Mercados tentam superar os ecos da crise

Josué Leonel

10 de fevereiro de 2010 | 19h10

Os mercados seguem pisando em ovos, mapeando o terreno enquanto procuram compreender até que ponto são confiáveis as mudanças de cenário prometidas para 2010. Depois da estilingada das ações e outros ativos de risco em 2009, vive-se agora um momento de maior volatilidade, enquanto se espera que o cenário fique mais claro. Em tese, este deverá ser um ano de recuperação mais consistente da economia mundial depois das turbulências que atingiram o pico no final de 2008 e cujos impactos prosseguiram em 2009, embora em magnitude variada. Enquanto os países emergentes, liderados pela China, conseguiram em sua maioria reagir já a partir do segundo trimestre, para boa parte do chamado mundo rico a atividade econômica continuou fraca até o final do ano passado.
 
O que se observa neste início de 2010, porém, é que, antes de a economia global deslanchar para a prometida retomada, será preciso enfrentar os ecos da crise, que vão surgindo em regiões diferentes do mundo, embora não necessariamente com os mesmos ingredientes. Na virada do ano, o estouro da crise financeira em Dubai foi eloquente ao expor um exemplo de impacto retardado da crise de liquidez sobre o mais famoso dos emirados árabes, cujos projetos faraônicos foram o símbolo da ostentação e dos excessos dos anos dourados que antecederam o estouro da bolha imobiliária americana.
 
No entanto, se as dificuldades de Dubai foram superadas como um fato quase isolado no meio do deserto árabe, a crise particular atual da Grécia e demais países do Sul da Europa se mostra mais reveladora do efeito bumerangue da crise do final de 2008. O crescimento do déficit destes países assusta investidores agora, mas vale lembrar que a injeção de dinheiro público para levantar a economia da recessão foi uma prática absolutamente generalizada no auge da turbulência. Em 29 de novembro de 2008, pouco mais de dois meses após a quebra do Lehman Brothers, o Nobel de economia Paul Krugman pontificou em sua coluna no The New York Times que o mundo vivia “o momento keynesiano”.
 
Enfim, os gregos não fizeram nada muito diferente do que todo o resto do mundo fazia. Pode-se adicionar a crítica de que, mesmo antes da crise, o governo de Atenas não era um primor em termos de austeridade fiscal. Mas o que dizer dos EUA, o farol do capitalismo mundial, que já se afundavam em déficits muito antes do estouro da bolha? O fato, porém, foi que os governos, que antes gastavam com certo constrangimento, após a crise passaram a inundar os mercados de dinheiro sem remorsos, certos de que estavam seguindo os ensinamentos de Lord John Maynard Keynes – segundo os quais o dinheiro público é o melhor remédio para sanar a falta de demanda privada em tempos de deflação e recessão.
 
Pouco mais de um ano do ponto máximo da crise e do início das políticas keynesianas preconizadas por Krugman, porém, chega a vez de o mercado cobrar sua parte, exigindo prêmios mais altos das dívidas. E, como sempre, os elos mais frágeis da cadeia econômica, como são tratados os sul-europeus, são os alvos prioritários. No entanto, estes ecos da crise também são ouvidos em países com maior peso na economia mundial. Não é segredo que o Reino Unido tem déficit comparável ao dos gregos. E também não é sem razão que os mercados, apesar do nervosismo não ter passado, acreditam que a União Europeia acabará por encontrar uma maneira de socorrer os gregos, ainda que exigindo alguma contrapartida de ajuste fiscal. Afinal, todo o continente padece da mesma doença, embora em graus diversos.
 
Os desafios fiscais no pós-crise também são sérios fora da Europa. Nos EUA, o presidente Barack Obama e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, já vieram a público diversas vezes para prometer que o déficit será reduzido. Até agora, os investidores, de maneira geral, parecem confiar nestas promessas. Não que se acredite que o governo americano ou outro qualquer conseguirá cortar profundamente os gastos. Esta é uma tarefa difícil do ponto de vista político e questionável em termos econômicos, uma vez que ainda não se sabe até que ponto a demanda privada se firmou o suficiente para a atividade econômica andar sem os recursos públicos.
 
O que sustenta a confiança de que, mais cedo ou mais tarde, as contas dos governos retomarão o equilíbrio é a crença na volta do crescimento econômico, que traria a reboque a arrecadação de impostos. Quanto mais robusto for o PIB de 2010, menor será o risco fiscal. Mas a recíproca também é verdadeira. Tanto é que os maiores déficits europeus ocorrem nos países em que a recuperação econômica está mais atrasada.
 
Na China, Brasil e outros países emergentes, os desafios são diferentes, mas estão igualmente relacionados aos desdobramentos da crise de 2008. Estes países também se valeram dos estímulos governamentais para enfrentar a recessão, mas tiveram mais sucesso do que os países ricos e voltaram a crescer, sobretudo a partir do segundo semestre do ano passado. Precocemente, contudo, tanto chineses quanto brasileiros se deparam com alguma ameaça inflacionária. Na China, onde a retomada foi mais rápida e robusta, o aperto no crédito já começou. No Brasil, espera-se para os próximos meses a elevação dos juros básicos, mas nos mercados futuros a alta já aconteceu.
 
No caso brasileiro, o aumento do déficit externo também se mostra como herança da crise. A farta liquidez e os baixos juros proporcionados pelas decisões dos bancos centrais e tesouros dos países ricos criaram as condições que levaram à forte apreciação do real em 2009. O câmbio apreciado, combinado ao aquecimento da demanda doméstica, tornou mais vermelha a conta de transações correntes. O financiamento deste déficit, porém, não parece ser um grande desafio. O fato de os países ricos ainda não terem se recuperado plenamente da crise significa que os juros internacionais permanecerão baixos por um bom tempo, assegurando um fluxo contínuo de recursos em busca de mercados mais rentáveis, como o brasileiro. A permanência dos ecos da crise, portanto, não trás apenas efeitos negativos, desde que os sustos que estão sendo observados neste começo de ano não evoluam para um retorno à situação mais dramática do final de 2008.

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