Decisão do Fed causa volatilidade, mas pode ter um lado positivo

Josué Leonel

19 de fevereiro de 2010 | 10h49

O anúncio feito pelo Fed de aumento da taxa do redesconto para 0,75% pegou os investidores de surpresa. A volatilidade observada nos mercados nesta sexta-feira, porém, é uma reação mais do que esperada. Afinal, qualquer medida de aperto adotada pelo banco central do país mais rico do mundo, por mais comedida que seja, tende a provocar rearranjos nas carteiras de investimento, com mais dinheiro fluindo para a renda fixa e, comparativamente, menos para ativos de risco.
 
Embora o próprio Fed tenha ponderado que a medida não deve ser entendida como sinal de que os juros básicos vão subir, esta interpretação tende evoluir no mercado, ainda que não se torne majoritária. Até porque, antes mesmo da decisão
anunciada nesta quinta-feira pelo BC americano, analistas já contavam com um aperto monetário ainda este ano.
 
Não passa despercebida a coincidência do aumento da taxa de redesconto com a divulgação da inflação ao produtor de janeiro nos EUA, que veio bem salgada. O índice, divulgado nesta quinta-feira, subiu 1,4%, contra uma estimativa do mercado de 0,9% e mais de três vezes o resultado apurado em dezembro, de 0,4%.
 
A emergência da inflação neste começo do ano tem sido registrada em escala praticamente global. Indicadores mais altos já foram divulgados, entre outros países, nos EUA, China, Reino Unido e Brasil. Um dos motivos desta pressão inflacionária é a elevada liquidez proporcionada por tesouros e bancos centrais de 2008 a meados de 2009 para combater a recessão. Mais dinheiro em circulação, segundo a teoria monetarista, acaba virando inflação uma hora ou outra.
 
Mas a decisão do Fed também pode ser vista pelo lado positivo. Ela significa um passo, ainda tímido, em direção à volta da normalidade no sistema financeiro e na economia americana. O próprio comunicado do Fed fez menção a este avanço ao
afirmar que o aumento do juro do redesconto ocorreu “à luz da continuada melhora nas condições dos mercados financeiros”.
 
Parece inegável que, apesar do desconforto com a alta da inflação, também os indicadores de atividade vêm melhorando nos EUA desde o final de 2009. Houve algum temor de que estes sinais de avanço não se mantivessem neste começo de ano, mas os indicadores mais recentes, com uma ou outra exceção, vieram promissores. Se os indicadores continuarem mostrando retomada do crescimento, a futura alta dos juros americanos, inclusive dos básicos, será, na verdade, uma boa notícia. Ela representará o sintoma definitivo da superação da crise, da mesma forma como a queda das taxas para zero no final de 2008 foi o reflexo de uma crise aguda que não deixou saudades.
 
De qualquer forma, qualquer avaliação mais cautelosa ou positiva sobre a ação do Fed deve ser ponderada pela evidência de que a medida foi bastante pontual, causando impacto mais pela surpresa do que pela magnitude. O juro subiu, mas de apenas 0,50% para 0,75%. Antes da crise, este juro cobrado dos bancos em operações emergenciais de empréstimo de liquidez estava entre 5% e 6%. Ainda falta muito para se poder falar em mudança importante de cenário, ainda que a mudança na direção dos ventos tenha ficado mais clara.

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