Grécia hoje é o Brasil de amanhã?

Josué Leonel

09 de fevereiro de 2010 | 19h44

Uma das novidades da crise que se desenrola desde 2008 é que ela mudou de lado comparativamente às do passado. Na crise asiática de 1997, por exemplo, o epicentro foi a Ásia e o contágio atingiu especialmente países em desenvolvimento, então recentemente batizados como “emergentes”, como o Brasil. Desta vez, a geografia mudou. O epicentro da crise foram os EUA e o impacto foi mais duro nos países ricos da Europa e Japão. E países periféricos a esta zona desenvolvida, como os do Leste e Sul da Europa, são os mais duramente atingidos. Mais recentemente, a Grécia surgiu como economia mais ameaçada de um colapso, embora outros representantes da chamada “velha Europa”, como Portugal, Espanha e Irlanda também estejam na mira dos especuladores.
 
O Brasil parece navegar por águas menos turbulentas. Em parte graças à maturação de reformas estruturais realizadas principalmente nos anos 90 e ao efeito cumulativo de 20 anos de abertura econômica, mas também ao fato de o País ser beneficiário hoje do impulso proporcionado pela China, que elevou a demanda mundial por commodities a um novo patamar e deu aos produtores de insumos básicos uma posição rara no jogo de forças global. Enquanto prevalecer este arranjo desenhado pelo vigor chinês, é possível que a economia brasileira continue com performance melhor do que a média mundial. Não se estranha, portanto, o entusiasmo de grandes financistas internacionais como Mohamed El-Erian (Pinco) e Mark Mobius (Templeton) com as oportunidades no gigante sul-americano.
 
Não deve passar despercebido, contudo, que muitas das deficiências apontadas pelos analistas para os países do Sul da Europa atualmente são semelhantes àquelas que especialistas brasileiros, notadamente os de visão mais liberal da economia, apontam para o Brasil. Quando os números brasileiros atuais são confrontados isoladamente com o mais encrencado dos europeus, a Grécia, as diferenças são gritantes e geralmente favoráveis ao Brasil. Na foto, estamos bem melhores. Quando se imagina um filme das variáveis projetando sua evolução, porém, fica difícil assegurar que a economia brasileira não poderá enfrentar problemas parecidos no futuro.
 
No campo fiscal, a Grécia assusta os investidores com um déficit público de 12,7%, quase quatro vezes maior do que o déficit nominal de 3,3% registrado pelo Brasil em 2009. Esta é a fotografia atual e que não deve mudar muito nos próximos anos no caso brasileiro. No entanto, esta aparente austeridade fiscal brasileira tem sido assegurada, desde o final dos anos 90, por uma forte elevação da carga tributária e por uma arrecadação inflada pelo crescimento econômico, e não pelo controle dos gastos. Pelo contrário, os gastos com funcionalismo público, por exemplo, cresceram muito acima da inflação nos últimos anos.
 
Segundo informou nesta terça-feira o jornal O Estado de S.Paulo, a folha de servidores passou de 4,54% para 5,11% do PIB de 2006 a 2009. Enquanto o governo fala em limitar os reajustes, novos projetos em tramitação no Congresso ampliam as despesas. Estes gastos, uma vez autorizados, tornam-se irremovíveis, pois a lei proíbe reduções salariais, ao passo que o crescimento da arrecadação, como se viu pelo exemplo do ano passado, não tem nenhuma garantia de que se repetirá no futuro. O orçamento se torna inercial do lado das despesas, mas nunca do lado das receitas.
 
Na Europa, os governos também costumam ser criticados pelos gastos elevados do Estado, que, para serem custeados, exigem uma carga tributária muito alta para os padrões de outros países ricos da América e Ásia. No Brasil, a carga, estimada em 35% do PIB, também é considerada alta. Para os empresários, o custo dos impostos é amplificado pela pesada burocracia, outro ponto em comum entre brasileiros e europeus.
 
