Reservas crescem em meio a fluxo negativo e volatilidade

Josué Leonel

24 de março de 2010 | 19h09

Os números divulgados hoje pelo Banco Central confirmam uma tendência que já vinha sendo observada nos dados disponibilizados diariamente pela instituição: a aceleração do crescimento das reservas. Apenas em março, até o dia 19, as reservas cresceram US$ 2,4 bilhões, alcançando US$ 243,5 bilhões.
 
O curioso é que este movimento recente de aumento das reservas não foi resultado de um fluxo positivo de recursos para o Brasil, como já ocorreu em outras épocas. Pelo contrário. Segundo os dados do BC, até a quinta-feira passada o fluxo cambial líquido (incluindo as contas comercial e financeira) estava negativo em US$ 2,666 bilhões. Considerando-se apenas o fluxo financeiro, a saída líquida foi ainda maior, de US$ 3,186 bilhões.
 
Os dólares comprados pelo BC saíram da posição dos bancos. Eles estavam comprados em US$ 2,070 bilhões no final de fevereiro e passaram a vendidos em US$ US$ 3,356 bilhões em 18 de março. Ou seja, em menos de 20 dias os bancos fizeram uma venda líquida de mais de US$ 5 bilhões, em contrapartida às compras feitas pelo BC para as reservas e às aquisições feitas pelos outros participantes do mercado que remeteram recursos para fora do País.
 
Normalmente, quando um banco ou investidor assume uma posição vendida em câmbio é porque ele está apostando na queda do dólar. No final de fevereiro, quando os bancos ainda estavam comprados, o dólar fechou em R$ 1,80. Aparentemente, não houve muita oscilação em relação à cotação atual, que está no mesmo patamar. Porém, a moeda registrou bastante volatilidade ao longo de março, tendo chegado ao nível de R$ 1,76 no dia 17, antes de voltar a subir mais recentemente em face do aumento da aversão externa ao risco. Como a posição vendida dos bancos ainda era elevada até a semana passada, supõe-se que eles mantinham a aposta na desvalorização do dólar.
 
Se os bancos resolverem reverter a posição de vendida para a comprada, a pressão de alta tenderá a prevalecer para o dólar. Uma eventual deterioração das expectativas no exterior em relação à situação da Grécia ou Portugal, por exemplo, poderia acentuar esta trajetória. No entanto, há também variáveis que podem sufocar um repique de alta da moeda americana.
 
Uma destas variáveis seria a confirmação das especulações sobre um reajuste de 100% ou mais para o minério de ferro. Um aumento deste porte, que não está embutido no preço dos ativos financeiros, poderia ter consequências positivas para a balança comercial brasileira e para o fluxo de investimentos para a bolsa e o setor de mineração.

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