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“Surpresa” embaixo do colchão

José Paulo Kupfer

25 de agosto de 2009 | 17h18

É fácil ouvir de analistas do setor de bancos que as instituições financeiras brasileiras escondem lucros embaixo da rubrica de seus balanços contábeis denominada “provisões”. Difícil é encontrar analistas que digam isso com nome e sobrenome. No primeiro semestre deste ano, o burburinho entre os analistas foi ainda mais intenso do que o normal. Há razões de sobra para o diz-que-diz. 

No dia seguinte ao da quebra do Lehman Brothers, já vai fazer um ano daqui a pouco, os bancos brasileiros fecharam drasticamente a torneira do crédito e, como disse o ex-ministro Delfim Netto, importaram a crise para cá. Nossa crise, hoje é quase óbvio, foi, antes de tudo, uma crise de liquidez.

Ainda que o Banco Central tenha afrouxado compulsórios e realizado outras manobras na tentativa de irrigar o mercado com crédito, os bancos mantiveram as porteiras trancadas pelo menos até maio. Portanto, entre setembro e abril, emprestaram menos e o pouco que saiu de seus cofres custou uma fortuna sob a forma de adiposos spreads.

Como, então, aparecer depois com lucros monumentais e ainda mais no meio de um ambiente carregado de pressões do governo e de gritaria do empresariado dinheiro por mais barato? É aí que entram as provisões. Todos os grandes bancos, inclusive os estatais, no primeiro semestre, elevaram suas reservas para devedores duvidosos em níveis superiores ao que determina o Banco Central. Nem assim deixaram de figurar na liderança das listas de rentabilidades dos setores da economia, entre janeiro e junho.

Sim, sim, os devedores, que, por definição, são duvidosos até prova em contrário, ficam ainda mais duvidosos em situações de crise global e, portanto, escassez extrema de dinheiro. Mas, como se diz, para tudo há um limite. Inclusive para provisões muito acima dos limites exigidos pelas normas legais.

O problema é que não há, segundo os especialistas, como provar, tecnicamente, no tempo presente, que houve excesso na formação de reservas para devedores duvidosos. Mas o tempo não é apenas senhor da razão. Também vai confirmar ou não se existiu excesso e em que montante se deu.

Com o cenário econômico melhorando, os índices de inadimplência devem recuar a partir do terceiro trimestre. Aos bancos não restará outra saída a não ser tirar, aos poucos, as provisões debaixo do colchão e apresentá-las sob forma de lucro.

A conclusão dos analistas é que, mais à frente, aparecerão lucros bilionários. A minha é a de que nem os registros contábeis, aparentemente tão técnicos e inocentes, são politcamente neutros.

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