“Um duro ajuste fiscal é inevitável para o Brasil”, diz Martin Wolf
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“Um duro ajuste fiscal é inevitável para o Brasil”, diz Martin Wolf

Confira a íntegra da entrevista concedida pelo economista britânico Martin Wolf ao blog:

João Villaverde

19 Outubro 2015 | 08h04

Considerado um dos economistas mais influentes do mundo, o britânico Martin Wolf não está otimista com os rumos da economia brasileira. Para ele, um “duro” ajuste fiscal é inevitável – a única forma de fazer cair a taxa de juros (que é uma das mais altas do mundo). Com juros mais baixos, os investimentos poderão sair do papel e, assim, o crescimento será retomado.

Na entrevista concedida a este blog na última quinta-feira por telefone e (com os principais trechos publicados ontem no Estadão), Wolf também tratou das famigeradas “pedaladas fiscais” do governo Dilma Rousseff, da recuperação dos Estados Unidos e do mundo novo que tem na China em desaceleração sua cara mais visível. Há também discussões sobre a crise na União Europeia e o interessantíssimo caso do Japão, que está estagnado desde 1991 – quase 25 anos!

Abaixo, a entrevista na íntegra:

O economista Martin Wolf.

O economista Martin Wolf.

Estadão: Como o sr vê a economia global hoje?
Martin Wolf: O mundo pós-2008 está se redesenhando ainda, com os Estados Unidos relativamente fortes, mas com dificuldades crescentes em outros países, em especial os emergentes e, entre eles, naqueles que são essencialmente vendedores de commodities. Os emergentes cresceram muito logo depois da crise mundial principalmente devido à resposta dada pela China. Os chineses, diante da crise que explodiu em 2008, decidiram aplicar um pacote monumental de estímulo à sua economia, impulsionando o crédito e a infraestrutura. Isso permitiu que o país continuasse crescendo fortemente e importando commodities. Até 2012, o modelo funcionou. Mas então os chineses perceberam que não conseguiriam mais sustentar as taxas de crescimento do PIB acima de 10% como fizeram desde os anos 1980 e que era hora de alterar a forma como estavam crescendo. O país teve um dos maiores “booms” de crédito da história econômica e aquilo não poderia continuar. A desaceleração da China teve efeito dramático sobre os vendedores de commodities, sendo sentido principalmente na América Latina, na África e no Oriente Médio. Desde então, esses países tem vivido um choque negativo e ninguém sabe até onde isso vai dar.

Estadão: A reação para esse mundo novo a partir de 2012 não parece ter funcionado, correto?
Wolf: Muito dinheiro foi emprestado pelos países ricos aos emergentes, especialmente o setor privado e o setor financeiro, durante o período do boom. Com a mudança da China, alguns emergentes usaram a política fiscal para tentar equilibrar a economia, cortando impostos e aumentando gastos, mas isso aumentou a dívida pública daqueles que fizeram essa opção. Agora, eles tem que lidar com isso. Além disso, muitos países estão vivendo problemas relacionados à corrupção do setor público, o que é normal: sempre que há momentos de crescimento forte e riqueza há muita corrupção também, o que invariavelmente fica claro quando as coisas mudam de cenário.

Estadão: O senhor descreve os emergentes e, parece, em especial, estar falando do Brasil.
Wolf: Não sou especialista no Brasil, mas acompanho o país há mais de 50 anos como analista econômico. Acho que, em 2009, foi perfeitamente razoável a resposta dada pelo governo à crise que explodiu no mundo desenvolvido. Os emergentes, de modo geral, estavam mais fortes nas contas públicas e com grandes reservas. Foi uma decisão acertada a de fazer política anticíclica. Mas quando ficou claro que a China tinha se recuperado fortemente e as commodities continuavam crescendo, era preciso parar de estimular a economia. No caso dos países desenvolvidos, a história era outra: Estados Unidos e a Europa precisaram continuar com uma dose elevada de estímulos porque eles estavam no olho do furacão da crise econômica. Mas os emergentes deveriam ter parado. Como disse a você dois anos atrás (em entrevista publicada no ‘Estado’ em setembro de 2013): países com problemas estruturais não devem fazer forte expansão fiscal. O caso de países emergentes que sequer são “triplo A” ou mesmo “duplo A” é ainda mais claro: a forte e duradoura expansão fiscal traria problemas para os países. Entendo que houve um exagero no Brasil.

