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Sempre há um caminho pelo meio

Uma pequena apresentação deste blog. A questão central aqui é que dogmatismos, formados em tempos de radicalismo na política, turvam a visão e travam qualquer debate.

João Villaverde

10 de agosto de 2014 | 09h25

O problema daqueles que não gostam de política é que eles são comandados por aqueles que gostam muito

A frase é, há pelo menos 50 anos, atribuída ao poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht. Como mesmo especialistas em Brecht nunca a desmentiram – ela é, afinal, verossímil, dado o conjunto de sua obra -, tomamos aqui como uma frase de Brecht.

 

Seus tempos foram difíceis. Brecht viveu, na pele, a barbárie que dominou seu país entre 1932 e 1945. Artista brilhante, Brecht precisou deixar a Alemanha com a subida ao poder (pelo voto!) de Adolf Hitler, e foi perseguido político dos nazistas por mais de 12 anos. Naquele momento em que tudo era difícil, a única realização fácil (e também lógica) era a de se opor ao nazismo que tomou a Alemanha e ao fascismo que dominou a Itália de 1921 a 1943. Viver no mundo pós-crise mundial de 1929, tendo o horror da Primeira Guerra Mundial ainda quente na memória, era tarefa árdua.

 

O mundo que nasceu daquele pós-1945 também não era simples. Em diversos momentos da história dos povos, vivemos momentos em que a única realização fácil, do ponto de vista de estado de espírito, era o de se opor aos regimes de exceção. Foi assim ao longo da triste ditadura militar brasileira.

 

Com a revolução industrial das comunicações, a partir dos anos 1980, mas principalmente a partir de 1993, o mundo ficou mais próximo e, definitivamente, mais complexo. Não vivemos um cenário fácil, em qualquer lugar do mundo. Então, leitor, este blog nasceu justamente disso: para tentar fugir de posições fáceis, definitivas.

 

Os tempos de radicalização são penosos de viver, porque geram dogmas e consensos entre grupos que, no limite, criam verdades. Como os dogmas circulam em grupos que se retroalimentam, vivemos um momento em que factódeis, à direita e à esquerda, são encarados como verdades estabelecidas. Esse tipo de ambiente acaba afastando do debate político e também econômico as mentes mais saudáveis, deixando o cenário propício para… bem, aqueles que gostam muito de política, e continuam a exercer o poder de dominar.

 

Um exemplo claro do quão ruim o clima de radicalismo pode ficar é o que ocorre nos Estados Unidos. O debate político nos EUA está absolutamente travado desde 2010 justamente pela incapacidade dos dois partidos hegemônicos – Democratas e Republicanos – de dialogar. Hoje ninguém mais sabe se a culpa é dos partidos, que contaminaram a internet e a mídia tradicional, ou se o contrário: os excessos vieram de fora e contaminaram os partidos. Fato é: está travado.Do lado republicano, que governou o País ao longo dos anos 1980 (com Ronald Reagan e George Bush, entre 1981 e 1992) e da década de 2000 (com George W. Bush, entre 2001 e 2008), a ascensão do movimento radical extremista do Tea Party, com seu ranço conservador e racista, forçou que o partido fundado por Abraham Lincoln fosse muito para a direita. 

 

Esse movimento exigiu o contrário do Partido Democrata, que passou a ser uma espécie de “partido dos oprimidos” (latinos, de modo geral), mas também aquele que topa carregar pautas mais modernas, como da legalização das drogas e da garantia de direitos individuais (onde entram, também, temas cruciais como o casamento homoafetivo). Os Democratas têm o atual presidente, Barack Obama, e também as famílias Clinton e Kennedy como os nomes maiores.

 

Para piorar as coisas, os EUA estão em grave crise econômica desde 2008, e tem assistido à derrocada de seu poder de dominar “corações e mentes” do mundo – sua hegemonia, que começou entre 1913 e 1918, está arranhada pelos vazamentos do WikiLeaks (em 2010), a perda de poder no Oriente Médio a partir da Primavera Árabe (em 2011), as espionagens reveladas por Edward Snowden (em 2013) e a consolidação da China como a maior economia do mundo (algo que deve ocorrer até 2015).

 

Se estão assim os americanos… bem, sabemos como passa o Brasil, não é, caro leitor? Não vivemos um cenário de respostas fáceis, e para grandes discussões há sempre um caminho pelo meio.

 

“Meio”, aqui, não se refere ao “centro” no espectro político – aqueles que não querem ficar nem à direita e nem à esquerda. Que fique claro: este blog não é de centro. Entender uma ideologia, qualquer que seja, é importante para mapear os interesses – políticos ou financeiros – que balizam praticamente todas as decisões políticas no País, sejam elas de esfera federal, estadual ou municipal. A questão central aqui é que dogmatismos turvam a visão e travam qualquer debate.

 

Agora, em pleno período eleitoral no Brasil, isso fica claro: corremos um risco sério de inviabilizar debates sérios, estruturantes, com o radicalismo de lado a lado.

Sempre há um caminho pelo meio.

 

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Um dos motes mais bonitos do cinema, “o amor é maior do que a morte”, foi cunhado pela escritora alemã Thea von Harbou. Ele surgiu no magistral “A Morte Cansada” (1921), escrito por ela e dirigido por Fritz Lang. Na história deste filme, o primeiro clássico de Lang, a protagonista negocia desesperadamente com a Morte (uma personagem) para que seu marido volte do além. Ela martela a ideia de “o amor é maior, mais forte, que a morte”. Thea, que namorava Lang (com quem se casaria em 1922), ainda assinaria o roteiro de dois outros filmes maravilhosos do marido: “Metropolis” (1927) e “M, o Vampiro de Dusseldorf” (1931).

 

Por que estou falando disso aqui, absolutamente do nada?

 

Para lembrar que nada é 100% certo e perfeito, e para reforçar a ideia de que devemos fugir das explicações fáceis, porque sempre há uma história maior. No caso de Thea von Harbou também. A escritora alemã , que embalou corações nos anos 1920, virou uma liderança nazista na década seguinte. Ela se filiou, em 1932, ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães – o nome original do que viria a ser o Partido Nazista.

 

Fritz Lang, o marido de Thea, discordou completamente dos caminhos políticos e culturais que sua esposa estava tomando. Eles se divorciaram em 1933, mesmo ano em que Lang fugiu da Alemanha nazista. Ele foi para os Estados Unidos, onde se consolidou como um dos maiores cineastas de Hollywood.

 

Thea, ao contrário, permaneceu e colaborou com o regime nazista, trabalhando com propaganda ao longo da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, ela foi capturada pelo exército inglês, e chegou a trabalhar, a serviço da Inglaterra, na limpeza do entulho que se acumulou sobre Berlin, totalmente bombardeada pela União Soviética.

 

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Fora que, se o mundo fosse 100% certo e perfeito, o Botafogo não estaria lutando para fugir do rebaixamento no Brasileirão 2014 😉

 

Um ótimo domingo a todos.

 

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