Os Estados Unidos e a corrupção na América Latina
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Os Estados Unidos e a corrupção na América Latina

Documento assinado por 23 especialistas em América Latina nos Estados Unidos, obtido pelo blog, apresenta propostas ao próximo presidente americano. Entre elas, atuar em parceria contra a corrupção nos governos e nas empresas da região e restabelecer a pauta do livre-comércio. Entenda:

João Villaverde

04 de maio de 2016 | 12h25

O próximo presidente dos Estados Unidos deve trabalhar com os governos da América Latina para estabelecer um painel independente de juristas e autoridades públicas para coordenar a batalha que os países da região estão travando contra a corrupção nos setores público e privado. Essa é a avaliação de 23 acadêmicos especializados na relação entre os EUA e os latino-americanos e faz parte de documento que será divulgado nesta quinta-feira (05/05) para policy makers dos dois partidos, Republicano e Democrata, que disputam a sucessão do presidente Barack Obama, que deixará o poder em janeiro de 2017.”A região está experimentando tanto os benefícios quanto as dificuldades políticas de uma crescente atenção popular para a corrupção no setor público e também no setor privado. Do México a Argentina, os cidadãos estão demandando mais accountability e transparência dos seus governos“, apontam os especialistas no texto. Segundo eles, uma atuação mais pró-ativa do presidente americano em temas de interesse dos latino-americanos será fundamental para aprimorar a política externa dos EUA.
Os graves problemas econômicos experimentados pelos países da região, em especial na América do Sul, são apontados como oportunidade para os EUA. “Brasil, Argentina e Peru estão tentando diversificar suas exportações, então muito concentradas em produtos primários, e os EUA podem ter um papel importante nesse processo“, dizem. Os Estados Unidos são o primeiro ou o segundo maior parceiro comercial de praticamente todos os países da região e, diferente da China, importa bens e serviços mais sofisticados, de modo geral.
Obama em visita histórica a Cuba, 2016: aposta em nova relação com América Latina

Obama em visita histórica a Cuba, 2016: aposta em nova relação com América Latina

