Alta do minério é boa notícia para quase tudo, menos para inflação

Josué Leonel

30 de março de 2010 | 10h54

O reajuste do minério de ferro negociado pela Vale e outras mineradoras com seus clientes vai chegando à sua fase de definição com acordos preliminares apontando aumentos na casa de 90%. Trata-se de um aumento inferior aos 114% que chegaram a ser especulados nos últimos dias, mas ainda assim é muito mais do
que os 20% a 40% esperados quando as negociações começaram a se desenvolver.
 
As siderúrgicas japonesas foram as primeiras a fechar pré-acordos. Ontem, a Nippon Steel e a Vale estabeleceram acordo provisório para aumento de aproximadamente 90%, segundo o jornal japonês The Nikkei. Hoje, também a siderúrgica japonesa Sumitomo concordou em pagar o mesmo reajuste, de 90%. A sul-coreana Posco teria se comprometido com aumento similar. A Vale teria ainda conseguido por fim ao sistema de reajuste anual do minério, impondo sua proposta de reajustes trimestrais.
 
Assim que a Vale e demais mineradoras fecharem os acordos com o restante da indústria siderúrgica, inclusive a chinesa, o mercado deverá atualizar os cálculos sobre impacto do reajuste sobre ativos e indicadores econômicos. No caso da Bolsa, o efeito mais imediato é sobre as ações das mineradoras, que já têm subido nos últimos pregões, antecipando-se ao reajuste. Vale PNA, por exemplo, já subiu 17% neste ano. Haverá ainda espaço adicional de alta? Se for levada em conta a evolução das expectativas, sim. Afinal, até poucas semanas atrás os analistas ainda falavam de aumentos de 40% a 60%.
 
A balança comercial também deve ser favorecida. Analistas estimam uma ampliação de US$ 10 bilhões ou mais do superávit comercial neste ano, dependendo do reajuste que vier a ser confirmado para o conjunto dos clientes
do minério brasileiro. Os investimentos em mineração no Brasil também podem ser beneficiados pelo novo patamar dos preços. E os chineses, maiores compradores do produto, também podem aparecer no mapa do investimento direto do setor.
 
Em pelo menos um aspecto, porém, a alta espetacular do minério deve ter uma consequência desconfortável: a inflação. Segundo apuraram as jornalistas Mônica Ciarelli e Chiara Quintão, do AE Empresas e Setores, as siderúrgicas brasileiras devem iniciar o reajuste do aço já em abril, com aumentos a partir de 10%. Este
encarecimento do aço tende a ser repassado, ainda que não totalmente, a bens de consumo, como automóveis e eletrodomésticos, e bens de capital.
 
Como o aumento do minério poderá favorecer as exportações e os investimentos, seu impacto no fluxo cambial tende a ser positivo, o que poderia ajudar a valorizar o real. Com isso, o efeito inflacionário do aumento do aço seria parcialmente compensando pelo câmbio valorizado. No entanto, considera-se que o Banco Central e o Tesouro atuarão na compra para enxugar eventuais entradas mais generosas de moeda estrangeira. Assim, não se deve apostar em maiores apreciações do real. Restaria, portanto, à política monetária a missão de sufocar eventuais pressões inflacionárias.

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