Estadão: E agora?
Wolf: Em muitos países, e este é o caso do Brasil, não há outra alternativa a um duro aperto fiscal. O novo ciclo das commodities, com preços baixos, é algo permanente. Alguns preços podem subir, eventualmente, mas de modo geral o ciclo está instalado. A renda geral dos países exportadores será mais baixa. Ponto. Entendendo isso, não há outra alternativa a não ser apertar os cintos, algo até que deveria ter sido feito antes. Esta me parece ser a vontade do ministro da Fazenda, a partir de encontros que tive com ele. Mas fato é: se há perdas permanentes para a economia, ajustes são necessários. O país está mais pobre do que pensavam que estaria. Mais desvalorização cambial deve ocorrer, o que ampliará as exportações. A política monetária deve ser usada como estabilizadora da economia, mas para isso, as contas públicas precisam melhorar. As taxas de juros são elevadas no Brasil e inibem o crescimento, mas antes de uma mudança neste lado é preciso melhorar o lado fiscal. Acredite, é inevitável.

Estadão: No campo fiscal, o governo Dilma Rousseff também praticou manobras contábeis para melhorar as contas públicas entre 2012 e 2014, notadamente as “pedaladas fiscais”. O governo alega que esses atrasos nos pagamentos do Tesouro aos bancos públicos foram decorrentes da baixa arrecadação e, também, que todos os governos fazem isso. O que o sr acha?
Wolf: Sei que práticas semelhantes foram feitas em países que passaram por dificuldades extremas, como a Grécia e a Itália, em anos recentes, com atrasos nos pagamentos aos fornecedores do Estado. Não conheço prática semelhante em países como os Estados Unidos e outros da Europa, ao menos no campo federal. Entendo que países bem administrados não precisam recorrer a esse tipo de manobra. Mas há um problema inevitável que surge com manobras como esses atrasos.

Estadão: Qual?
Wolf: Este processo de atrasar pagamentos e transferências obrigatórias produz uma dívida nova do setor público. O governo pode não pagar no presente, mas terá que pagar no futuro, correto? Então, o governo terá que, no futuro, aumentar impostos ou cortar de outras áreas para fazer esses pagamentos que ficaram atrasados. Essa dívida, também, mostra que as contas públicas de países que recorrem a essas manobras não são tão transparentes. Qual é a dívida real de um país? Tudo aquilo que o setor público deve e, em algum momento, pagará. Atrasar no presente gera um problema para o futuro.

Estadão: O governo alega que tem corrigido boa parte dessas “pedaladas”, embora ainda existem muitos atrasos aos bancos públicos.
Wolf: Esses atrasos acontecem em países em crise, mas realmente não deveriam. Esse tipo de prática não pode ser legitimada. É apenas uma forma de um governo evitar um confronto com a realidade. Mas não é possível fazer isso por muito tempo. Uma hora o governo terá que pagar, não é? E se não puder aumentar impostos ou cortar outras despesas para arcar com essa dívida nova? O governo vai dar um calote? Esse comportamento fiscal não pode ser justificado. Aqui não se trata de uma posição de esquerda ou de direita. Todos devem pensar que o governo, qualquer governo, tem uma obrigação moral de ter contas públicas verdadeiras.

Estadão: O Brasil perdeu o grau de investimento junto a Standard & Poor’s e também foi rebaixado pela Fitch, estando no limite deste selo com essa agência e com a Moody’s. Como o sr vê o cenário brasileiro daqui para frente?
Wolf: O crescimento potencial brasileiro deve estar na faixa de 3% a 3,5% ao ano, talvez um pouco menos ou um pouco mais. Refiro-me em perspectiva histórica. É claro que agora está muito mais baixo, mas, de modo geral, o crescimento brasileiro deve oscilar em 3,5%. Se quiserem crescer mais do que isso sem gerar problemas é preciso mudar coisas muito importantes na economia brasileira. Os impostos são muito altos para um país como o Brasil, o Estado é grande demais e ainda há muito o que fazer na infraestrutura. O gasto enorme que o governo faz todos os anos não parece produzir crescimento. Como é possível ter um boom de investimentos no País se a taxa de poupança da economia é baixa e os juros são altos? Esses problemas tem que ser endereçados. O Brasil é muito cíclico.

Estadão: Como assim?
Wolf: Ao longo da história, o Brasil vive muitos “booms”, períodos de crescimento acelerado, e muitas explosões de bolha. O País está sempre vivendo uma fase muito boa ou uma fase muito ruim, como parece ser agora. O Brasil tem um governo cheio de problemas, com uma série de programas que não parecem funcionar e um orçamento amarrado, praticamente impossível de ser administrado. Aumentar impostos no Brasil é difícil porque afeta profundamente a taxa de crescimento da economia. As taxas de juros são muito altas e inibem os investimento. Estou preocupado com as finanças públicas de países emergentes e o Brasil é um deles, isso realmente precisa ser resolvido. Mas tenho dúvidas quanto a melhora do problemas estruturais por conta do relacionamento do governo com o Congresso. Quando o Brasil voltar a crescer, porque isso vai acontecer de um jeito ou de outro, nada é para sempre, a sociedade precisará discutir essas questões maiores.

Estadão: Os Estados Unidos, centro da crise de 2008, parecem em recuperação estável, prestes a iniciar a primeira alta de juros em quase 10 anos. Como o sr vê este país?
Wolf: Embora estejam melhores, os Estados Unidos ainda tem crescimento fraco. Honestamente, eu não sei como os mercados vão reagir quando o Fed enfim voltar a elevar os juros. Algumas pessoas dirão que ainda estará cedo e outras dirão que foi feito tardiamente. O mercado já se antecipou a esse movimento, mas ainda podemos ter grandes surpresas de reação. O impacto pode ser muito maior do que imaginamos, ainda que o Fed apenas estará fazendo algo que todo mundo já sabe que ele vai fazer em algum momento próximo. Se esse aumento for lido como início de um período de aperto duro nas taxas futuras, os mercados podem ficar pessimistas e o mundo todo reagirá de forma ruim. No entanto, se o mesmo movimento for lido como um sinal do Fed de que a economia americana enfim está recuperada, com desemprego baixo, então investimentos poderão sair do papel e um clima de otimismo pode ser desencadeado. A verdade é essa: os mercados são sempre imprevisíveis. Suspeito que não será um evento tão grande assim, mas é impossível descartar possibilidade de impacto grande.

Estadão: A fase aguda da crise na Europa, que atingiu Itália, Portugal e Espanha em 2012 e a Grécia em 2015 pode ter sido superada, enfim?
Wolf: Este é um cenário realmente muito difícil de traçar. Na zona do euro e no Reino Unido vejo um crescimento potencial de 1% a 1,5% por ano, nada além disso. A imigração não é suficiente para mudar a estrutura do mercado de trabalho nos países europeus. Este é um grande problema, o envelhecimento da população. Há um problema social tremendo, com os refugiados do Oriente Médio buscando países europeus, mas mesmo a entrada de todos eles, cerca de um milhão de refugiados, não resolveria o problema da falta de mão de obra. Mas há fatores positivos, no entanto. A confiança de consumidores e empresários em dois países importantes, a Espanha e a Itália, tem melhorado. Os juros de longo prazo continuam muito baixos e as ações do Banco Central Europeu para estimular o crédito tem funcionado. Se tudo der certo, a União Europeia pode engatar, num futuro próximo, dois ou três anos consecutivos de crescimento médio na faixa de 2,5%, mas nada além disso.

