Medidas facilitam saída de dólar mas também podem favorecer entrada

Josué Leonel

25 de março de 2010 | 10h54

As medidas anunciadas pelo Banco Central para o câmbio são positivas. Ao unificar regras e remover centenas de dispositivos, muito deles em desuso, o BC reduz a burocracia na área cambial, o que deve facilitar as transações realizadas por empresas e instituições financeiras, tornando o sistema mais rápido e
eficiente. Provavelmente os custos das operações também serão reduzidos. Trata-se de uma providência, diga-se, que poderia inspirar outras áreas do governo (e não apenas no nível federal), dado que a burocracia é um problema generalizado no País.
 
As medidas, na verdade, chegam até um pouco tarde. Muitas das regras que estão sendo alteradas ou removidas foram adotadas em um passado relativamente distante, quando a imposição de restrições, principalmente à saída de capitais, era vista como lógica do ponto de vista econômico. Afinal, até meados dos anos 90 o Brasil viveu a maior parte do tempo com escassez de divisas. Assim, criar obstáculos às saídas tinha lá suas razões.
 
Nos últimos anos, porém, esta lógica não só deixou de existir como foi invertida. Por vários motivos, que vão desde o alívio dos investidores com o fato de o governo Lula não ter alterado a política econômica até forte alta das commodities provocada pelo crescimento chinês, o Brasil passou a receber uma enxurrada de dólares nos últimos anos.
 
As reservas quadruplicaram em três anos, saindo de pouco mais de US$ 50 bilhões em 2005 para US$ 180 bilhões em 2007. A marca de US$ 200 bilhões foi alcançada em 2008 e hoje o número é de US$ 243 bilhões. Ou seja, pela evolução das reservas, dava para o BC ter liberalizado o câmbio até um pouco antes. Antes tarde do que nunca, porém, o BC acordou para o fato de que se há um problema no câmbio brasileiro agora é de excesso, e não de escassez, de oferta. Portanto, não havia mais motivos para subsistirem restrições a remessas.
 
De qualquer forma, as medidas facilitam processos, mas não necessariamente criam incentivos à compra de dólares. Afinal, o juro básico brasileiro, de 8,75%, continua criando uma situação tentadora para um estrangeiro que encontra, nos EUA, taxa de 1% ao ano em bônus do Tesouro de 2 anos. Além do mais, o PIB projetado de 5,5% é maior do que a média internacional, o que tende a atrair investimento produtivo. Ou seja, não é porque o BC facilitou a compra de dólares que o investidor vai comprar. Ele só vai fazer isso se as perspectivas de lucro lá fora forem melhores do que aqui, o que não parece ser o caso agora.
 
Em um segundo momento, pode até ocorrer o contrário. O investidor estrangeiro pode passar a se sentir ainda mais seguro em investir no Brasil ao saber que o País conta com um regime cambial menos burocrático e mais liberal. A percepção de que a porta ficou mais aberta para saídas pode gerar uma percepção contrária, de maior abertura para entradas.

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