Alta do juro contribui para imagem de autonomia do BC

Josué Leonel

29 de abril de 2010 | 11h21

Confirmando as expectativas do mercado, o Banco Central deu início a mais um ciclo de alta dos juros. Com isso, o aperto monetário passa a ser uma das marcas do último dos oito anos de mandato do presidente Lula, da mesma forma como a elevação da Selic também foi um dos pontos de destaque do início de sua gestão.
 
A Selic subiu de 25% para 25,5% em janeiro de 2003 e, em fevereiro, atingiu 26,5%, maior taxa nominal dos dois mandatos do presidente. Pela pesquisa Focus divulgada na última segunda-feira, o processo de alta da Selic neste ano iria até dezembro. Com isso, o último ano do governo Lula terminaria com taxa básica de juros em 11,75%. Como a alta anunciada ontem, de 0,75 pp, ficou maior do que a prevista na Focus, de 0,50 pp, é provável que as próximas rodadas da pesquisa Focus tragam ajustes nas previsões para as demais decisões do Copom ao longo do ano.
 
Pode acontecer de o mercado passar a contar com um aperto monetário mais agressivo, mas também mais curto, permitindo que a alta dos juros não chegue ao final do ano. Mas o mercado também pode ampliar a previsão sobre a magnitude total da alta, sem abreviar o prazo previsto para o processo de aperto monetário.
Seja qual for a opção a ser escolhida pelo Banco Central, a alta dos juros, a não ser que haja alguma mudança inesperada de cenário, deve ser uma das marcas deste ano.
 
Apesar de todo burburinho que acompanhou a decisão do Copom de março e as malfadadas negociações para a candidatura política do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a confirmação dada ontem de que foi iniciado um processo de aperto monetário reforça a percepção de autonomia do Banco Central. Embora parte do mercado tenha se decepcionado com a estabilidade da Selic na reunião de março, a alta de 0,75 pp agora, maior do que esperava parte importante dos economistas, ajuda a dirimir eventuais dúvidas sobre a primazia do rigor técnico nas decisões do Copom.
 
Do ponto de vista da conquista de credibilidade da área monetária, a alta dos juros agora em 2010 não se compara à puxada da taxa do início de 2003. Naquela época, havia uma profunda incerteza sobre a política econômica do presidente Lula, que havia acabado de assumir. A alta da Selic, para até 26,5%, funcionou com uma espécie de cartão de visitas, para convencer o mercado de que o BC podia continuar rigoroso mesmo em um governo do PT.
 
Passados quase oito anos, esta credibilidade do BC foi reforçada em outros apertos monetários, como os de 2004 e 2008. O ajuste deste último ano do governo Lula, porém, também pode agregar alguns tijolos à construção da credibilidade da autonomia do BC. Afinal, como em 2011 o País estará sob nova direção, as incertezas sobre a política econômica certamente serão muito menores se o novo presidente herdar um País com expectativas inflacionárias estabilizadas.

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