Saída de Mesquita reforça mudança de perfil na diretoria do BC

Josué Leonel

31 de março de 2010 | 11h21

A saída do diretor de Política Econômica do Banco Central, Mário Mesquita, confirma a trajetória de mudança de perfil da diretoria do Banco Central. Entre o governo Fernando Henrique Cardoso e o primeiro mandato do presidente Lula, o BC se notabilizou por contar em suas diretorias mais importantes com representantes do mercado financeiro e acadêmicos da PUC-RJ, tidos como mais ortodoxos. Foram representantes desta tendência nomes como Afonso Bevilaqua, Eduardo Loyo e Alexandre Schwartsman, no primeiro mandato do governo atual, e Armínio Fraga, Gustavo Franco, Luiz Fernando Figueiredo e Ilan Goldfajn, no
governo FHC.
 
Nos últimos tempos, o panorama no BC vem mudando. No lugar de egressos do mercado financeiro ou da PUC-RJ, começou a aumentar o número de integrantes do Copom escolhidos das fileiras do próprio governo ou de organismos internacionais. Com a saída de Mesquita, que foi economista-chefe do banco ABN Amro antes de chegar ao BC, este processo é reforçado.
 
O novo diretor de política econômica é Hamilton Vasconcelos, que ocupava a diretoria de Assuntos Internacionais e é servidor de carreira da instituição. Para o lugar de Vasconcelos, vem um técnico que não é servidor do governo brasileiro, mas que também não vem do mercado nem da PUC-RJ. Foi escolhido Luiz Awazu, funcionário de carreira do Banco Mundial e que vinha ocupando o cargo de diretor regional para o Departamento 2 da África Austral do banco.
 
Awazu é doutor em Economia pela Université de Paris-I Sorbonne – o que também não deixa de contrastar com diretores que já passaram pelo BC, muitos com PhD nos EUA. Ou seja, o novo membro do Copom contribui para um certo arejamento do BC.
 
Se Henrique Meirelles deixar o Banco Central, este processo de alteração do perfil dos diretores ficará ainda mais pronunciado. Como ex-presidente do BankBoston, Meirelles é um representante de primeiro time do mercado financeiro, embora não fosse da área econômica, e sim da administrativa, o que ajudou a construir uma imagem de ortodoxo mais pragmático. Seu substituto mais provável, Alexandre Tombini, formado pela UnB, fez carreira no próprio Banco Central e no FMI antes de entrar para a diretoria do BC.
 
Esta mudança não quer dizer que o Banco Central ficará menos ortodoxo no combate à inflação. O compromisso com a estabilidade econômica não é privilégio de economistas do mercado, desta ou daquela faculdade de economia. De qualquer forma, esta formação mais arejada dos novos diretores não deixa de ser um fato novo que motivará no mínimo uma certa curiosidade sobre o comportamento do BC ao logo de 2010.

Tudo o que sabemos sobre:

BC; Meirelles

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.