Mercado segue de ressaca prolongada

Josué Leonel

24 de fevereiro de 2010 | 19h47

O primeiro bimestre de 2010 se aproxima do seu final e o mercado ainda parece imerso em dúvidas. Tudo indica que os investidores continuam em uma ressaca prolongada depois da festa observada em 2009, quando as bolsas deram saltos, principalmente nos países emergentes, e a moeda brasileira registrou forte valorização diante do real. Após disparar mais de 80% no ano passado, o Ibovespa acumula baixa de cerca de 4% neste ano, ao passo que o dólar se sustenta acima de R$ 1,80.
 
Considerando-se a quantidade de pendências no cenário conjuntural, é possível que a bolsa prossiga nesta toada indecisa por algum tempo. Quedas mais acentuadas parecem ser desencorajadas pelo otimismo forte dos analistas com o crescimento da economia brasileira. Embora a mediana da pesquisa Focus aponte para um PIB de +5,5%, tem sido comum ouvir especialistas falarem em avanço de 6% ou mais para a economia brasileira neste ano.
 
Por outro lado, apesar do otimismo doméstico, que reflete o entusiasmo com os grandes países emergentes em geral, a detonação de uma nova escalada de alta para a bolsa brasileira é travada principalmente pelas incertezas que ainda rondam o cenário externo. Nos EUA, as expectativas ainda são de recuperação da atividade econômica, mas não há muita clareza sobre a magnitude desta retomada. Além disso, há o receio de que, em um cenário de crescimento mais forte, uma alta dos juros do Fed acabe por afetar o fluxo de capitais para os mercados emergentes, estragando, ou limitando, a festa das ações.
 
No curto e no médio prazo, o mercado ainda se ressente de um quadro mais definido na Europa, especialmente em relação aos problemas fiscais da Grécia e outros países. Embora se aposte em algum tipo de socorro da União Europeia aos países mais problemáticos, a demora de uma confirmação desta ajuda causa desconforto. Até pelo fato de ser um evento impensável para um país da zona do euro, um default da Grécia não está precificado e poderia provocar forte abalo na bolsa e também no dólar.
 
O cenário doméstico parece mais claro, mas também traz algumas dúvidas que contribuem para o estado geral de ressaca do mercado brasileiro. Uma delas diz respeito à capitalização da Petrobras. Enquanto a operação não for concluída, os investidores não terão certeza de quanto os acionistas minoritários terão de desembolsar para participar da operação. E como a operação deve ser gigante, seu efeito sobre o mercado como um todo também pode ser relevante.
 
A inflação e a política monetária também representam pontos de dúvida. Entre as alternativas mais consideradas atualmente, porém, de início da alta da Selic em março ou abril, nenhuma parece tirar o sono dos investidores da bolsa. Se a Selic subir já em março, por exemplo, isto significará que o Banco Central está um pouco mais preocupado com a inflação, mas também mais otimista com o crescimento do PIB. De todo modo, a diversidade dos pontos de dúvida no ambiente conjuntural interno e externo pode significar que uma tendência mais consistente para os principais ativos financeiros só será definida no segundo trimestre ou até mesmo no segundo semestre.

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