Commodities em alta deixam Brasil autoconfiante

Josué Leonel

30 de março de 2010 | 17h59

O longo movimento de alta das commodities aumenta a autoconfiança do Brasil no cenário mundial. Um bom exemplo deste sentimento altaneiro veio da resposta do presidente da Vale, Roger Agnelli, à notícia de que a Federação Europeia das Siderúrgicas (Eurofer) vai enviar à Comunidade Europeia carta solicitando investigação sobre supostas distorções de preços do minério de ferro. Agnelli afirmou nesta segunda-feira que a Eurofer “esqueceu que o período de colonização, em que os países subdesenvolvidos produziam para sustentar o bem-estar deles (da Europa), acabou”.
 
O presidente da maior mineradora brasileira, hoje um player de primeira grandeza no mercado mundial, falou grosso com os europeus. “O grande mercado está na China, que consome hoje 60% do mercado transoceânico. É para lá que temos que olhar”, disse Agnelli, que está às vésperas de fechar um acordo de aumento espetacular para o principal produto de sua empresa. O executivo provavelmente sente-se confortável em uma nova situação internacional, em que o peso relativo das potências tradicionais diminui gradualmente e cresce a relevância das potências emergentes como China e Brasil.
 
A confiança nas condições proporcionadas pelo ciclo de alta das commodities também se refletiu em declarações do ex-ministro Delfim Netto, durante palestra hoje em São Paulo. Delfim disse que o País tem “uma autobahn de oportunidades nos próximos 25 anos” diante de perspectivas representadas pelo petróleo do pré-sal e pelo agronegócio. Tido como um conselheiro informal do presidente Lula, Delfim reconheceu que esta boa fase brasileira foi proporcionada pelo cenário externo. “A partir de 2003, tivemos um bônus recebido do mundo, com o aumento do preço das commodities.”
 
De fato, os últimos anos parecem alterar dramaticamente o jogo de forças na economia mundial. Até os anos 90 se dizia que o comércio mundial era injusto, pois os países emergentes vendiam commodities baratas e compravam produtos industrializados caros dos países ricos. Agora, os emergentes com recursos naturais abundantes vendem caro suas matérias-primas e petróleo à China, ao passo que os países ricos sofrem concorrência brutal dos mesmos chineses na venda de produtos manufaturados.
 
A euforia das commodities, contudo, não pode ser vista como novidade absoluta, e nem como passaporte infalível para a felicidade da nação. Pelo contrário. A história econômica brasileira, na verdade, é dividida em grandes ciclos de exportação de commodities: pau-brasil, açúcar, ouro, borracha e café. Todos estes ciclos passaram um dia, e os problemas brasileiros continuaram. Desde que Pedro Álvares Cabral aportou aqui, o dinheiro dos recursos naturais nunca faltou ao Brasil. O que faltou foi usar bem este dinheiro.

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