O PT e o governo Dilma em 2015
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O PT e o governo Dilma em 2015

Investidores que chegam em Brasília buscam informações de como o governo vai se comportar nos próximos meses. Para entender o que está por vir é importante compreender como o PT, o partido de Dilma, está vendo o atual cenário. Veja o que está em jogo:

João Villaverde

24 de março de 2015 | 09h35

O governo Dilma Rousseff passa por seu momento mais dramático. A economia não cresce há dois anos e agora em 2015 deve registrar a maior recessão em 25 anos – sim, desde a estreia de Fernando Collor, em 1990, quando o governo promoveu o famigerado “confisco” da poupança, que o PIB não registra uma queda tão profunda quanto a esperada para este ano.

Após a sucessão de operações mal explicadas na economia, como a profusão de pacotes com medidas para estimular a economia (e que não deram certo) e as “pedaladas fiscais” de 2013 e 2014 que colocaram o governo sob cerrada investigação do TCU e do Ministério Público Federal, a presidente agora faz um freio de arrumação.

São poucos aqueles que estão satisfeitos com os rumos econômicos do País neste momento. A cada visita das agências de rating a Brasília, o ar fica suspenso na equipe econômica (ministérios da Fazenda e do Planejamento, além do Banco Central) e também no Palácio do Planalto. O estopim para uma crise mais grave na política seria a perda do grau de investimento. Isso pode acontecer a qualquer momento, apesar dos esforços do governo neste segundo mandato.

O que está pela frente?

Para antecipar os próximos passos é importante entender como pensa o PT, o partido da presidente Dilma Rousseff. Muitos economistas do mercado, quando vêm a Brasília, buscam informações sobre isso. Para “fazer preço”, como se costuma dizer no mercado, é preciso ter informação.

Vamos, então, montar as peças da política para compreender o que pode estar por vir na economia.

O PT, neste momento, está em duelo. Famoso por conseguir driblar questões complexas do País e do jogo político com um discurso razoavelmente consensual, o Partido dos Trabalhadores está sem discurso neste momento e, pior, sem conseguir se entender.

Para compreender o PT é preciso antes entender como pensam as três principais tendências dentro do partido. São elas: Construindo um Novo Brasil (CNB), Democracia Socialista (DS) e Mensagem ao Partido.

A CNB é a maior. Dela fazem parte as figuras maiores do partido, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os ex-ministros José Dirceu e Marco Aurélio Garcia, além do atual presidente do PT, Rui Falcão, e o atual tesoureiro, João Vaccari. Da CNB no governo Dilma, neste segundo mandato, apenas o atual ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini.

A CNB, como campo majoritário, acaba sendo a “cara” mais famosa do partido. Hoje, a CNB defende que o governo Dilma busque ter um formato mais próximo daquele do governo Lula, que rezava a missa de Brasília, isto é, dos arranjos com partidos de centro e mesmo de direita, em busca de uma governabilidade tradicional.

O leitor já percebeu que Dilma não faz parte da CNB. É importante lembrar aqui que Dilma não faz parte do grupo que criou o PT, nas lutas sindicais de 1978 a 1981, nem das discussões que abriram o PT para as tendências, entre 1986 e 1988, e também não estava lá quando o PT disputou as eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Dilma foi fundadora do “rival” PDT, em 1981, o partido de Leonel Brizola. Até 1994, o PDT era o maior partido de esquerda do Brasil. O envelhecimento de Brizola junto com a morte de Darcy Ribeiro (os dois maiores nomes do PDT), fizeram o partido perder muito espaço para o PT. Foi assim que, no fim do ano 2000, início de 2001, Dilma trocou o PDT pelo PT. E chegou pela Democracia Socialista (DS).

A tendência DS sempre foi vista como o grupo da “ruptura”. Essa é a palavra chave na DS. Se depender da tendência, o PT hoje romperia com o que chamam de “imobilismo” do governo e partiria para uma política de negociação direta com os grupos sociais que servem de base à esquerda do governo, como as centrais sindicais CUT e CTB, os movimentos MST e MTST, além dos estudantes (UNE e centros acadêmicos que hoje estão mais próximos do PSOL e do PSTU, mas que em um cenário de “luta de classes” estariam com o governo).

A DS teve como expoente no primeiro governo Dilma o ex-secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, o responsável direto pelas “pedaladas” e uma das faces mais evidentes da política econômica do primeiro mandato.

Augustin saiu, mas a DS cresceu neste segundo mandato. Um dos principais expoentes desta tendência é Miguel Rossetto, que comanda a Secretaria Geral da Presidência. Outro ministro no Planalto que pertence a DS é Pepe Vargas, de Relações Institucionais.

No meio do caminho entre a CNB e a DS está a Mensagem ao Partido. Este grupo nasceu em 2005, no auge da crise do “mensalão”. Na época, liderada pelo ex-ministro Tarso Genro, esta tendência defendeu o afastamento de José Dirceu do PT. Hoje, este grupo defende que o tesoureiro João Vaccari, investigado na operação Lava Jato, deixe o PT. Deste grupo faz parte o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. A Mensagem ao Partido tem defendido internamente uma mudança de postura do PT, que acene para fora com um bandeira mais moralista. São eles hoje que falam em “purificação” do PT, segundo afirmou a este blog um deputado federal petista.

As diferenças entre DS e a Mensagem ao Partido ficaram claras na entrevista coletiva concedida por Rossetto e Cardozo na noite do domingo das manifestações, 15 de março, que foi transmitida na TV e nas rádios. Enquanto Rossetto, da DS, apresentava um discurso na linha do “nós contra eles”, buscando reforçar a imagem que nas ruas estavam predominantemente inimigos do governo Dilma, Cardozo, da Mensagem ao Partido, tentava estender o braço para as ruas, dizendo que o governo estava aberto a todas as manifestações. Cardozo também disse que estava disposto a receber sugestões dos diferentes grupos que foram às ruas, um gesto impensável pela o grupo da DS.

Enquanto isso, a CNB, que é majoritária, defende que o PT aprofunde o jogo político de Brasília, do qual Dilma tem ojeriza. Sem exercer a política, o governo colecionou derrotas neste segundo mandato e deve continuar perdendo feio no Congresso Nacional, comandado pelo PMDB. Por entender o jogo, o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), começou a aparecer mais na última semana. Deu entrevistas, recebeu empresários do comércio varejista e também liderou a proposta de reforma política e eleitoral do PMDB.

Dilma e Lula juntos na campanha presidencial, tendo Michel Temer no fundo.

Dilma e Lula juntos na campanha presidencial, tendo Michel Temer (PMDB) no fundo, entre os dois.

Parte do PT teme que Dilma se torne uma espécie de “rainha da Inglaterra”, tendo Temer como uma espécie de primeiro-ministro.

As tendências do PT, cada uma defendendo uma coisa, estão batendo cabeça, enquanto o País continua vivendo. As principais lideranças avaliam que o PT só deve buscar um discurso coeso de ação a partir de junho, quando será realizado o congresso nacional do partido.

Faltam três meses até lá.

Como vai se comportar o governo Dilma Rousseff até junho, tendo debaixo de si um movimento acelerado de placas tectônicas políticas?

A economia não pode esperar.

Sem pertencer ao PT e, principalmente, sem ter absolutamente nada a ver com a política econômica do primeiro mandato de Dilma, o atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem conduzido o ajuste fiscal e também as negociações políticas quase que por conta própria. Anunciou sozinho o pacote de aumento de tributos sobre o crédito ao consumidor e sobre os combustíveis em janeiro, ganhou a disputa interna para transferir para a conta de luz todas as necessidades do setor elétrico, e bancou a polêmica medida de rever as desonerações da folha de pagamentos.

Levy também negociou diretamente com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), sobre a tabela do Imposto de Renda (IR), e na semana passada foi até a casa do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), ter uma reunião “secreta” com ele e o deputado Paulo Pereira da Silva (SD), o Paulinho da Força, sobre as medidas provisórias 664 e 665.

As coisas estão acontecendo e mais manifestações estão marcadas para o dia 12 de abril.

O PT, batendo cabeça, é melhor ou pior para o mercado?

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Atualização de 25/03/2015

Um dia após a publicação deste post, o líder da Mensagem ao Partido, o ex-ministro Tarso Genro, soltou o verbo contra o PT, o governo e o PMDB na questão sobre a renegociação das dívidas de Estados e municípios, quando Dilma coletou nova derrota para sua coleção no Congresso. Veja abaixo:

PMDB é “mui amigo” e PT emudeceu, critica Tarso Genro

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Em outra frente, o senador Paulo Paim (PT-RS) também criticou publicamente o governo Dilma hoje, e revelou que pode deixar o PT caso o governo insista no ajuste fiscal.

A situação é complexa para o governo neste momento, em Brasília.

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Atualização de 09/04/2015

Ontem foi aprovado o texto-base do projeto de terceirização, na Câmara dos Deputados. Foi uma lavada: 324 deputados votaram pela aprovação ante 137 contrários. Apenas PT, PC do B e PSOL foram contrários. O PT se isolou do próprio governo Dilma Rousseff, cuja participação foi apenas pelo lado fiscal da questão.

Pois bem: No fim do dia, logo após a aprovação do projeto, o ministro Miguel Rossetto (PT), da tendência Democracia Socialista (DS), soltou uma nota dura contra o projeto.

A leitura política, hoje, em Brasília, foi simples: Rossetto fez o posicionamento para marcar a posição da DS no debate interno do governo e deixar claro que “há PTs e PTs“.

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