Urgência para alta dos juros pode ser menor, aqui e nos EUA

Josué Leonel

25 de fevereiro de 2010 | 05h30

O mercado abriu o ano de 2010 com a expectativa de alta de juros tanto no Brasil quanto nos EUA, aqui um pouco mais cedo, lá um pouco mais tarde. Os últimos acontecimentos nos dois países, porém, parecem sugerir que os bancos centrais brasileiro e americano podem contar com um prazo maior do que se imaginava para iniciar o aperto monetário.
 
No Brasil, a alta da inflação e os sinais de aquecimento da atividade devem continuar mantendo o aumento dos juros básicos na agenda do BC. Porém, em termos de timing, esta expectativa terá de ser reavaliada pelo mercado após o anúncio feito na noite de ontem pela autoridade monetária de que está iniciando a normalização dos limites de depósitos compulsórios, com a retirada de R$ 71 bilhões da economia.
 
Do total liberado no auge da crise, cerca de R$ 50 bilhões ainda continuarão com os bancos, o que significa que cerca de 60% do total já foi liberado. Os analistas ainda se dividem quanto ao efeito das medidas sobre os juros. No entanto, algumas conclusões parecem ser lógicas. A principal delas é a de que se o compulsório foi liberado no final de 2008 para evitar o enxugamento excessivo da liquidez e do crédito, a retirada agora tem objetivo oposto: equilibrar a liquidez para evitar um
superaquecimento do crédito, do consumo e, em última instância, da própria economia.
 
Retomando o paralelo com a crise de 2008, na época, a liberação do compulsório não impediu o Banco Central de baixar a Selic, o que ocorreria a partir de janeiro de 2009. No entanto, a flexibilização dos compulsórios começou a ocorrer antes, em outubro, no auge da crise. Se esta ordem dos fatores se repetir (uma obrigação que, em tese, não existe), o BC poderia agora, após agir no compulsório, esperar algum tempo antes de iniciar a elevação da Selic, talvez aguardando o Copom de abril, ou até deixando para depois. Assim, teria mais tempo para avaliar o cenário conjuntural no Brasil e no exterior.
 
Assim como no Brasil, nos EUA o cenário parece evoluir para a manutenção dos juros baixos por mais tempo – com a diferença de que lá os juros são infinitamente menores, aproximando-se de zero. Em seu depoimento semestral preparado para apresentação no Congresso norte-americano, o presidente do Fed, Ben Bernanke, afirmou nesta quarta que a economia americana ainda precisa de taxas de juro ultra baixas e destacou que o aumento na taxa de redesconto, adotada na semana anterior, não sinaliza uma mudança de política.
 
A própria manutenção dos juros americanos em níveis baixos por mais tempo não deixa de ser um fator adicional de tranquilidade para a política monetária no Brasil. Também neste caso, vale notar que, no auge da crise, a queda da Selic por
aqui foi precedida pelo alívio monetário nos EUA e em vários outros países. O Brasil aumentar a Selic em um cenário de juros ainda próximo de zero nos EUA e em outros grandes países poderia trazer como inconveniente a ampliação do diferencial entre as taxas domésticas internas e externas, favorecendo a entrada de recursos estrangeiros para arbitragem.

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