Enquanto Lula abraça Fidel, o Brasil abraça o lucro

Josué Leonel

25 de fevereiro de 2010 | 18h05

As imagens do presidente Lula em sua viagem a Cuba foram destaque em vários jornais. Em algumas fotos, Lula aparece fotografando o ex-presidente cubano Fidel Castro, junto com o irmão Raúl e o ministro brasileiro Franklin Martins. Em outras, Fidel e Lula se abraçam. Se a amizade os une, porém, o rumo tomado pelos países que representam não poderia ser mais contrastante.
 
Em Cuba, Fidel optou pela direção do socialismo ortodoxo, estatizando toda a economia, no modelo soviético, após a revolução de 1959. Alguma abertura foi permitida com o fim da União Soviética, nos anos 90. Embora investimentos estrangeiros em parceria com o estado cubano tenham sido permitidos, a iniciativa privada dos próprios cubanos continuou reprimida.
 
No Brasil, a história foi diferente. O primeiro governo Lula iniciado em 2003 contrariou os temores de que o petista poderia promover uma ruptura com a ordem econômica. A tríade da base econômica herdada do governo anterior, formada pelos regimes de meta de inflação e câmbio flutuante e pelo cumprimento de metas de superávit primário, foi mantida.
 
O aspecto mais simbólico do pragmatismo do governo de esquerda no Brasil em relação ao capitalismo, porém, foi a convivência com o lucro, conceito cuja condenação é uma das bases da ideologia socialista. Visto como medida da eficiência empresarial no capitalismo, a busca pelo lucro no País continuou sendo respeitada não apenas nas empresas privadas como também nas estatais. Sobre isso, o último balanço do Banco do Brasil é ilustrativo.
 
O BB registrou lucro contábil de R$ 10,148 bilhões em 2009, 15,3% maior do que em 2008, superando os resultados dos dois maiores bancos privados brasileiros no período, o Itaú Unibanco e o Bradesco. Do lucro apurado no quarto trimestre do ano passado, o banco estatal pagará 40% como remuneração aos acionistas. Também se espera um resultado elevado para a Petrobras, maior estatal brasileira, que divulga o balanço nesta sexta. 

Analistas ouvidos pela Agência Estado projetam lucro de R$ 28 bilhões em 2010, o que, se confirmado, poderá colocar a companhia como destaque em lucratividade entre todas as empresas internacionais do setor.
 
O fato de as estatais brasileiras abraçarem o lucro como “nunca antes neste País” pode soar contraditório considerando-se que o Brasil é governado por um presidente que dá demonstrações públicas de amizade com Fidel, Chávez e outros líderes esquerdistas. Apesar da contradição, a lucratividade das empresas no Brasil tem sido benigna para a economia como um todo, embora mais ainda para os acionistas das companhias.
 
Provavelmente, o Banco do Brasil não teria sido capaz de entrar com força na estratégia anticíclica do governo para enfrentar a crise no final de 2008 se estivesse em má situação financeira. Da mesma forma, os lucros da Petrobras serão fundamentais para a empresa ter recursos para os pesados investimentos necessários para explorar o petróleo do pré-sal.
 
E o que vale para estatais vale ainda mais claramente para o setor privado. Se o Brasil pode se vangloriar de ter sido um dos países que mais rapidamente saíram da crise de 2008, isto se deve em boa medida aos balanços sólidos dos bancos e grandes companhias do setor privado. Os bancos brasileiros, por exemplo, passaram ao largo da crise aguda que se abateu sobre os bancos americanos em 2008 e cujas consequências ainda respingam sobre Wall Street. Em suma, para relembrar as “lutas” do passado e partilhar um bom charuto, visitar Cuba e abraçar os irmãos Castro pode não ser uma má ideia. Para o desenvolvimento da economia, no entanto, abraçar o lucro é muito melhor.
 
Curiosamente, até Cuba, onde o lucro é demonizado, pode se beneficiar da boa saúde das empresas brasileiras. Algumas delas têm revelado planos de investir na ilha socialista, em parceria com o Estado cubano. Até porque, se o Brasil tem suas contradições, em Cuba elas também não faltam. No país de Fidel, o lucro é vetado aos próprios cubanos, mas permitido para empresas estrangeiras que façam sociedade com o governo. Ao contrário do Brasil, lá o lucro só pode ser abraçado oficialmente por estrangeiros.

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