Copom optará por aperto gradual ou agressivo?

Josué Leonel

27 de abril de 2010 | 11h10

Em pelo menos um aspecto, o Copom de abril, cuja reunião de dois dias começa hoje, está se mostrando bem diferente do encontro de março. No mês passado, os dirigentes do Banco Central não deram declarações que pudessem sinalizar uma tendência de mudança para a política monetária. Este silêncio chegou a ser apontado por muitos analistas como argumento para defender a estabilidade da Selic.
 
Agora em abril, contudo, a reunião do Copom está sendo antecipada por um ambiente mais ruidoso. A tensão já seria maior em face da apostas unânime em alta da Selic, mas com divisão renhida do mercado entre as previsões de elevação de 0,50 ponto porcentual e 0,75 pp. No entanto, o clima ficou mais carregado nos últimos dias, após uma série de declarações atribuídas ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, às vésperas do início do Copom.
 
Meirelles já teria avisado ao presidente Lula que o juro terá de subir mais agressivamente, segundo informa o jornal Folha de S.Paulo. O presidente do BC teria dito que será preciso dar uma “paulada” nos juros para enfrentar a inflação, de acordo com fonte ouvida pelo jornal. A expectativa no governo seria de uma alta de até 0,75 pp. Meirelles teria convencido Lula – que antes desta conversa contava com aumento de apenas 0,25 pp – que fazer altas mais fortes em menos reuniões permitiria um efeito mais rápido da política monetária e menor desgaste eleitoral.
 
A suposta conversa de Meirelles antecipando a alta dos juros a Lula vem após uma série de outras declarações dadas nos últimos dias pelo presidente do BC às agências de notícias. Meirelles disse aos players que “não tentem ler nas entrelinhas do que o Banco Central disse nas atas ou no relatório de inflação (e tentem encontrar) um sinal dado por um membro ou por outro”.
 
Paradoxalmente, o mercado entendeu a declaração de Meirelles exatamente como um sinal, o de que a alta da Selic poderá ser mais forte do que a maioria dos analistas esperava inicialmente. Afinal, após a leitura da ata do último Copom e do relatório de inflação, a maioria dos analistas havia consolidado a ideia de uma alta moderada, de 0,50 pp, no Copom de abril.
 
Declarações atribuídas a Meirelles por outras agências internacionais revelaram um sentido claramente conservador. Segundo relato da Reuters, Meirelles disse, no sábado, em Washington, que o BC será “absolutamente rigoroso” e que “aqueles que pensam que o Banco Central será leniente com a inflação estão enganados”. Na Bloomberg, Meirelles teria tido que o BC “está pronto para tomar as medidas necessárias”.
 
Obviamente, as declarações de Meirelles não servem de prova cabal de que estão certas as apostas de uma alta mais agressiva, de 0,75 pp, que ganharam força ontem no mercado. Até porque, mesmo que o BC queria realmente fazer uma política monetária mais forte, ainda restaria a opção de realizar uma quantidade maior de elevações menores da Selic, de 0,50 pp, resultando em um aperto monetário menos agressivo no curto prazo, porém mais longo.
 
Uma possível vantagem do gradualismo seria facilitar uma reversão de política na eventualidade de uma piora abrupta do quadro externo, que provoque uma recidiva da crise. Mas esta política também teria seus contratempos. Um deles é que, assim como a alta das taxas seria mais moderada, seus efeitos também seriam
graduais e demorados. Com isso, demoraria mais o momento em que o BC poderia interromper o aperto e mais ainda o ponto em que as taxas voltariam a cair. Uma política mais agressiva desde já anteciparia todo o processo.

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