Caso Goldman pode ampliar apoio a maior regulação nos EUA

Josué Leonel

19 de abril de 2010 | 12h03

A tensão provocada pela acusação de fraude feita contra o Goldman Sachs pela SEC, a CVM americana, amplia o debate sobre a necessidade de maior regulação em Wall Street. Coincidência ou não, a notícia foi divulgada na última sexta-feira, às vésperas da chegada ao Senado do projeto de reforma do setor financeiro, que enfrenta resistência dos bancos e da bancada dos republicanos.
 
O líder da maioria democrata, senador Harry Reid, disse que esperava trazer o projeto de reforma do setor financeiro para o Senado nesta semana, segundo informou a agência Dow Jones. A legislação prevê um aperto nas regras de proteção ao consumidor, dará ao Federal Reserve mais poder para supervisionar grandes bancos e permitirá ao governo dissolver empresas financeiras com problemas. O Comitê de Finanças do Senado ainda vai realizar nesta semana a primeira audiência sobre a proposta de tributar os maiores bancos dos EUA.
 
Os líderes partidários negociaram durante meses, mas até agora nenhum republicano mostrou publicamente vontade de apoiar a proposta, que necessitará de pelo menos um voto a favor dos republicanos, além dos 59 democratas, para evitar uma obstrução.
 
Resta saber, porém, se o escândalo envolvendo o Goldman não poderá demover pelo menos parte dos republicanos de sua oposição às mudanças. O senador John McCain, candidato a presidente derrotado por Barack Obama na última eleição, admitiu neste fim de semana que o apoio à reforma pode aumentar. “Quando nós
descobrimos que o Goldman estava atuando contra seus próprios investidores e, você sabe, fazendo jogo duplo, eu estou certo que nós vamos descobrir que eles não eram os únicos. As coisas têm de mudar na forma como eles fazem negócios”, afirmou o senador à Fox News.
 
É improvável, contudo, que os opositores da reforma, especialmente os grandes banqueiros, baixem a guarda. O principal executivo do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, advertiu para os riscos de uma regulação excessiva dos bancos. “Quando os lucros caem agudamente o capital se move para outros lugares, onde há mais dinheiro para ganhar, por exemplo, mercados não regulamentados”, disse Dimon a uma publicação alemã, segundo relato do site Cnnmoney.com.
 
“A questão é: o que os reguladores querem?”, questionou Dimon. O executivo parece explorar um calcanhar de Aquiles importante da tese da regulação: a falta de consenso entre seus próprios defensores. Alguns especialistas mais radicais chegam a defender regras muito duras, como a limitação do tamanho dos bancos a um porcentual (baixo) dos depósitos e ativos do sistema, o que eliminaria o problema de existirem bancos “grandes demais para quebrar”. Mas as propostas do Partido Democrata não vão tão longe. E os republicanos rejeitam qualquer
alteração, defendendo a manutenção da fraca regulação atual.
 
Há ainda o problema da falta de evidências empíricas de que regras mais estritas realmente levam a um desempenho mais eficiente e seguro do sistema financeiro. O desempenho da economia global nesta crise não trouxe qualquer evidência neste sentido. Pelo contrário, a Europa, sempre mais regulada que os EUA, sofreu um
impacto ainda mais duro da crise do que a economia americana. Mesmo no Brasil, onde o governo e o Banco Central se gabam de manter o mercado em rédea mais curta, não foi impossível evitar que as empresas exportadoras se excedessem ao assumir posições de risco em derivativos cambiais antes da crise do final de 2008.
 
Nos EUA, o debate sobre a regulação também é temperado pelas divisões políticas. Para a oposição republicana, derrotar a reforma financeira também seria uma forma de derrotar Barack Obama e os democratas. E o aspecto ideológico também se sobressai. Para muitos republicanos, os bancos devem ser controlados plenamente pelo setor privado, em qualquer momento, com ou sem crise.
 
Até mesmo quando os republicanos parecem estar sendo contra os bancos, eles podem estar a favor, segundo o economista Paul Krukgman. Krugman, que defende a reforma, observa que alguns republicanos têm sido contra a reforma alegando que defendem que o governo não salve os bancos com dinheiro do contribuinte, e que os deixe quebrar quando tiverem problemas. A questão, argumenta Krugman, é que esta é uma tese radical que jamais será aceita, pois os democratas sabem que levaria a um desastre financeiro sem precedentes. No entanto, esta proposta cumpre o papel político de passar a impressão de que os republicanos estão contra os bancos, quando, segundo o economista, eles estariam utilizando uma ideia radical e inviável apenas para justificar sua posição contra as propostas mais moderadas do governo.
 
O radicalismo dos republicanos, no final, visaria assegurar que seja mantida a baixa regulação atual, que funciona mais ou menos assim: os bancos se arriscam à vontade no mercado, elevando seus lucros e os bônus de seus executivos milionários no período de vacas gordas e, quando chega o tempo das vacas magras, o governo entra com seu dinheiro para salvar o sistema e fazer com que tudo volte a ser como antes. Se as investigações contra o Goldman forem adiante e as acusações forem comprovadas, porém, a sustentação desta posição contrarreformista poderá se tornar bem mais difícil.

Tudo o que sabemos sobre:

Goldman; Grécia

Tendências: