Bric é a China e o resto

Josué Leonel

15 de abril de 2010 | 12h09

O acrônimo Bric, que reúne Brasil, Rússia, Índia e a China, criado pelo economista Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs, em 2001, é um sucesso. A reunião entre os representantes destas potências emergentes nesta semana no Brasil é mais uma evidência de que, apesar de todas as críticas feitas ao grupo nos últimos anos,
a denominação pegou.
 
O’Neill teve o mérito de ver, antes da maioria, a emergência de quatro grandes potências que, apesar de muito diferentes entre si, tinham também alguns pontos comuns importantes, sobretudo do ponto de vista de quem precisa traçar estratégias de investimento de longo prazo. Todos os integrantes do Bric, por exemplo, têm dimensões continentais, além de populações numerosas e com grande parte de suas necessidades de consumo ainda não atendidas.
 
Os quatro países emergentes têm um passado de economia fechada, tendo experimentado aberturas econômicas e privatizações entre os anos 80 e 90. Esta característica comum reforça a ideia de que os Bric são países imaturos, nos quais as instituições capitalistas ainda estão em processo de consolidação, mas também tem seu lado positivo: o de acentuar a natureza de mercado em desenvolvimento que é a marca destes países.
 
Embora o crescimento econômico seja um aspecto que une os Bric, as dimensões alcançadas pelos países do grupo revelam um contraste gritante entre a China, estrela mais reluzente entre as potências emergentes, e os demais integrantes. Em linhas gerais, os indicadores absolutos revelam que a China já trava uma disputa pela liderança da economia mundial, devendo tomar do Japão neste ano o posto de segundo maior PIB do planeta para então iniciar uma escalada ao topo do ranking, que deve ser alcançado na próxima década.
 
Brasil, Rússia e Índia também devem continuar escalando posições no ranking de potências mundiais, mas em outra escala. Para chegarem próximo ao topo do ranking mundial, precisam superar uma barreira de potências médias formada por Alemanha, França, Reino Unido e Itália. O PIB somado da China, de US$ 5 trilhões, supera hoje a soma dos três outros integrantes do Bric (Brasil, US$ 1,5 trilhão, Índia, US$ 1,2 trilhão, e Rússia, US$ 1,2 trilhão).
 
Este contraste de porte entre a China e seus parceiros aparece ainda mais claramente em outros indicadores. A produção de aço chinesa, por exemplo, é cerca de quatro vezes maior do que a soma da brasileira, indiana e russa. Em automóveis, os 13 milhões produzidos pela China no ano passado, que tornaram o país o maior produtor do mundo, também ficaram bem acima dos cerca de 7 milhões produzidos pela soma dos outros Bric.
 
E a distância entre a China e os outros tende a aumentar. No ano passado, a China se recuperou da crise com crescimento de 8,7%, ante 7,2% da Índia, uma leve recessão de 0,2% do Brasil e uma recessão aguda de 7,9% da Rússia. Neste ano, as previsões são de que a China vai continuar andando na frente de seus companheiros, com crescimento previsto de 9,6% em 2010, ante 8,2% da Índia, 5,6% do Brasil e 3,6% da Rússia.
 
Para qualquer um destes países, a tendência é de o crescimento este ano superar as previsões mais recentes. Para o Brasil, por exemplo, alguns analistas estimam crescimento de 6% a 6,5% (e começam a surgir apostas na casa dos 7%), apesar de a mediana da pesquisa Focus apontar 5,6%. Mas, em matéria de superar previsões, a China também não fica devendo a ninguém, como mostrou o PIB do primeiro trimestre, divulgado hoje e que atingiu +11,9%, acima dos +11,5% previstos pelos analistas.

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