China pode ser fato novo na evolução das contas externas do Brasil

Josué Leonel

23 de março de 2010 | 11h52

O déficit em conta corrente de US$ 3,2 bilhões em fevereiro não causou preocupação ao mercado. Parece ter ficado para trás o tempo em que o Brasil perdia o sono com este tipo de déficit. Isso não quer dizer que a preocupação
seja zero. Um ponto de apreensão, por exemplo, é a rápida evolução do déficit, que saiu do acumulado de US$ 24 bilhões em 2009 e pode dobrar em 2010, para US$ 49 bilhões, segundo previsões do Banco Central, ou US$ 50 bilhões, de acordo com as projeções do mercado.
 
No mercado, tem gente mais pessimista que teme que o déficit chegue a até US$ 100 bilhões em 2011. Na pesquisa Focus, a mediana das estimativas do mercado é mais moderada para o próximo ano, mas ainda assim bem elevada, de US$ 60 bilhões. Outro ponto de apreensão é o fato de que o déficit não deve ser financiado totalmente por investimento direto, que vem para atividades produtivas. O BC prevê US$ 40 bilhões para este ano, enquanto o mercado espera um pouco menos, US$ 38 bilhões.
 
Ou seja, de qualquer forma, o Brasil vai precisar de cerca de US$ 10 bilhões em aplicações em bolsa e renda fixa, além de captações de empresas, para complementar o IED e fechar as contas neste ano. Obviamente que, se faltar algum dólar, as reservas de mais de US$ 240 bilhões acumuladas pelo Banco Central darão conta de absorver qualquer pressão. É possível estimar, contudo, que a convivência com uma conta corrente negativa deixará o mercado um pouco mais exposto a pressões no caso de turbulência externas que tornem o capital mais arisco.
 
Se há alguns fatores de apreensão, porém, o desenvolvimento das contas externas brasileiras também apresenta algumas variáveis que tornam reduzidas as chances de o País enfrentar, pelo menos no médio prazo, uma crise cambial como as do
passado. Primeiro, pela própria ordem de grandeza do déficit. No final dos anos 70, o Brasil entrou em crise com um déficit externo que chegou a 7% do PIB. Nos anos 90, quando trabalhávamos com o regime de bandas cambiais, o déficit girava
em torno de 5% do PIB.
 
Hoje, o déficit em valores absolutos é recorde. Mas, como o PIB encorpou muito, a relação entre o déficit e o PIB fechou 2009 em 1,6% e, mesmo com o crescimento esperado para este e para o próximo ano, ainda deve ficar ao redor de 3% a  4%. Não há um consenso sobre até que ponto é seguro financiar um déficit em conta corrente. Entende-se, contudo, que até estes níveis projetados para os próximos anos o déficit ainda será seguro, especialmente se o País não abusar do uso da
poupança externa para financiar consumo.
 
O fato de o crescimento do PIB estar se acelerando tende a atrair mais ivestimentos estrangeiros, que podem ajudar a financiar o déficit. Neste caso, chamou atenção o Banco Central ter informado, ao divulgar ontem o balanço das contas externas de fevereiro, que a China apareceu na estatística IED no Brasil pela primeira vez. Segundo os dados do BC, os investimentos chineses no Brasil somaram US$ 354 milhões e foram direcionados para a indústria extrativa mineral.
 
O investimento chinês ainda é pequeno perto do total recebido. Contudo, o país acaba sendo vital para as contas externas brasileiras por outras vias. Afinal, é a demanda chinesa que ajuda a manter em níveis elevados a demanda por
commodities, como as agrícolas, o petróleo e o minério de ferro. No caso do minério, um reajuste na casa de dois dígitos, como vem noticiando a imprensa ultimamente, poderia ajudar já neste ano a melhorar o resultado da balança comercial, além de, potencialmente, atrair mais investimentos em mineração para o Brasil.
 
Quanto ao petróleo, a demanda da China, ao sustentar o preço do barril em níveis altos, ajudará a viabilizar investimentos no pré-sal, o que poderá contribuir para o financiamento das contas correntes em um prazo mais longo. Isso sem contar a
possibilidade de empresas chinesas de petróleo entrarem como investidoras nos futuros campos em águas profundas. Ou seja, tanto como investidor direto (como apareceu nos números do BC), quanto como propulsor dos preços das
commodities, a China poderá ser a novidade positiva neste novo ciclo de convivência do Brasil com o déficit em transações correntes.

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