Entre os acadêmicos que assinam o documento, intitulado Global Americans Campaign Suggestions, estão Frank Mora e José Fernandez, que trabalharam no primeiro mandato de Obama, Hunter Carter, que participou do comitê de América Latina na campanha de Hillary Clinton em 2008, além de Christopher Sabatini, Natasha Zaretsky e Stephen Kaplan, professores nas universidades de Columbia, New York University e George Washington University, respectivamente.O texto foi obtido pelo blog e boa parte das informações foi registrada na edição impressa de hoje do Estadão.
Embora o documento sirva a todos os candidatos ainda na disputa interna dos partidos, o texto apresenta sugestões mais próximas da visão geral da virtual candidata dos Democratas, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, do que do primeiro colocado nas primárias dos Republicanos, o bilionário Donald Trump.
Para começar, em vez de falar sobre levantar muros, queremos que a discussão seja sobre construir pontes com líderes, organizações e cidadãos da América Latina“, dizem os especialistas no texto, numa indireta à famigerada proposta de Trump de construir um muro na fronteira dos Estados Unidos com o México e fazer o governo mexicano pagar pela obra. No caso da imigração de latino-americanos para os Estados Unidos, os especialistas defendem que o novo presidente estabeleça um sistema “racional e humano“, que ao mesmo tempo apontem para as necessidades dos EUA por força de trabalho e também crie um caminho para que os imigrantes hoje em situação ilegal consigam adquirir status de cidadania americana. “Isso deve incluir, como primeiros passos, o fim das deportações de crianças que estão fugindo da violência na América Central“, registram.Comércio. Os acadêmicos defendem iniciativas de livre-comércio com os países da região, em especial o Acordo Transpacífico (TPP), fechado por Obama e que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso. Acordos de livre-comércio foram a principal bandeira da gestão Bill Clinton (1993-2000) e tinham o apoio bi-partidário até recentemente, mas estão sob ataque tanto de Trump quanto do democrata Bernie Sanders, que disputa com Hillary a indicação do partido para as eleições de novembro.
Segundo eles, os acordos de livre-comércio tem tirado empregos dos trabalhadores americanos. Essa sempre foi a retórica dos líderes latino-americanos desde então, contrários a acordos com os Estados Unidos. Em 2005, os então presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Nestor Kirchner (Argentina) e Evo Morales (Bolívia) montaram evento paralelo à Cúpula das Américas, no interior da Argentina, para atacar as propostas de livre-comércio do governo George W. Bush (2001-2008).
Mas as mudanças recentes no pêndulo político na região podem beneficiar os Estados Unidos. Obama visitou o novo presidente argentino, Maurício Macri, em Buenos Aires em março, para demonstrar apoio às ideias do novo líder, que é anti-protecionista. Além disso, Chile, México, Peru e Costa Rica fazem parte do TPP, que também tem Uruguai, Panamá e Guatemala como observadores. Finalmente, a Colômbia tem fechado diversos acordos comerciais com os EUA nos últimos anos.
Em países como Argentina, Brasil, Chile e Peru, a queda no crescimento econômico ou mesmo a recessão provavelmente aumentarão os protestos populares. Ao mesmo tempo, muitos desses países têm desafios relacionados à inclusão social, direitos humanos e péssimos serviços públicos. Não é uma coincidência que aqueles países que sofrem uma queda econômica mais suave são aqueles que se integraram melhor ao mercado global“, dizem os especialistas, em referência indireta a Chile e Peru como exemplos de sucesso.
Cuba e Venezuela. Os especialistas dão especial atenção a Cuba e Venezuela no documento. Eles citam a promessa do presidente da ilha, Raúl Castro, de deixar o poder em 2018. Se isso efetivamente acontecer, o próximo líder dos EUA será o primeiro a se relacionar com Cuba sem um Castro à frente desde o governo de Dwight Eisenhower (1953-1960). “O próximo presidente deve iniciar as negociações com o Congresso para acabar com o embargo aplicado sobre a ilha. O próximo governo deve ter em mente que por toda a América Latina, independente da orientação ideológica de cada líder regional, o embargo americano e a exclusão de Cuba do sistema inter-americano é visto negativamente“, dizem.A revolução cubana, liderada pelos irmãos Fidel e Raul Castro, ocorreu em 1º de janeiro de 1959. O embargo americano sobre a ilha começou dois anos depois, em 1961. Foi agressiva a interação entre Cuba e os Estados Unidos por mais de 50 anos depois disso – até dezembro de 2014, quando Barack Obama e Raul Castro reataram relações diplomáticas e iniciaram o processo histórico que culminou com a visita de Obama a ilha em março de 2016. Desde que os Castro iniciaram o regime na ilha, os Estados Unidos tiveram 11 presidentes (Eisenhower, Kennedy, Lyndon Johnson, Richard Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter, Ronald Reagan, George H. Bush, Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama). Como continuarão até 2018, ao menos, serão 12 presidentes americanos, ao todo, que terão lidado com a Cuba sob o regime dos irmãos. A mudança histórica iniciada por Obama terá como ponto máximo, portanto, justamente o mandato do presidente que vencer as eleições deste ano.
No caso da Venezuela, os 23 especialistas de universidades americanas apontam que o país, governado pelo chavismo desde 1999, “é o principal desafio” na região para o período que começará em 2017. “Anos de corrupção, erros na administração econômica, liderança autocrática e um programa insustentável de entrega de petróleo erodiram instituições estatais, criaram uma crise econômica e um círculo de países no Caribe e na América Central dependentes do petróleo venezuelano. Felizmente, os EUA tem uma lista crescente de países, incluindo Argentina, Chile, Colômbia, México e Uruguai, que podem se associar para construir instituições, respeitar o devido processo legal e a integração econômica“, apontam os especialistas.
Por fim, os especialistas reconhecem o surgimento de diversas instituições multi-laterais criadas na região nos últimos anos, como Alba, Celac e Unasul, mas defendem que o próximo presidente americano deve se esforçar para fortalecer a mais antiga delas, a Organização dos Estados Americanos (OEA), que conta com a participação dos EUA.****

