Déficit e inflação reforçam dilema da saída crise

Josué Leonel

18 de fevereiro de 2010 | 12h06

Os últimos indicadores de atividade divulgados em vários países do mundo, sobretudo nos EUA, trouxeram a esperança de que a recuperação econômica poderá se firmar neste começo de ano. Estes indícios, porém, ainda estão por
ser confirmados por novos números. E, ainda que sejam confirmados, não devem eliminar a divisão entre analistas que defendem uma retirada mais rápida dos estímulos econômicos e aqueles que ainda não veem a situação suficientemente
positiva a ponto de permitir o retorno a políticas mais austeras.
 
Duas variáveis funcionam como complicadores que reforçam os dilemas sobre as estratégias dos governos para a saída da crise: o déficit público e a inflação. Embora os déficits próximos a 10% do PIB da Europa estejam no topo das manchetes, este é um problema que afeta também outros países ricos, como os EUA e o Japão. Nos EUA, o déficit no ano fiscal de 2010 já atinge US$ 430 bilhões até agora, 9% acima do registrado em mesmo período do ano passado.
 
Ao mesmo tempo, surgem sinais de aquecimento da inflação em vários países do mundo. Em um mundo macroeconômico ideal, o ajuste a este movimento não seria problemático. Os governos ampliaram os gastos no final de 2008 sabendo que isto agravaria o déficit. Contavam que o crescimento voltaria no médio prazo, fazendo a arrecadação crescer novamente. Com isso, o problema fiscal estaria resolvido naturalmente. Ao mesmo tempo, com a economia mais vigorosa, os juros, e até mesmo os impostos, poderiam subir para equilibrar a atividade e atacar a inflação, mas sem comprometer totalmente o crescimento. O ajuste fino seria relativamente simples.
 
O problema, neste início de 2010, é que o desempenho das economias ainda não parece trazer segurança sobre os caminhos a seguir, principalmente no mundo rico. Com a inflação ameaçando voltar, os juros deveriam subir, mas teme-se que a atividade econômica ainda não esteja suficientemente forte (e provavelmente não está, a não ser nos países emergentes) para suportar um aperto monetário.
 
O crescimento lento do PIB também não está sendo suficiente para puxar a arrecadação, o que mantém os déficits públicos em nível elevado. A saída seria elevar os impostos e cortar gastos públicos, como se exige hoje da Grécia. Combinado com a alta dos juros, porém, o aperto fiscal traria como ameaça uma recidiva da recessão, configurando o cenário de “duplo mergulho” preconizado por Nouriel Roubini. Esta seria a drástica consequência de se agir rápido demais contra a inflação e o déficit. A Grande Depressão dos anos 1930 seria o modelo deste tipo de evolução.
 
As consequências de não se agir, ou se atrasar demais a ação, porém, também não deixariam de ser graves. A continuidade dos déficits fiscais e juros reais baixos formariam uma combinação parecida com a dos anos 1970, em que a inflação subiu em todo o mundo. Na história mais recente do Brasil, este segundo cenário traz memória mais negativa: ele esteve na gênese do desarranjo econômico que assolou o País do final dos anos 70 até o Plano Real, em 1994.

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