Piora das contas externas é menos dramática do que parece

Josué Leonel

22 de abril de 2010 | 19h33

O resultado das contas externas de março não foi exatamente uma boa notícia. O déficit em transações correntes avançou para US$ 5,067 bilhões, mais que o triplo do saldo negativo de US$ 1,559 bilhão registrado em março do ano passado. O número também ficou acima do teto das previsões dos economistas consultados pelo AE Projeções, que iam de US$ 3,3 bilhões a US$ 5 bilhões.
 
Com o resultado de março, o déficit em transações correntes passou a acumular no primeiro trimestre US$ 12,145 bilhões. Segundo o Banco Central, foi o pior resultado para os primeiros três meses do ano da série iniciada em 1947.
 
O fato de o déficit estar crescendo tanto pode despertar algumas discussões e reforçar algumas teses. Entre as teses, a de que o déficit mostra que a economia está aquecida para além do seu ponto de equilíbrio e o Banco Central terá realmente de usar a alta dos juros no Copom da semana que vem para evitar um descontrole que se transfigure em mais inflação.
 
De fato, um dos itens do déficit, o da conta de turismo, é emblemático da força da demanda interna. Os gastos com viagens internacionais na conta de serviços apresentaram um déficit de US$ 543 milhões no mês passado, muito acima dos US$ 124 milhões de março de 2009.
 
A discussão que pode ser aberta é sobre a capacidade de o País manter suas empresas competitivas sem recorrer a subsídios cambiais. Já foi longe o tempo em que produto importado era sinônimo de produto caro no Brasil. Em alguns casos, são justamente os produtos importados que têm os menores preços, apesar da ainda elevada alíquota de importação. O crescimento das importações de carros é um exemplo deste fenômeno.
 
Contudo, ainda não é possível dizer que se acendeu uma luz vermelha nas contas externas. A informação do BC de que o déficit no primeiro trimestre é o maior da série histórica, por exemplo, passa uma ideia de dramaticidade exagerada. O déficit no trimestre, de US$ 12,145 bilhões, é elevado em termos absolutos. Porém, em termos relativos, ainda está em um nível administrável, de 2,6%
do PIB.
 
Nos anos 90, quando o Brasil enfrentou crises cambiais, o déficit girava entre 4% e 5% do PIB. Se o resultado absoluto do primeiro trimestre deste ano é maior, é porque a economia cresceu nos últimos anos. E uma economia maior e em crescimento também tem maiores condições de acolher investimentos estrangeiros diretos para financiar o déficit.
 
Há outras diferenças relevantes em relação à década passada. Agora, o Brasil conta com um regime de câmbio flutuante, o que tende a produzir um ajuste, embora muitas vezes defasado, das contas externas no médio e longo prazo. Em outras palavras, se o déficit evolui para um patamar ameaçador, o câmbio tende a se depreciar, estimulando as exportações, encarecendo as importações e trazendo as contas externas para um nível mais comportado.
 
O quadro político também mudou. Uma década atrás, o então eterno candidato a presidente Lula e seu partido, o PT, eram fantasmas assustadores para o investidor estrangeiro, situação um tanto diferente da verificada hoje. E, para os mais otimistas, ainda há o pré-sal, que pode transformar o Brasil de importador líquido em grande exportador de petróleo. Se esta perspectiva se confirmar, o “problema” a ser enfrentado em um futuro não tão distante será não mais o déficit, e sim administrar o saldo positivo das contas externas.

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