Pregação de Dilma sobre Estado forte já é realidade com Lula

Josué Leonel

22 de fevereiro de 2010 | 12h49

O fim de semana foi pródigo em entrevistas e discursos da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Dilma garantiu que não haverá “retrocessos ou aventuras” na economia, procurando assegurar maior tranquilidade em relação às variáveis básicas da política macroeconômica, como o equilíbrio fiscal, o controle da inflação e o regime de câmbio flutuante.
 
Apesar da rejeição a aventuras, Dilma manteve a pregação de um Estado forte na economia. Também não deu qualquer sinalização de que o crescimento dos gastos com o funcionalismo, apontado por muitos analistas como um dos pontos de
dúvida sobre a trajetória fiscal do País, será interrompido. Pelo contrário, defendeu que vai continuar “valorizando o servidor público”.
 
Ainda que Dilma vença e coloque suas ideias em prática, contudo, é provável que sua administração seja uma continuação do governo Lula, mas não do governo Lula como um todo. Mais especificamente, as ideias de Dilma se assemelham com
aquelas que já estão em pleno vigor neste segundo mandato de Lula. Com Dilma na Casa Civil e o desenvolvimentista Guido Mantega na Fazenda, o governo já parece estar tirando do papel o que a pré-candidata prega, pelo menos em relação ao
tamanho do Estado.
 
O ativismo estatal tem sido um aspecto marcante destes últimos anos de Lula no poder. Um exemplo mais recente desta tendência foi a proposta, confirmada pelo presidente, de reativar a Telebrás como operadora de banda larga. Trata-se de uma intervenção em um setor que vem mostrando forte crescimento após a privatização, entre 1996 e 1997. Desde então, o País saiu de cerca de 15 milhões de linhas de telefones fixos e celular para cerca de 200 milhões atualmente. Embora a banda larga no Brasil seja realmente considerada cara e lenta, mesmo em termos de acesso à internet os números têm mostrado forte crescimento no Brasil.
 
Mas as telecomunicações estão longe de ser o único setor em que o Estado brasileiro se fortaleceu nos últimos anos. A Petrobras ganhou participação importante na nova Braskem, que praticamente restabeleceu o monopólio da petroquímica no Brasil após a empresa se fundir com a Quattor. E o governo pode ampliar sua presença na Petrobras com a capitalização da empresa. Além disso, as novas regras em debate no Congresso aumentam o papel da estatal na exploração do pré-sal.

 
O Banco do Brasil também tem recebido anabolizantes nos últimos anos. Os lances mais recentes foram a compra da Nossa Caixa, controlada pelo governo de São Paulo, e a aquisição de 49% do capital do banco Votorantim. O banco ainda entrou no mercado imobiliário, no qual não atuava, e ganhou espaço no crédito durante a crise.
 
Outra ideia do governo seria transformar a Eletrobrás em uma megaempresa de energia. Além de manter o controle sobre as Chesf, Eletronorte, Furnas e Eletrosul, a estatal deve buscar realizar investimentos no exterior, como já faz a Petrobras, e
apostar em energias consideradas mais “limpas”.
 
Aparentemente, este fortalecimento das empresas estatais tem ocorrido sem maiores atritos com o setor privado. Até agora, o governo não estatizou empresas privadas. Ou seja, não está em curso algo nem minimamente parecido com o que ocorre na Venezuela de Chávez, por exemplo. O ativismo do governo brasileiro tem sido orientado para o crescimento das estatais já existentes, além do restabelecimento de uma, a Telebrás, que estava praticamente inativa.
 
Do ponto de vista de uma visão mais liberal da economia, este revigoramento do Estado, ainda que sem os desvarios de um Chávez, não é positivo. Afinal, mesmo sem estatizar empresas privadas, o governo está ganhando um poder muito maior de ingerência na economia em segmentos fundamentais para o desenvolvimento do País, como petróleo, energia, crédito e telecomunicações. De todo modo, se é para temer a pregação “pró-Estado” de Dilma, não é preciso esperar. Muito do que
ela fala sobre o “Estado forte” já virou realidade.

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