BC deve contar com quadro mais claro antes do Copom de março

Josué Leonel

23 de fevereiro de 2010 | 11h55

O mercado começou a colocar mais fichas na possibilidade de o início do aperto monetário ser antecipado para março. A contínua elevação das projeções para o IPCA e para o PIB neste ano, combinada à inflação corrente mais pressionada neste começo de 2010, é a principal justificativa para esta aposta na alta dos juros. Mas ainda não há uma posição de consenso sobre a necessidade de o aperto monetário ser antecipado. Na pesquisa Focus divulgada ontem, por exemplo, a mediana das projeções ainda apontava abril como o mês mais provável para o início do aperto.
 
Até o Copom de março, que encerra a reunião de dois dias no dia 17 do próximo mês, o Banco Central deverá contar com um quadro bem mais claro do que o atual sobre a evolução do cenário econômico. Em relação aos dados de inflação, por
exemplo, o BC conhecerá não apenas todos os índices fechados de fevereiro, como também as primeiras prévias do IPC-Fipe, IPC-S e IGP-M de março. Será possível, assim, ter uma ideia mais clara sobre o ponto que ainda divide os analistas: se a alta da inflação neste começo de ano deve-se apenas a fatores atípicos e sazonais ou se há uma pressão mais forte e generalizada em curso.
 
Se o problema da inflação for passageiro, os índices terão de começar a perder fôlego entre o final de fevereiro e o começo de março. Se isto não se confirmar e a inflação permanecer em um patamar acima de 0,5% ao mês, incompatível com uma meta anual de 4,5%, aumentarão as chances de os juros terem de subir.
 
O cenário também deve ficar mais definido até meados do mês que vem em relação à atividade. Tanto a produção industrial quanto as vendas ao varejo de janeiro serão conhecidas antes do próximo Copom, assim como novos dados de nível de
utilização da capacidade instalada. A balança comercial fechada de fevereiro e os primeiros dados semanais de março também terão sido divulgados, permitindo ao mercado saber se está se mantendo o atual ritmo de crescimento das importações, mais forte do que o das exportações em razão do aquecimento da atividade doméstica. Também o resultado fechado do PIB de 2009 será divulgado antes do próximo encontro de política monetária do BC.
 
Até março, também é possível que o cenário se torne um pouco menos incerto em termos do crescimento global. Na Europa, sobretudo, prevalecem ainda muitas dúvidas sobre a capacidade dos países do continente voltarem ao crescimento neste ano. E a crise na Grécia, ao expor o problema geral de endividamento nos países europeus, criou uma incerteza adicional sobre a atividade econômica. Nos EUA, os indicadores têm sido um pouco melhores, mas ainda assim o quadro não é totalmente claro. Na China, as apostas em um crescimento muito forte são bem mais consistentes, mas são temperadas pela expectativa de novas medidas restritivas por parte do governo, inclusive uma possível alta dos juros.
 
O cenário externo também joga um papel importante para a política monetária doméstica. No final de 2008, por exemplo, o BC vinha subindo os juros e foi flagrado pelo abrupto agravamento da crise global, que levou à interrupção do aperto monetário e, logo em seguida, à retomada da queda. Neste ano, a conjugação de um cenário de crescimento tanto doméstico quanto externo tenderia a desembocar em um movimento contrário ao realizado pelo BC mais de um ano atrás, de elevação da taxa básica.

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