Risco de crise sistêmica pode acelerar ajuda à Grécia

Josué Leonel

28 de abril de 2010 | 11h36

A aversão ao risco nos mercados internacionais vive um momento de forte recrudescimento. O índice VIX de volatilidade disparou mais de 20% ontem, alcançando o maior nível desde fevereiro. Nesta quarta-feira, as variações das bolsas parecem menores do que as registradas ontem. Mas ainda são expressivas, com destaque negativo para as quedas superiores a 2% nas bolsas de Portugal e Espanha, países que já foram citados por analistas como candidatos a “bola da vez” da crise na sequência da Grécia.
 
O maior temor continua sendo o de a crise grega ser apenas o estopim de uma crise maior, que atinja vários países da Europa. Afinal, é notório que déficits fiscais próximos ou acima dos dois dígitos ocorrem desde Portugal até o Reino Unido. Ao mesmo tempo, a Alemanha, país mais rico do continente e um dos poucos com as contas em ordem, segue fazendo um jogo ambíguo: ora acenando com ajuda à Grécia, ora emitindo declarações duras sobre exigências de que os gregos cortem seus gastos.
 
Apesar do rebaixamento da dívida grega para abaixo do grau de investimento representar um risco maior de default, o mercado ainda não precifica totalmente esta possibilidade. No fundo, ainda se acredita que, em algum momento, chegará o pacote salvador da União Europeia e do FMI. Mas ainda não está claro se a tensão atual é apenas a dor que antecede a solução para a crise ou a ponta do iceberg de um desastre.
 
Vale lembrar que a crise que estourou em setembro de 2008 nos EUA e que foi considerada a mais grave desde os anos 30 também havia começado um ano antes como algo mais localizado, o estouro da bolha imobiliária americana. Também a crise asiática, antes de se espalhar no final de 1997, havia começado meses antes na Tailândia com aparência de ser mais localizada. Ou seja, a pergunta ainda sem resposta é se o mundo está diante do estresse da crise da Grécia ou apenas no começo de uma crise muito maior, a europeia, que poderia, em seu limite extremo, colocar em risco até mesmo a existência do euro.
 
Caso se espalhe definitivamente para outros países europeus, a crise fiscal poderá evoluir para uma grave crise financeira. Afinal, cada gasto adicional feito pelos governos europeus foi financiado com títulos públicos comprados por bancos e repassados a fundos e investidores em todo o mundo. Diante da segurança
representada pelo euro, os investidores sentiram-se confiantes para financiar os déficits fiscais proporcionados pelos generosos programas sociais e sistemas previdenciários da Europa.
 
Estes investidores, contudo, são ciclotímicos por natureza. Nas épocas de bonança, aceitam comprar os títulos mesmo com taxas baixíssimas, o que incentiva os emissores a se endividarem ainda mais. Quando surge o estresse, passam a vender estes títulos na bacia da almas e só aceitam comprar, quando aceitam, a juros muito altos. Assim, justamente no momento de maior aperto, os governos precisam pagar taxas intragáveis para financiar dívidas que foram encorajados a formar nos momentos de fartura. Confirma-se, assim, o velho adágio de que os bancos oferecem dinheiro apenas a quem não precisa dele.
 
Com déficit e dívida altos e crédito escasso, os países europeus ficam em um dilema. Em tese, deveriam promover cortes de gastos profundos, de até 10% do PIB, para ajustar suas contas. O problema é que estes cortes ocorreriam quando a economia da maioria destes países ainda estaria no estágio inicial da recuperação
da crise do final de 2008. O risco seria de o aperto fiscal brecar a retomada do crescimento e levar a uma nova recessão, que poderia ter repercussão global, considerando-se o porte da economia europeia, em seu conjunto maior do que o dos EUA.
 
A ameaça de espalhamento da crise grega para outros países europeus, por outro lado, pode ter um efeito secundário positivo para a Grécia: incentivar as maiores potências europeias, especialmente a Alemanha e a França, além do FMI, a agirem mais rapidamente para socorrer o governo de Atenas. No caso da crise americana de 2008, sabia-se que muitos grandes bancos tinham dificuldades, mas apenas o Lehman Brothers foi entregue à própria sorte e quebrou. Há quem considere que um grande banco quebrou para servir de lição ao mercado, sinalizando que a tese do “grande demais para quebrar” nem sempre funciona.
 
No caso da crise europeia, se fosse aplicado o mesmo critério americano, os europeus poderiam deixar a Grécia quebrar e salvar os demais países deficitários, evitando a crise sistêmica. Mas será que este critério poderia ser aplicado sem contestações quando se trata de um país, de um povo? A alternativa seria, para ser equânime, negar socorro e deixar quebrar qualquer país que estivesse em apuros. Neste caso, até o Reino Unido estaria na berlinda. Obviamente, esta hipótese levaria a uma grave crise sistêmica e tende a ser descartada. O mais prático,
portanto, talvez seja salvar a Grécia antes que a crise se espalhe e, assim, tentar tirar os demais países europeus do alvo dos especuladores. Os alemães poderiam adiar o rigor com Atenas e outros países para depois que o risco sistêmico passar. O diacho é que, quando a crise sai do retrovisor, ninguém mais se lembra de fazer
cobranças ou adotar medidas impopulares.

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