Um dos piores PIBs em anos eleitorais em 115 anos
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Um dos piores PIBs em anos eleitorais em 115 anos

Ao longo dos últimos 115 anos foram realizadas 20 eleições presidenciais. Em apenas cinco o desempenho do PIB foi pior do que o registrado em 2014. O Brasil precisa mudar sua economia. Entenda a razão:

João Villaverde

31 de março de 2015 | 09h17

O avanço de apenas 0,1% da economia brasileira em 2014 foi um dos cinco piores resultados do Produto Interno Bruto (PIB) registrado em anos de eleições presidenciais dos últimos 115 anos no Brasil. Desde as eleições presidenciais de 1902, quando Campos Salles deu lugar a Rodrigues Alves em meio a uma retração de 0,5% do PIB, até o ano passado, em apenas quatro anos o desempenho da economia em eleições foi pior do que o verificado na reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Centro do Rio de Janeiro em 1910. Foto de Marc Ferrez.

Centro do Rio de Janeiro em 1910. Foto de Marc Ferrez

Além de 1902, o PIB registrou um ritmo mais fraco nas eleições presidenciais de 1914, 1918 e 1930. Em todos esses anos, uma grave crise internacional serviu de explicação.

Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, em 1914, a economia brasileira veio abaixo diante da queda abrupta de importações de café pelos europeus. Quatro anos mais tarde, a guerra acabou, mas a Europa arruinada continuou derrubando o PIB brasileiro. Mas tanto em 1914 quanto em 1918, os candidatos da situação conseguiram se eleger – Venceslau Brás, em 1914, e Rodrigues Alves, em 1918. Alves, no entanto, não conseguiu assumir, porque faleceu ao contrair a gripe espanhola. Assumiu o vice, Delfim Moreira, e depois Epitácio Pessoa.

Já em 1930, o quadro foi completamente distinto. A queda do PIB em ano eleitoral foi mais profunda e o candidato da situação – que até venceu a eleição presidencial – não tomou posse. Diante do crash da Bolsa de Nova York, no fim de 1929, a maior crise econômica do século XX foi instalada e pegou o Brasil em cheio. Nas eleições, em meio a uma queda de 2,1% do PIB, foi eleito o paulista Júlio Prestes. Mas em meio a decadência econômica e a crise política, Prestes foi superado pela revolução popular que fez do então governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, presidente da República.

O Brasil só voltaria a ter eleições em 1945, quando o marechal Dutra foi eleito presidente. Em 1950, Vargas voltou, desta vez pela via democrática, para cumprir mandato de cinco anos. Em 1955, a atuação do marechal Henrique Lott garantiu que as eleições fossem realizadas e então Juscelino Kubistchek foi eleito. Cinco anos mais tarde, em 1960, foi a vez de Jânio Quadros ser eleito. Quando estávamos próximos das eleições presidenciais de 1965, o País sofreu um golpe de Estado, tocado pelos militares com apoio de civis com cargos estratégicos, como o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, e de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Mas nos pleitos de 1945, 50, 55 e 60 não houve queda no PIB.

Voltaríamos a ver eleições em 1985, quando o colégio eleitoral no Congresso Nacional elegeu Tancredo Neves para presidente. Naquele ano, conduzido pelo vice José Sarney diante do falecimento de Tancredo antes de tomar posse, o PIB cresceu forte, 7,8%, ritmo que só seria repetido em 2010. Em 1989, quando Lula e Collor travaram barulhento segundo turno e Collor venceu por pequena margem, a economia cresceu. Em 1994, quando Fernando Henrique Cardoso foi eleito pela primeira vez, nova alta forte do PIB.

O desempenho econômico em ano eleitoral só voltaria a ser fraco, como fora em 1902, 1914, 1918 e 1930 no ano de 1998, quando FHC buscou – e conseguiu – a reeleição. O quadro que se seguiu ali, o leitor cá do blog conhece. Em 2002, o PIB cresceu acima de 3% quando Lula venceu José Serra e foi eleito pela primeira vez. Em 2006, ano da reeleição de Lula, o PIB cresceu 4%. Em 2010, quando Lula elegeu sua candidata, Dilma Rousseff, o PIB chegou a 7,6%.

Agora, em 2014, voltamos a repetir um ritmo muito fraco de crescimento econômico em ano eleitoral.

Em 20 eleições presidenciais realizadas nos últimos 115 anos, entre 1901 e 2014, em apenas cinco o PIB registrou um ritmo pior do que foi no ano passado.

Para o especialista Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, está mais do que na hora da economia brasileira passar por um “profundo rebalanceamento”. Ele explica:

A economia cresceu empurrada pelo consumo das famílias entre 2004 e 2012. Ele perdeu força e nada entrou no lugar para substituir. O governo tem um problema de curto prazo para resolver, que é a manutenção do grau de investimento, mas precisa logo fazer o investimento liderar o PIB”, afirmou Borges.

O economista da LCA foi quem mais acertou projeções quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou a nova metodologia de cálculo do PIB, considerando uma forma mais moderna, apoiada por instituições internacionais. Com a nova metodologia, o ano de estreia de Dilma na Presidência, passou de 2,7% para 3,9%.


Segundo Borges, a nova estimativa deixa ainda mais claro que o “fim do ciclo” de crescimento sustentado no consumo das famílias se deu em 2012. A partir de 2013, o governo conseguiu segurar o ritmo por meio das diversas medidas de estímulo concedidas por Dilma, com uma série de desonerações tributárias, a queda dos juros e a injeção de recursos do Tesouro Nacional no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O modelo de crescimento inaugurado em 2004, então, chegou ao limite dez anos depois.


O governo precisa dinamizar os investimentos em infraestrutura, em moradia e saneamento básico. O déficit das contas externas é elevado e uma forma de corrigir seria agregando valor aos investimentos no País, atraindo o setor privado nacional e internacional. De outra forma, o déficit será corrigido pelo mercado, que forçará uma desvalorização ainda maior do real”, disse Borges. Ele fez referência ao rombo nas transações correntes, que chegou a 4,3% do PIB no ano passado, o mais alto indicador em 15 anos. Apenas parte desse déficit tem sido financiado com investimentos estrangeiros – cerca de US$ 25 bilhões, ou um terço do buraco, tem sido fechado com capital especulativo que vem do exterior.


Será que ao longo dos próximos anos assistiremos a esse rebalanceamento proposto por Borges?

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Em tempo: o exercício que fizemos aqui neste post, de comparar as taxas do PIB brasileiro num período tão longo (de 1902 a 2014), é apenas isso: um exercício. É claro que um avanço do PIB de, digamos, 8%, no início do século XX é muito menos representativo do que o salto de 7,6% que tivemos no PIB de 2010. São realidades diferentes. Mas os números estão aí, podem ser acessados no IBGE e no Ipea Data, e para título de exercício de comparação, funcionam.

 

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