Europa ofusca a central de boas notícias de Petro e Vale

Josué Leonel

24 de março de 2010 | 11h37

O mercado volta a balançar nesta quarta-feira com a renovação dos temores em relação à crise fiscal na Europa, que leva o euro a bater novos recordes de baixa. A ansiedade dos investidores aumenta diante da proximidade da reunião das autoridades da União Europeia, uma vez que os líderes da Alemanha e França seguem dando declarações contraditórias sobre um possível socorro à Grécia. Para piorar, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou o rating de Portugal para AA-.
 
Desde que os problemas da Grécia emergiram, Portugal ficou na berlinda como uma espécie de bola da vez da crise. Com o rebaixamento da nota do país, esta perspectiva parece se acentuar. Mas o problema maior não é o déficit fiscal de 9% de Portugal e nem mesmo os 12% da Grécia. Para os investidores, o maior desconforto é com o fato de que muitos outros países, como Espanha e Reino Unido, estão em situação semelhante.
 
Ou seja, a crise fiscal é de grande parte da Europa, o que gera um dilema para os líderes do continente. Deixar um único país quebrar, como a Grécia, poderia levar os especuladores a atacarem outros países com situação fiscal precária, à espera da próxima vítima. A decisão de não deixar quebrar e socorrer um país em apuros, porém, também tem seus inconvenientes, entre eles desagradar os eleitores dos países mais sólidos, como a Alemanha.
 
O retorno da preocupação com a Europa contribui para ofuscar o noticiário sobre as maiores empresas brasileiras, a Petrobras e a Vale. A Petrobras voltou a abrir a sua famosa central de boas notícias ao informar ontem a conclusão dos testes no poço 3-RJS-662A (3-BRSA-755A-RJS), localizado na Área de Avaliação de Tupi, na Bacia de Santos. Segundo a estatal, foi constatada altíssima produtividade de óleo leve (de boa qualidade) nos reservatórios carbonáticos do pré-sal na área. O potencial de produção deste poço foi estimado em cerca de 30 mil barris de óleo por dia.
 
Tupi também foi objeto de outro anúncio feito pela empresa, de que poderá ser antecipada em dois meses a declaração de comercialidade do bloco BM-S-11. O prazo, previsto para dezembro, seria antecipado para outubro, coincidindo com as eleições presidenciais. A partir desta declaração, poderá ser iniciado o projeto piloto de produção. A plataforma do projeto teria capacidade para 100 mil barris por dia.
 
No caso da Petrobras, embora as perspectivas com Tupi e a exploração do pré-sal sejam positivas, um melhor desempenho das ações tende a ser limitado pelas dúvidas em torno da capitalização da estatal, que só devem ser esclarecidas entre o final deste primeiro semestre e o começo do segundo. O apetite do investidor pelos papéis da maior empresa brasileira, portanto, deve continuar travado enquanto esta operação não for definida.
 
No caso da segunda maior empresa brasileira, a Vale, o cenário tende a ser definido em prazo menor. E as notícias sobre a companhia podem ficar à altura de uma central de boas notícias se forem confirmadas as especulações recentes sobre o aumento do minério de ferro, que poderia passar de 100%.
 
Segundo cálculos de analistas ouvidos pelas repórteres Mônica Ciarelli e Chiara Quintão, do AE Empresas e Setores, um reajuste de 100% acrescentaria US$ 12,8 bilhões anuais ao faturamento da Vale. Seria mais do que o dobro do lucro da companhia no ano passado, que ficou em US$ 5,349 bilhões. O cálculo ainda não levaria em conta o reajuste para as pelotas, que costuma ser maior do que para o minério, e nem a perspectiva de maiores vendas.

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