Déficit em turismo mostra que o Brasil está caro

Josué Leonel

24 de fevereiro de 2010 | 12h07

Os números das contas externas de janeiro não chegam a revelar qualquer risco de crise cambial iminente em razão do déficit em transações correntes. Pelo contrário, o déficit do primeiro mês do ano, de US$ 3,8 bilhões, ficou até um pouco abaixo da mediana esperada. Porém, alguns dos itens do balanço de pagamentos do País, especialmente a conta de turismo, parecem expor uma realidade cada vez mais difícil de se negar: a de que o Brasil está caro.
 
Em janeiro, os gastos dos brasileiros no exterior superaram as despesas dos estrangeiros no Brasil em US$ 650 milhões. Foi o pior janeiro da série histórica para este indicador. Os brasileiros gastaram em janeiro US$ 1,21 bilhão no exterior, mais do que o dobro da despesa dos estrangeiros aqui, de US$ 566 milhões.
 
Podem estar por atrás deste fenômeno os ganhos de renda dos brasileiros nos últimos anos. Mais recentemente, a perda de poder aquisitivo nos países ricos, em virtude da crise, também pode ter desestimulado a vinda dos estrangeiros para cá.
Porém, outros fatores certamente estão tendo sua influência. Um deles provavelmente é o câmbio. Mesmo com a alta recente do dólar diante do real, a moeda americana ainda está longe de recuperar a baixa de mais de 20% registrada em 2009.
 
Além disso, enquanto o real segue valorizado, uma inflação entre 3% e 5% ao ano nos últimos anos, baixa para os padrões históricos brasileiros, mas alta para os padrões de países desenvolvidos, reflete um aumento contínuo dos custos internos de produtos e serviços em geral.
 
E não é apenas no turismo que o Brasil parece caro. Dados divulgados nesta segunda-feira pela ONU revelaram que os serviços de celular e internet no Brasil estão entre os mais caros do mundo. Os anúncios do aquecido setor automobilístico nos jornais também mostram que, duas décadas após a abertura do setor, carros importados com o mesmo perfil tecnológico (ou superior) chegam a ser mais baratos do que os brasileiros. Não por acaso, as vendas de veículos importados no Brasil em 2009 superaram, pela primeira vez desde 1995 (quando um dólar valia R$ 1), o número de carros brasileiros vendidos no exterior.
 
Ou seja, no turismo e no setor automobilístico, o fenômeno é o mesmo. Na balança comercial, a carestia do Brasil ainda não se reflete de forma aguda. As importações abriram 2010 crescendo mais do que as exportações, mas o mercado ainda prevê
superávit para o ano, embora bem menor do que em 2009. O saldo positivo, de qualquer forma, tem sido garantido por produtos primários, como minério e soja.
 
Em um futuro próximo, o petróleo do pré-sal também deve ajudar a cobrir as contas externas. Não deixa de causar desconforto, porém, a constatação de que o País, que também de notabiliza por ter impostos altos para os padrões internacionais, tem dificuldade para produzir bens e serviços com algum valor agregado a preços competitivos, deixando o saldo comercial cada vez mais dependente dos recursos naturais.

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