BC vai passar recibo de que ficou atrás da curva?

Josué Leonel

26 de março de 2010 | 11h38

A ata do Copom parece ter mais confundido do que esclarecido as dúvidas deixadas pelo comunicado da decisão da semana passada, que revelou um placar dividido entre cinco diretores em favor da estabilidade e três em favor da alta de 0,50 ponto porcentual. Não faltaram analistas a apontar a contradição do documento divulgado ontem, que mostrou consenso no diagnóstico da necessidade de ajuste dos juros, mas apontou que a maioria dos membros do Copom preferiu esperar a próxima reunião para elevar a Selic.
 
Não foi a primeira vez em que houve um Copom dividido e no qual a ata teve de usar malabarismos para explicar posições divergentes de diretores. Divergências são naturais. O problema, na ata divulgada ontem, é que o tom pareceu ser mais de confusão do que de divergência. Um exemplo foi o que apareceu no parágrafo 27, quando o Comitê afirma que a maioria “entendeu ser mais prudente aguardar a evolução do cenário macroeconômico até a próxima reunião do Comitê, para então dar início ao ajuste da taxa básica”.
 
Embora o trecho fale em prudência, fica a pergunta: que tipo de prudência? Afinal, nem mesmo esta parte do texto deixa qualquer dúvida sobre a necessidade de alta dos juros. Neste parágrafo 27, a tal “maioria” do Copom (certamente os cinco que votaram pela estabilidade) diz que é mais prudente esperar o próximo Copom “para então dar início ao ajuste da taxa básica”. Ou seja, mesmo esta maioria admite que o ajuste está decidido. Eles não disseram que esperariam até o próximo Copom para então avaliar o que fazer, e sim “para então dar início ao ajuste da taxa básica”.
 
Normalmente, quando se fala em prudência de um Banco Central, se está referindo à ação firme de combate à inflação. É claro que esta ação firme não precisa ser excessiva nem mesmo se antecipar aos fatos. Se um comitê de política monetária ainda tem dúvidas sobre um processo inflacionário, pode tranquilamente esperar e chamar isso de prudência. No entanto, se a necessidade de “ajuste” do juro é clara – como ficou explícito na ata – prudente mesmo seria subir a taxa. Até porque, uma alta iniciada antecipadamente poderia ser mais gradual, tornando desnecessárias elevações posteriores mais fortes.
 
Por mais que esta ata tenha sido ambígua, parece inegável que a administração atual do Banco Central (cuja formação não se sabe se permanecerá após abril) conta com uma gordura acumulada de credibilidade, suficiente para sufocar qualquer ruído no mercado. Já na semana que vem, os analistas estarão debruçados sobre os indicadores de inflação e atividade em busca de evidências que apontem para uma alta de 0,50 pp ou 0,75 pp da Selic em abril.
 
Em março, até mesmo uma elevação de 0,25 pp teria sido considerada uma ação coerente com esta ata divulgada ontem. Para o Copom de abril, uma alta de 0,50 pp poderá ser suficiente desde que as expectativas inflacionárias parem de piorar. Caso contrário, a Selic poderá ter de subir 0,75 pp ou mais. E, neste caso, o BC estará passando um recibo muito claro: o de que ficou atrás da curva ao não elevar o juro neste Copom passado.

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