Para as pessoas comuns, os impostos altos significam muito mais do que a evidência de que qualquer eletroeletrônico custa duas ou três vezes mais aqui do que em Nova York ou Miami. Devido à baixa qualidade do serviço público, a classe média tem de recorrer a serviços privados caros de saúde, educação e até mesmo segurança, tornando a carga “real” exorbitante. Com isso, é possível imaginar que, politicamente, recorrer a aumentos de impostos para sanar eventuais problemas fiscais no futuro se tornará uma tarefa, no mínimo, mais difícil.
 
Guardadas as devidas proporções, o déficit previdenciário também está entre os itens das contas públicas que aproximam o Brasil da Grécia e outros europeus. Não por acaso, o governo grego acaba de anunciar que irá ajustar a idade média para aposentadorias para 63 anos a partir de 2015 como parte das medidas para reduzir o déficit fiscal. Hoje, a idade média para os homens é de 65 anos, mas para as mulheres a idade é de 60 anos e a União Europeia pressiona o país a reduzir esta diferença, que seria fonte de ampliação do déficit, pelo fato de as mulheres viverem mais do que homens.
 
A situação brasileira é semelhante, com agravantes. Aqui é possível se aposentar por tempo de contribuição, o que baixa a idade real de aposentadoria em 10 anos ou mais. O Brasil já conta com um déficit previdenciário elevado e que tende a aumentar paulatinamente com a contínua elevação da expectativa de vida, hoje de 72 anos. Os gregos vivem sua crise previdenciária com esperança de vida muito maior, de 79,5 anos.
 
Comparativamente aos gregos, o Brasil tem uma situação mais tranquila em termos de déficit em transações correntes. Na Grécia, este déficit é de 11,9% do PIB, muito acima dos 2% a 3% esperados para o Brasil em um futuro previsível. O déficit brasileiro, porém, está em trajetória ascendente. Foi de US$ 24 bilhões em 2009 e, segundo a pesquisa Focus, dobrará para US$ 48 bilhões neste ano e atingirá US$ 59 bilhões em 2011.
 
Ou seja, o filme não é tão bom quanto a foto. O fato de o Brasil ter um câmbio flutuante próprio, ao passo que os gregos usam a moeda comum da zona do euro, empresta maior flexibilidade às contas externas brasileiras. Se o déficit piora, o dólar sobe e estimula as exportações, e vice-versa. Esta flutuação, porém, tem um custo. O dólar mais alto pode ajudar a pressionar a inflação e o mercado já precifica uma elevação dos juros que colocará em pauta um aspecto herdado de períodos mais instáveis da economia brasileira: a forte concentração da dívida em títulos indexados à taxa Selic.
 
Outros paralelos entre Brasil e Grécia também trazem aspectos menos favoráveis ao Brasil. Um deles é que, em caso extremo, resta aos gregos e outros habitantes da parte menos rica da Europa a segurança de contar com potenciais salvadores muito poderosos, como Alemanha, França, a União Europeia e o Banco Central Europeu, ao passo que aqui no Mercosul os sócios dos brasileiros estão mais para requerentes de ajuda do que para salvadores. Não foi por outro motivo que os mercados se mostraram tão pacientes por tantos anos com os europeus, a ponto de esperar que os déficits atingissem níveis como os demonstrados atualmente.
 
No Brasil, déficits fiscais e em conta corrente mais altos do que os atuais, mas bem menores do que os dos países europeus, foram suficientes para provocar crises bastante agudas no passado. Com exceção da crise energética de 2001, quase todas as crises da economia brasileira, das moratórias dos anos 80 às maxidesvalorizações de 1999 e 2002, tiveram como componentes ou o déficit fiscal ou o externo – ou ambos.
 
Ou seja, o drama sofrido pelos gregos hoje não é totalmente estranho ao Brasil. Seus ingredientes também existiram e existem por aqui, embora em medidas ainda pouco ameaçadoras. A boa notícia é que temos tempo para agir. A má é que não se fala seriamente nisso.

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