O Brasil é o melhor dos Brics?

Josué Leonel

17 de fevereiro de 2010 | 18h55

O oba-oba de analistas e investidores internacionais com o Brasil deu o tom de 2009 e prossegue em 2010. O País já tem destaque significativo por pertencer ao grupo dos Bric, formado pelo acrônimo das letras iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China. Mais recentemente, porém, os analistas têm destacado o Brasil, juntamente com a China, como os dois países do grupo com melhores perspectivas para o investidor.
 
Artigo assinado por Liam Denning no The Wall Street Journal foi ainda mais longe. Citando declaração do administrador de fundo americano Mark Mobius, o artigo discute a tese de que o Brasil hoje seria uma alternativa melhor até mesmo do que a toda poderosa China, que deve superar o Japão em 2010 como a segunda maior economia do mundo. Entre as vantagens brasileiras em relação à China e outros grandes emergentes estaria a “autossuficiência em recursos naturais”.
 
Outros grandes nomes das finanças internacionais também têm manifestado otimismo com o Brasil. Um deles é Jim O’Neill, do Goldman Sachs, criador do termo Bric e um dos mais convictos defensores das perspectivas positivas em relação aos grandes países emergentes. Outro é Mohamed El-Erian, da norte-americana Pimco.
 
Mobius, O’Neill e El-Erian formam uma espécie de tríade dos entusiastas com o mundo emergente. E, de certa forma, eles têm sido bem-sucedidos em suas análises. Haja vista a rapidez com que China, Índia e Brasil, em particular, driblaram a crise global de 2008.
 
Em parte, contudo, estes prognósticos mais otimistas já se realizaram em 2009, quando as bolsas dos Brics lideraram a reação dos mercados. O índice MSCI Brazil subiu 120% em dólar no ano passado, aior valorização do mundo, enquanto o Ibovespa disparou 82% em reais e 140% em dólar. A Rússia, um dos países que mais sofreram com a crise em virtude de sua dependência do petróleo, recuperou-se fortemente, com alta de 113% de suas ações, enquanto a bolsa da Índia subiu 87% e a da China, 79%. Em 2009, o mercado acionário brasileiro foi não apenas o melhor dos Brics como o melhor do mundo.
 
A partir de 2010, contudo, nada garante que estas altas se repetirão. A maioria dos analistas acredita que os ganhos persistirão, mas em ritmo bem mais moderado. No Brasil, talvez a Bovespa suba de 20% a 30%, o que já seria um resultado considerável tendo em vista que a base de comparação agora é muito mais alta.

O fato de a bolsa brasileira atrair mais o interesse estrangeiro também não significa que as perspectivas para a economia brasileira como um todo sejam necessariamente melhores do que para os demais grandes emergentes. A projeção para o PIB chinês este ano, por exemplo, é de +10%, quase o dobro do brasileiro, que deve ficar entre +5% e +6%. E na Índia as expectativas apontam para um crescimento próximo ao chinês. Sem contar que China e Índia já vêm de crescimentos robustos em 2009, ano em que o PIB brasileiro deve ter fechado com variação próxima de zero.
 
Se o crescimento brasileiro foi e deve continuar sendo menor, o que explicaria tanto entusiasmo dos investidores que aplicam em bônus ou ações? Uma das possíveis razões é o fato de tanto o mercado quanto a economia brasileira serem mais abertos ao capital externo quando comparados, por exemplo, à China e Rússia, que mesmo após abrirem suas economias nos anos 80 e 90 ainda impõem restrições sérias aos estrangeiros. Também se pode argumentar que o Brasil, que convive com a democracia há 25 anos e com a estabilidade econômica há 15, oferece maior segurança institucional quando comparado a um país como a China, ainda governado pelo Partido Comunista em regime de partido único.
 
A combinação de uma política monetária rigorosa com o regime de câmbio flutuante também pode ser um diferencial brasileiro. Ao contrário da China, onde o cambio é praticamente fixo, no Brasil prevalece o sistema flutuante. Quando há um diferencial elevado entre as taxas de juros no Brasil (geralmente maiores do que nos demais Brics) e no exterior, por exemplo, o real se valoriza, o que assegura ganhos mais elevados ao investidor estrangeiro que tiver aplicado em qualquer ativo denominado na moeda nacional, de ações a aplicações de renda fixa. No mercado chinês, o investidor estrangeiro também poderá ter os ganhos amplificados quando, e se, o yuan se valorizar. Mas esta perspectiva não é certa.
 
Ou seja, quando os grandes financistas internacionais elogiam o Brasil, é possível entender que eles realmente estão mais otimistas quando às perspectivas econômicas brasileiras. Parte deste otimismo, porém, é explicado apenas pelo fato de que as condições de obter retornos mais rápidos e graúdos para o capital investido são maiores aqui. Em última análise, um gestor de fundos, nacional ou estrangeiro, será julgado pelos lucros da carteira que administra, e não pelos acertos de suas previsões sobre as economias e empresas dos países que analisa.

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