Mercado torce por alívio grego para comemorar notícias corporativas

Josué Leonel

10 de fevereiro de 2010 | 11h26

O otimismo da virada do ano foi abalado momentaneamente nas últimas semanas por uma combinação de fatores negativos, que envolveram indicadores econômicos tímidos nos EUA e o temor de aperto monetário na China. Nada
contribuiu mais para estressar os investidores, porém, do que as dificuldades fiscais da Grécia, que chegaram a provocar o temor de um default da dívida do país. Agora, porém, surge a esperança de remoção deste fator de risco com as
especulações sobre um possível pacote de ajuda da União Europeia, liderado pela Alemanha, para tirar a economia grega do sufoco.
 
Ainda não há notícias definitivas sobre o socorro da UE para a Grécia. Este apoio, que deve ser discutido em reunião amanhã, deve ser condicionado a um duro ajuste fiscal. Os trabalhadores estão entrando em greve e saindo às ruas em protesto contra as medidas de austeridade. De qualquer forma, como o estresse provocado pela situação grega foi relevante em alguns mercados, como os de bolsas e moedas (inclusive o euro e o real), qualquer alívio poderá provocar uma valorização igualmente expressiva dos ativos mais castigados.
 
Embora outros países europeus tenham problemas semelhantes aos da Grécia, nenhum tinha uma combinação tão negativa de déficits fiscal e externo. Se a UE socorrer os gregos, certamente o mercado entenderá que qualquer outro país da zona do euro terá o direito ao mesmo tratamento. A ajuda à Grécia, diga-se, tem sido defendida por alguns grandes economistas, como fez recentemente o Nobel Joseph Stiglitz, que está assessorando o governo de Atenas. Nouriel Roubi, do site
RGEMonitor, disse que a ajuda da União Européia é um “passo na direção correta”, embora a melhor solução fosse que este apoio viesse do FMI.
 
Confirmado o socorro aos gregos, as bolsas tendem a se voltar para o noticiário corporativo, que parece vier uma fase mais positiva. O Itaú Unibanco, primeiro grande banco a divulgar seus números, não decepcionou, ao reportar lucro de R$ 10,066 bilhões em 2009, 29% acima de 2008. Nada mal para um ano “de crise”, em que o PIB teve crescimento perto de zero. Para esta quarta, as apostas também parecem positivas para o resultado da Vale. Segundo apurou o serviço AE Empresas e Setores, a maior mineradora brasileira deve ter lucrado US$ 1,5 bilhão em 2009 (US Gaap), 10% acima do resultado apresentado no mesmo trimestre do ano anterior.
 
Embora 2009 tenha sido um ano de recessão para boa parte da economia global e o Brasil tenha sofrido os impactos da crise, principalmente no primeiro trimestre, os balanços que estão saindo agora já refletem os negócios do final do ano passado, um período de franca recuperação da economia. E esta melhora tende a continuar neste começo de 2010. No caso da Vale, por exemplo, há grande aposta de um reajuste elevado do minério de ferro nas negociações com a China.
 
Os juros ainda baixos no mercado internacional e as apostas na retomada do crescimento econômico também devem seguir ampliando os movimentos de consolidação. Mais um exemplo desta tendência veio com a compra, pela Camargo Corrêa, de 22,17% da cimenteira portuguesa Cimpor, uma das dez maiores do mundo. Com a operação, a Camargo torna-se a maior acionista individual do grupo português, com posição superior aos 17,28% adquiridos pela Votorantim.
 
Uma retomada mais firme do otimismo ainda depende de outras variáveis, como a manutenção de uma retomada do crescimento, ainda que gradual, da economia americana, e que o crescimento chinês continue forte, mas sem grandes
desequilíbrios. No caso chinês, um sinal promissor veio hoje do resultado da balança comercial, que revelou redução do saldo comercial e crescimento muito maior das importações do que das exportações em janeiro. Este desempenho, se prosseguir nos resultados seguintes, poderá suavizar as pressões internacionais por mudanças cambiais e as acusações de competição desleal dos exportadores chineses.

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