As eleições aqui nos Estados Unidos (onde o autor deste blog mora desde janeiro) devem, mesmo, ser disputadas entre Hillary Clinton (Partido Democrata) e Donald Trump (Partido Republicano). Mas, diferente de praticamente todas as campanhas presidenciais recentes, isso ainda não está totalmente definido, mesmo faltando apenas dois meses para as convenções partidárias.

A desistência do conservador radical Ted Cruz, senador pelo Texas, ontem (04/05), deu a Trump praticamente a indicação republicana. Permanece na disputa interna do partido apenas John Kasich, que é o mais moderado entre todos os nomes que os Republicanos apresentaram para a sucessão de Obama desde o início da pré-campanha. Kasich não tem mais chances matemáticas de conseguir a indicação formal, mas ao permanecer na campanha, pode fazer com que Trump não atinja o número mínimo necessário de delegados para conseguir a indicação oficial do partido antes da convenção. São necessários 1.237 delegados, 190 a mais do que Trump tem hoje. Missão quase impossível para Kasich, mas enquanto ele continuar na disputa, Trump não pode se concentrar 100% na campanha geral.

Do lado democrata, a situação é muito parecida, mas o conforto de Hillary é ainda maior. Ela ainda não assegurou matematicamente o número mínimo de delegados para garantir a indicação formal dos Democratas. Até agora não conseguiu superar seu rival interno, Bernie Sanders, senador de Vermont. Ele venceu as primárias de Indiana ontem. O sonho de Sanders, que tem chances mínimas de conseguir a indicação, é carregar sua campanha até as primárias da Califórnia, que serão realizadas em junho, de forma a nacionalizar completamente sua campanha, sustentada em críticas pesadas ao setor financeiro e aos bancos responsáveis pela crise mundial de 2008, ao lobby do setor farmacêutico junto ao Congresso americano, e à desigualdade social no país, que tem crescido apesar da recuperação do mercado de trabalho.

Hillary é considerada por todos a virtual presidente a partir de 2017. Foi primeira-dama do marido Bill de janeiro de 1993 a janeiro de 2001, senadora pelo Estado de Nova York, pré-candidata presidencial em 2008 e finalmente comandou o Departamento de Estado de janeiro de 2009 a janeiro de 2013. Ela também é a preferida do atual presidente Barack Obama para sua sucessão.

Ontem, no programa Late Night, o comediante Seth Meyers comentou que Hillary já está preocupada com a eleição presidencial… de 2020 (o que seria sua reeleição caso vença mesmo em 2016).

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O professor de Columbia e especialista em América Latina, Christopher Sabatini, mantêm um site com análises sobre a região que vale conferir: Latin America Goes Global

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Atualização de 05/05/2016

O documento acaba de ser lançado e pode ser lido, na íntegra, aqui.

De ontem para hoje, o quadro eleitoral aqui nos Estados Unidos mudou mais um pouco. John Kasich, afinal, suspendeu sua campanha presidencial. Com isso, do lado Republicano, resta apenas Donald Trump, que passa a ser o virtual candidato do partido à sucessão de Obama. Ele, no entanto, ainda não tem o número mínimo de delegados para conquistar oficialmente a candidatura. Sim, trata-se de uma questão de tempo agora. Será interessante acompanhar como o establishment do partido vai se comportar na campanha.

Do lado Democrata ainda disputam a indicação oficial do partido de Obama os pré-candidatos Hillary Clinton e Bernie Sanders. Dificilmente Bernie conseguirá tirar de Hillary a indicação formal, mas seu feito não deixa de ser impressionante.

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