Europa continua na era do gelo econômica

Josué Leonel

12 de fevereiro de 2010 | 18h31

Em termos econômicos, o aquecimento global ainda é uma realidade quase exclusiva do mundo emergente, especialmente dos países asiáticos. Os números mais recentes da economia internacional reforçam um quadro de contraste entre os desempenhos da Europa e da Ásia. Enquanto as potências emergentes China e Índia, com o Brasil a reboque, dão seguidas demonstrações de aceleração, os países europeus seguem atolados em sua “era do gelo” econômica. Os dados divulgados nesta sexta-feira revelam um quadro desanimador, que reforça o ceticismo com a capacidade de reação do continente europeu.
 
Na Índia, os números da indústria mostraram um crescimento da produção de 16,5% em dezembro em relação ao mesmo mês do ano anterior. Foi o melhor desempenho dos últimos dez anos. A magnitude da alta foi similar à registrada pela China, onde a produção industrial cresceu no mesmo período 18,5%. A expectativa é de que o PIB de ambos os países volte neste ano a registrar crescimento próximo aos dois dígitos, como se observava antes da crise, embora o resultado final deva depender do efeito das medidas de aperto que já estão sendo implementadas pelos chineses e que também poderão vir a ser adotadas pelos indianos para conter a inflação.
 
O Brasil, favorecido pela demanda crescente dos asiáticos por commodities, tende a ser favorecido e deve crescer entre 5% e 6% este ano. Os dados do PIB brasileiro de 2009 que ainda estão para ser divulgados, porém, ainda devem trazer as marcas da crise. O resultado deve ficar próximo do zero, com chances iguais de crescimento insignificante e de uma pequena contração.
 
Na Europa, o quadro é diametralmente oposto ao dos asiáticos. O PIB da zona do euro registrou um crescimento esquálido de 0,1% no quarto trimestre de 2009 em relação ao terceiro e queda de 2,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. E a maior decepção veio justamente da maior economia da região, a Alemanha. Após registrar pequenas taxas de crescimento no segundo e no terceiro semestre do ano passado, a economia alemã voltou a ficar estagnada no quarto trimestre em relação ao anterior e acusou retração de 2,4% ante o mesmo trimestre de 2008. A França destoou dos números generalizadamente fracos do continente e anunciou um crescimento de 0,6% no quarto trimestre, mas não teve sucesso em apagar a má impressão deixada pelos dados da zona do euro, Alemanha e outros países europeus, que também vieram fracos.
 
A indústria europeia parece enfrentar ventos especialmente contrários. A produção industrial caiu 1,7% na zona do euro em dezembro em comparação a novembro e cedeu 5% em relação a dezembro do ano passado. Foi a maior queda mensal desde fevereiro de 2009. É possível que esta retração mais pronunciada da atividade industrial esteja ligada ao câmbio, uma vez que o euro vinha se valorizando nos últimos anos e ganhou impulso adicional após a crise global, em 2009. Por este prisma, a recente queda da moeda pode trazer esperança de reconquista de alguma competitividade para os industriais europeus.
 
No caso da China, a situação é oposta à europeia. Enquanto o euro se valorizou em 2009, a moeda chinesa, o yuan, foi mantida estável em relação ao dólar, apesar dos protestos dos países ocidentais. O resultado foi que o yuan pegou carona na desvalorização do dólar, ampliando a competitividade dos produtos chineses. Por sua vez, os problemas da China, que parecem se repetir na Índia, também são o reverso das dificuldades europeias. Enquanto Pequim adota desde o final do ano passado medidas para esfriar o crescimento e evitar a volta da inflação, a Europa, mais de um ano após o pico da crise, ainda precisa lutar contra a recessão. Para piorar, os problemas fiscais no continente não se limitam à Grécia, o que torna praticamente inviável usar a arma dos estímulos fiscais, como se fez no final de 2008, para reaquecer a atividade.

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