Taxa de juro e câmbio são os únicos remédios para a economia?

Josué Leonel

23 de abril de 2010 | 11h32

O Brasil costuma enfrentar desequilíbrios econômicos com uma espécie de reação pavloviana. Se a inflação sobe, o remédio é elevar a taxa de juros, como, aliás, o Banco Central deve fazer na reunião do Copom da próxima semana. Se a ameaça vem das contas externas, como alguns especialistas já começam a ver nos últimos resultados do déficit em transações correntes, a reação instintiva, sobretudo dos empresários, é criticar a valorização do real e defender a alta do dólar como forma de estimular a balança comercial.
 
Mas será que o Brasil está condenado a usar apenas a política monetária para combater a inflação e o câmbio para equilibrar as contas externas? No curto prazo, não há muito o que fazer, especialmente em relação à inflação. Com a demanda aquecida no nível em que está e as projeções de inflação acima da meta, é praticamente consensual a aposta de que a taxa Selic vai subir entre 0,50 pp e 0,75 pp no Copom da semana que vem.
 
Em relação às contas externas, a situação é mais complicada. Muitos empresários gostariam de ver o dólar em nível muito mais alto do que o atual para ganharem maior competitividade para seus produtos no exterior e também para terem algum alívio no enfrentamento dos produtos importados aqui. A alta do dólar, porém, se
chocaria com o objetivo central da política monetária, que é o de manter a inflação na meta.
 
O mais provável, portanto, é que o BC use prioritariamente a ferramenta da alta dos juros, que, em tese, não apenas ajudaria a conter a inflação como também poderia impedir um maior desequilíbrio das contas externas. Afinal, uma das razões do déficit em conta corrente ter atingido nível recorde no primeiro trimestre é a mesma que está por trás das pressões inflacionárias: a demanda interna aquecida.
 
Uma solução alternativa para os desequilíbrios econômicos brasileiros, para muitos analistas, deveria vir da política fiscal. Se o governo conseguisse conter o crescimento dos gastos públicos e ampliasse expressivamente o superávit primário, haveria dois efeitos positivos: de um lado, a demanda agregada cairia, em razão dos menores gastos estatais, reduzindo a pressão inflacionária. De outro, o aumento do superávit reduziria a dívida interna, o que, combinado com a queda da inflação, não apenas tornaria a alta dos juros desnecessária, como permitiria ao BC reduzir drasticamente a Selic.
 
A melhora fiscal teria efeitos positivos inegáveis. Porém, certamente não seria suficiente para resolver todos os problemas, principalmente em relação às contas externas. O déficit em conta corrente, por exemplo, não necessariamente cairia. A redução dos gastos públicos, ao diminuir a demanda doméstica, poderia ter um efeito de baixa para a importação. Contudo, este efeito poderia ser anulado pelo câmbio. Mesmo em face dos juros mais baixos, o real tenderia a se valorizar. Isso porque a percepção de risco melhoria, aumentando o fluxo de recursos externos para o País.
 
Outras medidas, no entanto, também poderiam entrar em um cardápio de ações de longo prazo para reduzir a inflação sem necessidade de juros tão altos e para melhorar as contas externas sem que o real tenha de desvalorizar. Uma reforma tributária que reduzisse impostos (e não apenas facilitasse a cobrança e a arrecadação da Receita), a eliminação de entraves burocráticos, estímulos maiores ao ganho de produtividade nas empresas e investimentos maciços, públicos e privados, em educação e infraestrutura poderiam fazer parte da lista.
 
Em final de governo e com as eleições nas ruas, porém, parece difícil imaginar que a atual administração toque qualquer agenda reformista mais ambiciosa. Assim, não se deve esperar nada muito mais inovador do que a velha alta de juros de sempre na estratégia do Banco Central para manter a economia nos trilhos neste ano.

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