Estadão: O que precisa melhorar para a Europa engatar, então, este ritmo, que seria bom para todo o mundo?
Wolf: Os países mais fortes na região precisam desenvolver formas de serem menos dependentes das exportações. A Alemanha é dramaticamente dependente de suas vendas ao exterior para sustentar seu crescimento. Se uma crise maior ocorrer no Oriente Médio, na África e na América Latina isso significaria uma nova rodada de empobrecimento para a Europa e pegaria em cheio os países exportadores. Isso pode fazer a confiança e os investimentos, que estão começando a dar sinais melhores, voltarem a recuar. Há questões políticas também muito sensíveis, que podem mudar totalmente esse cenário de relativo otimismo.

Estadão: Quais?
Wolf: A relação da União Europeia com a Rússia, que pode mudar a geopolítica mundial. Há o desastre no Oriente Médio, já deflagrado, mas que pode se tornar ainda pior, com consequências para todo mundo, especialmente para os vizinhos. Acredito que a Grécia não vá explodir novamente, embora isso ainda não possa ser totalmente descartado. Ainda não sabemos o que ocorrerá nas eleições da Espanha, o que também tem potencial de alterar o quadro europeu. A economia e a situação política na Europa está volátil ainda.

Estadão: E o caso japonês? O país foi o motor mundial entre 1960 e 1990, mas continua estagnado e tem a maior dívida pública do mundo. Ele pode voltar a crescer e influenciar a economia mundial?
Wolf: O Japão é realmente um caso interessantíssimo. Eles tem dois problemas: um que não pode ser resolvido facilmente e outro que é relativamente mais simples de ser solucionado, mas ambos estão conectados. O problema complexo é demográfico: a população japonesa está diminuindo, a força de trabalho está caindo e o Japão só pode resolver isso com uma imigração gigantesca de trabalhadores jovens de outros países. Mas eles não parecem muito propensos a isso. A produtividade geral do país não foi ruim nos últimos dez anos. O Japão continua sendo um país muito inovador, mas o crescimento da economia está estagnado há quase 25 anos porque a força de trabalho não para de cair.

Estadão: E qual é o problema mais simples?
Wolf: Há no Japão o que chamo de “buraco negro da demanda”. Numa economia que cresce 0,5% ao ano há décadas não há muito estímulo para se investir, correto? Pois é o que acontece: as empresas japonesas investem cada vez menos, mas, curiosamente, os lucros só tem aumentado. Como isso é possível? O setor privado japonês não tem gastado seu dinheiro nem com investimentos e nem com a distribuição de dividendos aos acionistas, então os lucros aumentam. O dinheiro então vai para a dívida do governo, que continua emitindo títulos fortemente, na esperança de estimular a economia, produzindo inflação. Então a dívida soberana do Japão não para de aumentar porque ela é o outro lado da moeda dos lucros das empresas. Um buraco negro mesmo. Uma moeda mais desvalorizada, que estimulasse mais as exportações, poderia render estímulos a novos investimentos e não ao entesouramento do lucro, mas a saída mesmo seria com aumento da força de trabalho, o que pressionaria a demanda interna e os investimentos.

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Para entender mais as “pedaladas fiscais”, convido o leitor do blog a conhecer o especial multimídia (textos, fotos, animações e linha do tempo) que fizemos no Estadão. Na seção “Cronologia” há nada menos do que 147 reportagens (!) entre o momento embrionário, em dezembro de 2013, e agora, outubro de 2015.

Confira aqui o especial: As Pedaladas Fiscais do governo Dilma