização seja boa, na prática, as exportações não estão aumentando e as perspectivas não são boas. Pela primeira vez, uma grande desvalorização da nossa moeda não está trazendo os efeitos esperados”, disse ele.

Entre 1983 e 1984, os ministros da Fazenda, Ernane Galvêas, e do Planejamento, Antônio Delfim Netto, coordenaram várias “mini-desvalorizações” do cruzeiro (nossa moeda, então), como forma de estimular as exportações e, assim, melhorar o balanço de pagamentos do País, que tinha literalmente quebrado no fim de 1982. O resultado deu certo: logo em 1984 e também em 1985 e 1986, o saldo comercial brasileiro deu enormes saltos. Depois, em janeiro de 1999, quando foi a vez do mercado forçar uma desvalorização do real, que estava mantido artificialmente grudado ao dólar na cotação de “um para um” desde o Plano Real, os efeitos foram sentidos logo em 2000, com a melhora das exportações e da condição geral da economia. Finalmente, entre 2002 e 2003, diante do “risco Lula”, quando o dólar chegou a bater R$ 3,99, o efeito prático foi um salto nas exportações (também infladas pelo boom das commodities).

Agora, não mais. “O câmbio mais desvalorizado protege a indústria dos importados e também ajuda os exportadores. Mas o efeito agora não é mais o mesmo de 10 anos atrás. Nossa base produtiva mudou. O câmbio agora é uma tábua de salvação mesmo. Com o PIB rodando a zero pelo segundo ano consecutivo, a inflação alta, que diminui a renda das pessoas disponível para o consumo, e os preços de insumos importados, como a conta de luz, aumentando muito, resta ao industrial brasileiro apenas uma tábua para se pegar e evitar o afogamento: esse é o dólar caro”, disse Almeida.

De acordo com o economista, o lado bom do dólar caro também pode ser efêmero. “Se a cotação passar muito de R$ 3,00 isso pode ter um efeito ruim também para a indústria nacional”, disse Almeida, “porque nos últimos 10 anos de câmbio valorizado, muitas empresas foram buscar financiamento externo”. Com o dólar barato e os juros muito baixos nos países ricos, as empresas brasileiras foram ao mercado internacional em busca de empréstimos em moeda estrangeira, como dólar e euro, processo que ganhou força a partir de 2008 e foi forte até 2013, principalmente. Esses empréstimos continuam a ser rolados com juros muito baixos, mas como são pagos no exterior, o empresário brasileiro precisa fazer a troca de moedas aqui e nos últimos tempos tem precisado de mais reais para conseguir comprar a mesma quantidade de dólares. “Até R$ 3,00, mais ou menos, o efeito é mais positivo do que negativo para a indústria. Se passar muito disso, a situação pode se inverter”, afirmou ele.

Finalmente, o economista avalia que as empresas brasileiras precisam voltar a olhar para o mercado externo, apesar da crise internacional, que diminui o apetite dos países ricos para produtos de fora. Segundo ele, as empresas nacionais, em especial na indústria, focaram seus investimentos nos últimos dez anos para o mercado interno, como forma de aproveitar o salto de consumo que o País viveu entre 2004 e 2012, principalmente. “Para competir internacionalmente é preciso ter ganhos de produtividade. Claro que uma alta de conta de luz como a que se espera não ajuda. Mas o empresário precisa aproveitar a taxa de câmbio mais desvalorizada e reiniciar conversas com compradores no exterior, começar a mobilizar seus fornecedores para isso”, disse Almeida. “Nossa indústria definitivamente não é uma carroça, mas também não está nos trinques da produtividade”.

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Atualização de 10/02/2015:

Para o leitor colocar em perspectiva a situação da indústria brasileira neste momento. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), talvez o melhor “think tank” nacional sobre o setor, concluiu ontem à noite seu relatório final sobre o desempenho das fábricas instaladas no Brasil em 2014. Vejam o que o Iedi escreveu:

Os dados para 2014 são mais uma evidência de que a crise do setor industrial é longa e tem diversas raízes internas e externas. Enquanto havia demanda a indústria ainda exibiu uma trajetória frágil e com pouco fôlego, de certa forma resistente aos enormes desafios estruturais de competitividade, como infraestrutura e carga tributária. Infelizmente as perspectivas para 2015 não são otimistas, dada a fraqueza dos mercados externos, enfraquecimento do consumo interno e expectativas empresariais adversas que dificilmente abrirão caminho à retomada do investimento.  O ano de 2014, o pior ano da atual crise da indústria nacional, fecha no vermelho em 3,2%.

Como disse Júlio Sérgio Gomes de Almeida na entrevista concedida ao blog, no atual cenário, o câmbio desvalorizado pode ser a única “tábua de salvação”.